Viver é praticar liberdade. Quando o ser humano depara com obstáculos, usa sua criatividade para superá-los. Quando o ser humano depara com proibições começa a definhar.

Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012

PARQUE PETAR



Quem viaja para esse parque é porque quer conhecer cavernas. Nessa região existem centenas delas, algumas podem ser visitadas pelo turista, desde que acompanhado por guias locais, credenciados pela administração.

Caverna do Diabo

Normalmente a primeira a ser visitada é a lendária “Caverna do Diabo” . Embora ela esteja fora dos limites do parque Petar, faz parte do roteiro de quem quer conhecer as cavernas existentes no vale do Ribeira. A Caverna do Diabo é a mais urbanizada, podemos dizer assim, com entrada facilitada por trilha calçada e o interior protegido por corri-mãos e escadas esculpidas nas pedras. Não há dificuldade nenhuma para o turista caminhar pelo seu interior. Antigamente ela era toda iluminada, mas hoje esse recurso foi retirado, pois estava alterando as condições internas e criando colônias de algas e fungos na presença de luz.
Já no parque Petar poucas cavernas podem ser visitadas mas mesmo assim são consideradas representativas nas suas características e de como se formaram, criando fantásticas galerias ornadas por estalagmites e estalactites. Guias treinados levam o público por alguns quilômetros adentro, desde que cada pessoas esteja protegida por capacete e botas de borrachas, além do lanternas. É para quem tem espírito de aventura.


Caverna do Núcleo Caboclo



Placa Indicativa




Corredeiras do Rio Bethary



Pinguela sobre o Rio Bethary



Saida Pequena Caverna Núcleo Caboclo



Portal da Entrada Caverna do Couto




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Terça-feira, Agosto 02, 2011

DEPOIS DA CHUVA

Percorri a margem do rio, pela trilha dos pescadores. Havia locais em que restos de embalagens de plástico ou papel, carvão e madeira queimada indicava o local preferido dos pescadores para acampar. Numa parte em que o barranco ficava mais alto, sentei numa pedra e olhei para o meio do rio. Havia chovido na noite anterior e as águas estavam barrentas e bravas. O nível da água subira pelo menos um metro e no meio da correnteza, de vez e quando passavam pedaços de paus, galhos e troncos flutuando no meio da turbulência do rio. O dia estava fechado, sem sol. As folhas das árvores e o capim permaneciam úmidos e as trilhas mantinham poças de água e barro. Não era um dia bom para pescaria. Levantei-me e continuei a caminhar pela margem irregular. A trilha subia, descia, virava para a esquerda, depois para a direita, aproximava da margem, em seguida afastava da margem, contornando pedras e árvores, atravessando grotas e seguindo leitos de enxurradas.
Depois de caminhar por mais de meia hora, cheguei à curva do rio, onde o leito abria num quase lago, de águas mais calmas. O barranco externo da curva tinha marcas do choque constante das correntezas, forçadas a se desviar. Aquela curva funcionava como freio, deixando as águas mais calmas e ali era o ponto preferido de pesca por todos os pescadores que conheci. Perto da curva havia um pequeno rancho de palha, sem paredes, construído para dar abrigo aos pescadores. Quando me aproximei vi gente; dois deles estavam agachados na margem com a vara fincada na terra e a linha mergulhada nas águas sossegadas do rio; outro mexia com o fogo de um fogão improvisado sob a cobertura do rancho, ainda outro abria um peixe com a faca, tirava suas vísceras e jogava para um par de cães que saltitavam a seu lado.
- Bom dia! Cumprimentei o homem que ajeitava a lenha no fogão improvisado com pedras. Uma panela fervia sobre essas pedras.
O homem levantou a cabeça, olhou para mim e sorriu, devolvendo o cumprimento. Os outros voltaram suas cabeças na minha direção. Cumprimentei a todos. Um deles eu conhecia, era o Joaquim, o primeiro que estava pescando. O que estava limpando o peixe veio em direção do fogo, pegou uma vara, atravessou o corpo aberto e sem viceras e colocou-o sobre as brasas, ao lado da panela.
Achei que era uma oportunidade de prosear um pouco e ficar conhecendo o mundo daquelas pessoas aparentemente comuns.
Sentei-me num tronco caído, diante do fogo e percebi que aquelas b pessoas me aceitavam com naturalidade. Todos continuavam a fazer o que estavam fazendo. O que estava mexendo na panela sobre o fogo era o Pedro Boiadeiro. Ele olhou para mim e disse:
- Você não veio pescar, veio?
- Não, respondi.
- Você apareceu com as mãos abanando, completou…
- É, estou aproveitando o domingo para perambular pelas margens do Rio.
- E acha divertido?
- Sim, descansa a mente.
- O que me descansa é pescar, explicou Pedro Boiadeiro.
- Eu entendo.
O homem que limpava um peixe, agora estava preparando um cigarro de palha e de vez em quando olhava para mim, sem dizer uma palavra.
Perguntei o seu nome e ele respondeu rapidamente.
- Sou o Gerônimo, o filho do Vicentino.
- Há! Já ouvir falar de você, respondi.
- Ei, Thomaz! Chega até aqui, chamou Joaquim da beira do rio.
Fui até lá e fiquei de pé a seu lado,enquanto ele segurava a vara de pescar, com a linha e o anzol mergulhados na água.
- Fiquei sabendo que ´ocê é vegetariano.
- Sim, sou, respondi.
- A Marilda me disse que jantou na casa dela. – Teve que fritar quatro ovos para ´ocê, comentou rindo.
- É verdade.
- Mas, não come nem peixe?
- Não. Nem galinha?
- Só o ovo da galinha? Respondi divertido.
- Sim.
- Ei, gente! Gritou Joaquim voltando para os outros companheiros de pescaria. – Ele não veio pra comer nossos peixes; ele é vegetariano, explicou dando uma gargalhada.
- Com certeza, conclui, meio sem jeito.
- Já vi ócê em Santa Cruz, falou o homem que pescava mais adiante, no inicio da curva do rio.
- Sim, estou morando lá já faz um ano, respondi. O homem era calvo, atarracado e tinha uma cicatriz no rosto.
- Meu nome é Tarso, explicou, sorrindo.
- Muito prazer, respondi.
O cheiro forte de peixe assado espalhava-se no ar. Algumas aves passavam voando baixo e um Martim pescador pousou no galho de uma árvore inclinada sobre o rio, do outro lado. Olhei para o rancho e vi o homem que assava o peixe, cortar uma lasca do corpo do mesmo e experimentar com prazer.
O homem que se identificou como Tarso, da cicatriz, deixou a vara fincada na barranca do rio com a linha mergulhada na água e veio em minha direção.
- Cuidado! Esse ai é pistoleiro, gritou, rindo, o Joaquim, apontando para o homem
- É perigoso? Perguntei, encarando-o.
- É graça dele, replicou Tarso, estendendo a mão para me cumprimentar. – Não sou de encrenca, não.
- ´Stou brincando, justificou Joaquim, rindo.
- Sou porque matei uns sujeitos por aí, ele me chama de pistoleiro.
- Matou? Arregalei os olhos.
- Ele matou uns dois ou três e diz que não tremeu, nem teve dó, comentou Joaquim irônico.
- Ele ´stá querendo passar medo em ´ocê. – Não liga não rapaz, explicou o homem.
- Não estou com medo.
- Eu não caço briga, não, tornou a justificar.
- Sei...
- Ele parou de matar, Thomaz. – é meu melhor amigo.... não precisa ter medo dele, explicou Joaquim. – Por menos por enquanto... arrematou, zombeteiro.
- Mas, o que faz.... vive de quê? Perguntei, enquanto observava-o puxar um pedaço de tronco e sentar-se.
- Sou amansador de cavalo.
- Dos que amansam com brutalidade ou daqueles que preferem amansar o animal com jeito?
- Gosto de amansar com jeito, explicou.
Percebi que o homem queria conversar comigo e então preparei-me para adivinhar as
suas intenções.
- “Ocê que é mais entendido, começou a perguntar, deve saber se é melhor ser crente ou
continuar católico: que acha?
- Eu fui criado pelos crentes, expliquei, meu pai era pastor da igreja Adventista. Deixou a
católica quando eu ainda era criança.
- E então?
- Os crentes também são chamados de Protestantes, continuei, pois não concordam com os
costumes da igreja católica, principalmente sobre adoração de imagens e obediência ao papa.
- Minha mãe era muito carola, comentou Tarso, enquanto cutucava o chão com uma varinha curva. – Meu pai, era um cachaceiro e abandonou a gente logo que eu nasci.
- E aí? Perguntei para incentivá-lo a continuar.
- Minha mãe rezava todo dia para Dez cuidar de nós, mas acho que ele não cuidou nada.
- Porque você pensa assim?
- A gente, eu e meus cinco irmãos, passava fome e vivia em taperas abandonadas lá na Trabucaia. – Eu tinha seis anos e já fui trabalhar pros outros....
- E sua mãe continuava rezando?
- Rezava, acendia velas para Nossa Senhora. Uma vez pegou fogo no altar dela, com as velas, sabe, e queimou a santa junto com a mesinha de madeira e só não pegou fogo toda na casa porque eu e meus irmãos corremos com baldes dágua e apagamos o fogo.
- Foi assustador?
- Foi uma loucura. – Olha, se Deus existe deve ser muito esquisito, não acha?
- Penso assim como você, respondi.
- Ta vendo! Não é só eu que duvida disso, exclamou para os outros ouvirem.
- O Tarso diz que houve a voz dos homens que ele matou, nos sonhos, comentou Joaquim.
- E verdade? perguntei, olhando-o firmemente.
Tarso baixou a cabeça e cutucou o chão, visivelmente angustiado.
- É.
- Isso acontece, repliquei, procurando parecer despreocupado.
- “Ocê acha que é castigo? Deus castiga assim?
- Você não é daqueles que duvidam de Deus? Perguntei tentando forçá-lo a raciocinar com mais profundidade.
- Sou. – Mas tem hora que fico tendo pesadelos pelo que já fiz, comentou sem levantar os olhos.
- Ai acha que Deus pode não proteger, mas consegue castigar.
- É. – “Ocê diz bem. – Acho que Deus é mal.... talvez cruel com a gente.
- Posso dizer uma coisa? Deus pode ser a nossa voz da consciência e só, expliquei.
- Como assim? Levantou os olhos para observar a minha expressão do rosto.
- Sua mãe falava de Deus, dizia que ele castiga quem desobedecia e isso ficou na sua cabeça, quero dizer que você acreditou nisso, no que ela dizia e agora é difícil desacreditar, entende?
- Acho que é isso mesmo, respondeu mais animado.
- “Ocê acha que é muito errado tirar a vida dos outros? Perguntou ansioso.
Fiquei em silencio por um momento, tentando achar as palavras mais apropriadas para não deixá-lo mais confuso ainda.
- Olhe, Tarso, existem muitas situações em que a gente pode tirar a vida de um semelhante.
- Eu também penso assim.
- Tem sujeito que mata por prazer, pra ver o outro morrer aos seus pés. Tem outros que matam pra provar que é o melhor. Ainda outros que matam para defender a própria vida. Por fim , tem os profissionais, aqueles que matam por encomenda; as vezes sentem até piedade pelo coitado, mas precisa fazer o trabalho, não é assim?
- É. – “ocê fala bem.... desanuvia a cabeça da gente, explicou com um suspiro.
- E então?
- O primeiro eu matei pra me defender. – Era um valentão que gostava de desafiar os outros, sabe?
- Conheço esse tipo de gente...
- Eu não fiquei com medo dele.... tive que matar.
- Fez uma coisa justíssima, respondi para incentivá-lo.
- Aí fiquei famoso. – Todo o mundo me cumprimentava, fiquei respeitado.
- Muito interessante.
- Então, o pessoal começou a achar que eu podia ajudar.... acabar com os desafetos, sabe?
- Entendo....
- O cara me ofereceu uma boa paga..... era um serviço simples... foi fácil... precisava de dinheiro.
- Perfeitamente normal, aprovei.
- O outro também.... me pagou um bom pacote. Mas aí, não gostei mais. Fiquei um tempo sumido lá pras bandas da Cabaça Quebrada, trabalhando de lenhador.
- Não queria virar matador, pistoleiro?
- Não. Imaginava que minha mãezinha pudesse ficar sabendo que eu fazia aquilo.... não era bom.
- Sua mãe era muito bondosa?
- Era uma santa. Não roubava nem uma banana dos outros. Era capaz de morrer de fome mas, não pegava nada de ninguém.
- Entendo...
- Ajudava gente, qualquer um.... e era ela que precisa de ajuda.
- Muito bonito....
- Ela morreu naquela época.... nem sei se ficou sabendo do que eu fazia.
- Morreu quando você foi embora?
- É. – Não pude ver o enterro.... foi triste.
- Descansou, pelo menos, expliquei meio sem jeito.
- A vida dela foi sofrida.... disso eu sei, explicou, tentando aliviar o sentimento de culpa.
- Com o tempo a gente dá valor no que perde... comentei apenas para não ficar calado.
- Com certeza. Minha mãe trabalhava pros outros, fazia qualquer coisa, lavava roupa, limpava casa, capinava roça. A gente era criança e ajudava ela. Ela cantava enquanto trabalhava e ficava brava quando a gente brincava no serviço. Mas a gente era muito criança... gostava de brincar.
- Era normal, apartei apenas para reforçar minha compreensão.
- Nunca casei.... vivo sozinho.... é bom.... as vezes é ruim, entende?
- Claro!
- Falei dos crentes....
Ah! Sim. – Conheceu eles?
- É. – Estiveram em minha casinha. Falaram muita coisa bonita. Fiquei contente. Assim, muita conversa bonita.
- Falaram do lado bom do seu Deus?
- Isso! Isso mesmo. “Ocê conhece, né?
- Sei. Mas, o que falaram pra você?
- Que Deus é bom, mas só pra aqueles que lê a bíblia e segue as leis que ta escrita lá.
Mas, eu não sei ler... só posso ficar ouvindo eles falar.
- Compreendo.
- Mas minha cabeça ficou matutanto uma coisa.... minha mãe não lia a bíblia.... também não sabia ler.... só apredeu a rezar.... era devota da Nossa Senhora.
- Mesmo assim Deus não cuidou dela?
- Não sei.... Ela merecia ta no céu.
- Quem sabe?
- Merecia sim.... era muito boa pra todo o mundo.... até pra quem não valia nada.
- Compreendo.
- Falei isso pro crente, sabe?
- Falou?
- Ele ficou quieto.... mudou de assunto.... não gostei disso.
- Mas religião é isso. Cada um acha que tem razão e despreza as práticas religiosas do outro.
- E Deus não é um só? Perguntou me olhando extranhamente.
- É o que dizem.
- “ocê continua crente?
- Continuo, mas do meu jeito. Não sou membro de nenhuma religião em particular.
- Ta vendo como isso é tudo confuso! Exclamou irônico.
- Com certeza.
- Eu sou católico, aproximou-se Pedro Boiadeiro, mas não perco tempo em ir na igreja ouvir o padre. Sigo a minha família.
- Muita gente faz isso, comentei.
- O Tarso ta certo, a mãe dele era uma santa... eu conheci e se algum crente ou católico disser que ela não merece ta no céu... eu não vou acreditar em mais nada.
- É difícil acreditar nos homens, respondi. Cada um fala uma coisa e ninguém se entende.
- Isso é verdade, respondeu Pedro, apontando para o Tarso. – Sua mãe ta no céu... disso pode ter certeza.
- Eu sei.... a vida dela foi de sofrimento e morrer ou foi descanso de tudo ou foi para viver noutra vida só de alegria, comentou Tarso, suspirando.
- É nisso que faz bem acreditar, acrescentei, evitando complicar suas crenças.
O sol estava quase à pino e o calor agradável da beira do rio cercado de mata tornava o ar convidativo ao relaxamento e à despreocupação da vida. Levantei-me.
- Vou continuar meu passeio, expliquei.
- Gostei muito de prosear com “ocê, comentou Tarso, contente.
- Conversaremos mais outro dia, com certeza, respondi.
- Fico contente.
- “Ocê não é crente mas fala bem, acrescentou Pedro, dando um tapinha nas minhas costas, entende das coisas.... “ocê é estudado, não?
- Freqüentei a escola um punhado de anos.
Gosta de ler, né? O povo diz que tem um monte de livro em casa, explicou Joaquim, aproximando com um grande peixe debatendo nas mãos.
- Gosto de ler, sim!- Pescou um belo dourado! Exclamei, admirando o brilho das escamas.
- Esse é dos bons!
- Adorei papear com vocês, mas, vou deixá-los em paz com a pescaria.
- Não ta atrapalhando, não.... explicou Tarso, tocando meu braço com carinho.
- Conversaremos noutra hora, prometo.
Sai pela trilha, convicto de que tivera uma mais que agradável hora de descompromissada
prosa. Nada mais prazeroso do que conhecer o drama de pessoas simples e ao mesmo tempo tão autênticas e sem nenhum verniz de erudição dissimuladora da vida.

Quarta-feira, Janeiro 26, 2011

O CAMINHO QUE VAI

Abel Aquino

O homem caminha solitário;
Os pés amassam a lama da estrada.
A camisa é uma bandeira que passa,
Enquanto o vento anuncia outra noite,
Soprando ruídos e farfalhando folhas.

Mesmo o observador desatento
Percebe os passos dos que vão,
Os relincho dos cavalos, o rom-rom dos motores.
Vejo caminhões cobertos de lona,
Pneus chapinhando o barro vermelho.

Tarde da noite - o bêbado cantarola,
Passa e tudo volta ao silêncio.
Faróis iluminam o capim da margem,
As poças se espalham e o veículo vai;
Fica apenas o brilho frio do luar.


De manhã a nevoa atravessa o milharal;
Acima do capim vejo a cerca de madeira.
As vezes tenho vontade de seguir o mundo,
De trilhar velhas e novas paisagens,
fadigar e seguir o caminho de volta.

Sexta-feira, Dezembro 17, 2010

O MELHOR DO DIA

Abel Aquino

Levantei da cama sem pressa. Abri a janela e olhei a semi-escuridão. As galinhas ainda estavam no puleiro e o gado dormia junto à porteira do curral. Olhei para o leste e vi o clarão amarelo do horizonte, o anúncio do amanhecer. Coloquei minhas calças e sai em direção à sala, deixando Chel dormindo. Calcei minhas botas e sai pela cozinha, abrindo a porta do fundo e saindo para fora, no ar fresco da madrugada. Peguei alguns troncos de lenha e voltei para acender o fogão. Procurei uma lamparina, risquei o fósforo e encostei-o no bico entumecido de querozene. A chama iluminou a cozinha. Arrumei as achas na boca do fogão e puxei a tampa da lamparina e derramei um pouco de querozene sobre a lenha.
Sentei-me no banco de madeira, estiquei as pernas, fechei os olhos e deixei meus pensamentos flutuarem no tempo e no espaço de meu universo. A manhã é a melhor parte do dia e o que sinto nessa hora, determina todo o resto.

Domingo, Novembro 28, 2010

É MELHOR QUE GATO!

Abel Aquino

Firmino parou perto do chiqueiro e notou que as galinhas do terreiro estavam agitadas e barulhentas. Dali viu a serpente esgueirando-se pela porta aberta de seu casebre. Aproximou-se lentamente e pode perceber que se tratava de uma jibóia grande e com pedaços de pelo soltos sobre o dorso. Acompanhou o réptil, enquanto arrastava-se pelo interior passando por entre os sacos de feijão, por baixo da mesa e das cadeiras e rumando para o quarto. Suas voltas eram lentas e a língua bifurcada estendia-se a cada segundo. Parecia procurar algo. Firmino ficou curioso: queria ver o que ela buscava por debaixo da cama e por trás da bruaca de roupas. De repente o réptil retraiu-se, formou algumas rodilhas e esticou o pescoço, parecendo concentrado e atento. Depois de um minuto imóvel, lançou a cabeça para frente e capturou o camundongo que estava escondido no espaço entre a bruaca e a parede de pau à pique. Enquanto a cobra se preparava para engolir o animal, Firmino foi até o fogão, pegou uma caneca de café, sentou na cadeira e ficou espiando a cena. Depois que o réptil engoliu o rato, esticou-se com aquele calombo na barriga, olhou para o lado do homem e começou a se mover lentamente. Passou pela porta que dividia o quarto da sala e arrastou-se na direção da saída.
Firmino estava satisfeito e pensou consigo: essa é melhor que gato!
Mas, se começar a comer os pintos de minhas galinhas, eu mato.

Terça-feira, Setembro 07, 2010

SESSENTA VELAS PARA JACINTO

Abel Aquino

No dia do em que completou sessenta anos, Jacinto percebeu que sua vida passara. Levantou de manhã, desejando ouvir alguém cantando “parabéns pra você” como nunca desejara. Enquanto tomava o café como fazia há muitos anos, folheava uma velha e rota revista. Deteve-se numa foto de um casal abraçado, sorrindo e viu sua vida percorrer a mente como um filme em alta velocidade. Foi até o banheiro e observou seu rosto refletido no espelho. Sua pele excessivamente branca estava vincada e áspera, com sardas protuberantes e rugas profundas. O cabelo grisalho substituíra as mexas ruivas da juventude.
Além da mãe - que morrera cedo - não conseguia se lembrar de alguma mulher importante em sua vida. As poucas vezes em que fizera sexo, foi com prostitutas ocasionais. Lembrou-se da Joana, a baixinha que mandava recados através das amigas, mas a qual nunca dera resposta. “Parece que eu sempre tive medo das mulheres”, pensou.
Nunca fora um homem de festas, mesmo na juventude; não sabia dançar nem perdia tempo com música; só sabia trabalhar. O primeiro emprego, fora carregar lenha numa carriola de madeira; tinha dez anos de idade. A partir daí, a vida foi só trabalho. A única diversão era ir aos domingos assistir as peladas de futebol que aconteciam no campo dos Gonçalos. Nos fins de tarde, passava algumas horas no botequim do Biro, tomando pinga e fumando. Essa era sua vida.
Depois que a mãe morreu, passou a ouvir dos conhecidos que precisava casar, arrumar uma companheira. Aborrecia-se com aquilo, mas nunca perguntou a si mesmo o porquê. A mãe, a mulher com quem mais conviveu, era quieta, triste e também muito solitária. Seu pai a abandonara com dois filhos pequenos. O irmão, que era mais velho, saiu de casa aos 12 anos e foi viver longe. Visitava a mãe uma vez por ano e nada falava da família que formara. Jacinto sabia que tinha dois sobrinhos e uma sobrinha, mas não os conhecia. O irmão, quando vinha visitar a mãe, apenas o cumprimentava, sem trocar palavras que não fossem monossílabos, tipo “sim”, “não”, “é”.
Agora, com sessenta anos, Jacinto sentia angustia e solidão. Olhou pelo corredor que dava para a cozinha e imaginou que mulher alguma ali passava, vindo do quarto ou indo fazer comida. Tinha apenas a Clotilde que vinha fazer a limpeza, uma vez por semana. Jacinto a pagava com prazer depois de ver a casa organizada e cheirosa, as roupas lavadas, passadas e guardadas no armário.
Lembrou-se de que uma vez ficou a observá-la encerando o assoalho. Trabalhava cantando, alegre e cheia de energia. Jacinto aproximou-se e sentiu o cheiro de suor feminino. A saia estampada terminava acima dos joelhos e podia-se ver um par de pernas vigorosas e bem cuidadas. Sentiu vontade de agarrá-la, apertá-la nos braços e apalpar o corpo macio, apertando as partes mais íntimas. Assustou-se com a idéia, desviou o olhar e caminhou para fora. Clotilde era casada, um pouco feia e jamais demonstrara alguma atenção especial ou consideração por Jacinto. O marido é que dizia:”ocê precisa arrumar uma mulher para cuidar da casa e de ocê” repetia zombeteiro. Oferecia sua cunhada, viúva e cheia de filhos para criar. Jacinto fazia careta e evitava dar desculpas para não estimular mais ainda as insinuações.
Mas sessenta anos passaram-se rapidamente e precisava alterar o rumo da vida, antes que tarde demais. “E já não seria tarde de mais?” Perguntou a si mesmo. Alguma mulher poderia querer, agora, um velho como ele? Mas uma coisa estava decidida; não iria trabalhar no dia do aniversário.
Barbeou-se, tomou banho, escovou cuidadosamente os dentes, vestiu a melhor roupa que tinha e saiu para a rua, disposto a ver pessoas, conversar, tagarelar e principalmente encontrar mulheres. Sim, precisa papear com mulher. Pensou em procurar uma prostituta, mas afastou rapidamente a idéia. “Hoje quero fazer coisa diferente”, falou com seus botões. Escolheu fazer um passeio pelo comércio, pela praça e por onde pudesse cruzar com mulheres. Entrou no mercado e viu a Tereza arrumando as gôndolas.
- Bom dia, Tereza!
- Bom dia, Jacinto. – O que aconteceu com ocê hoje, todo arrumadinho num dia da semana!
- É meu aniversário, respondeu sorrindo.
- É! Ta bonitão! Brincou, abrindo os braços e os descansando nos quadris, com ar sensual e alegre.
Jacinto excitou-se. Pensou em seu íntimo: “o que está acontecendo comigo?” – “Parece que estou com aquele fogo dos vinte anos?!”
Mas sabia que ali não era lugar para ficar proseando com uma mulher em seu horário de serviço. Trocou mais algumas palavras com a Tereza, despediu-se e saiu do mercadinho.
- Não vai comprar nada? Ouviu-a perguntar atrás de si.
- Depois eu volto, respondeu, saindo para a rua.
Na praça, viu uma mulher sentada no banco de pedra, cuidando dos dois filhos que brincavam no canteiro de grama. Lembrou-se de que nunca tivera a experiência de ser pai, de ter filho para cuidar. “Por que será que só agora penso nisso?” “Será que é porque estou chegando ao fim da vida?” Não sabia responder.
Desceu a rua do Alípio e lembrou-se da Marcela, a dona da venda de doces, mulher descasada, muito prosa. Jacinto dirigiu-se para lá. Viu a empregada passando pano no chão com o rodo. De vez em quando ela parava e chutava um cão teimoso que tentava entrar.
- A dona Marcela está? Perguntou timidamente.
- Deu uma saidinha, mas já volta, explicou a moça. Quer alguma coisa?
- Sim, quero dizer, encomendei algo e preciso falar com ela, gaguejou Jacinto.
- Ela volta logo, concluiu a empregada, continuando a esfregar o piso.
Esperou alguns minutos e decidiu continuar sua caminhada.
- Volto mais tarde, explicou para a moça, seguindo em frente.
Perto do meio dia, já havia proseado com uma dezena de pessoas, mas com nenhuma mulher. Decidiu almoçar no pequeno restaurante do Marcola.
- O que deu em ocê? Perguntou curioso.
- To comemorando meu aniversário, hoje; não vou nem trabalhar, respondeu, procurando um lugar para se sentar.
- Faz bem, argumentou o comerciante, esfregando as mãos.
- O que vai comer?
- Pode ser bife acebolado e aquele molho de batata, que adoro.
- Ótimo! Arroz, feijão, bife e molho. – Alguma salada?
- Pode vir.
- Alzira, gritou Marcola, prepara um almoço caprichado para nosso amigo Jacinto; bife acebolado e molho de batata, de mistura. – uma salada também, concluiu.
A mulher surgiu na porta que dava para a cozinha, cumprimentou Jacinto e foi preparar o pedido.
- Essa sua cozinheira é muito boa, comentou Jacinto.
- É boa em tudo, respondeu o homem com um sorriso zombeteiro.
- É, exclamou Jacinto, sem entender.
- Ocê precisa ver na cama como capricha, cochichou Marcola, inclinando o corpo sobre a mesa e olhando dentro dos olhos de Jacinto.
Jacinto estremeceu, embaraçado. O homem endireitou o corpo, mantendo o sorriso irônico.
- Mas ocê é casado, Marcola, sentenciou Jacinto.
- Sou casado e sei dar minhas escapadas, voltou a dobrar o corpo na sua direção. – Acho que me satisfaço só com a velha? Homem nenhum pode ter uma mulher, só... perde a graça, comentou, mais irônico ainda.
- E é? Gaguejou Jacinto.
- Ocê deve gastar uma nota no puteiro todo mês, não? – é solteiro, sem mulher em casa para esquentar a cama... continuava zombeteiro.
Jacinto abaixou os olhos e respondeu com a voz baixa:
- Gasto sim!
- É assim mesmo, meu amigo! A Alzira ganha pra cozinhar e, nas horas vagas, faz hora extra particular, concluiu rindo.
Jacinto nunca pensara dessa maneira. Jamais perdera tempo em imaginar que o mundo era assim tão cheio de sexo e excitamento, como era para o Marcola.
Voltou para casa contente. O mundo ainda o surpreendia. Sentiu que vivera sessenta anos de uma vida monótona sem ver que outro mundo corria a sua volta e não percebia. Aproximava de casa quando viu a Clotilde.
- Bom dia! Cumprimentou, sem reparar que já passara do meio dia.
- É boa tarde, Jacinto. – Como você está bonito hoje! Que acontece? Perguntou, admirando-o de alto a baixo.
- Hoje é meu aniversário e não fui trabalhar, explicou, evitando cruzar os olhares.
- Meus parabéns! Desejou a mulher. – Quer que eu vá dar uma limpadinha na sua casa e ocê passa o resto do dia de aniversário numa casa mais em ordem?
- Eu quero, sim, respondeu satisfeito.
Meia hora depois Clotilde chegou. Havia trocado de roupa, penteado o cabelo e pintado de vermelho os gordos lábios. Jacinto sentiu um frio na barriga. Enquanto a mulher varria a casa, ia de um lado para o outro, mas evitava observá-la para não se excitar. Sentou-se na poltrona da sala e acendeu um cigarro, buscando relaxar. Depois de varrer e passar pano em toda a casa e lavar as vasilhas da cozinha, Clotilde perguntou onde estavam as roupas sujas.
- Vou por de molho, explicou.
Jacinto olhou-a como nunca tinha olhado. Os seios redondos e firmes escapavam do decote do vestido. O sorriso malicioso causou cala-frios.
- O Aldo está trabalhando? Perguntou, preocupado com os pensamentos obscenos que o acometiam.
- Não tá, respondeu. – Foi fazer um carreto para o Seu Juvenal; volta amanhã, concluiu com ar casual.
Jacinto sentiu de novo aquele frio percorrendo a espinha. Levantou da poltrona e foi até o quarto juntar as roupas usadas para entregar a mulher. Catou, sem pressa, as roupas espalhadas pela cama, as enroscadas na cadeira e as jogadas no chão. Sentiu o perfume da mulher. Olhou para trás e ali estava ela a um passo, olhando fixamente. Pensou: “até que não é feia”. Os olhos dela procuravam os seus. Jacinto ficou perturbado com aquele penetrante olhar e baixou a cabeça. Ela estendeu a mão.
- Ocê tá bem? Perguntou num sussurro.
Jacinto levantou os olhos, disposto a reunir coragem e a seguir em frente. Pegou a mão estendida. Estava quente e macia. Deu um passo para frente e encontrou o corpo trêmulo e macio. Viu os lábios abrirem-se, molhados e macios.Fechou os olhos e encostou os seus próprios lábios naquela boca exposta e excitante. Foi um beijo demorado. Quando abriu os olhos, viu que a mulher puxava as alças do vestido e o deixava cair.
Foi o melhor sexo que jamais experimentara.
Terminado, jogou-se na cama, enquanto a mulher recompunha a vestido. Ela saiu, em silêncio. Jacinto fechou novamente os olhos. Sua cama parecia girar, seu peito arfava. Não podia acreditar que jamais conhecera tanta emoção em sessenta anos. A mulher continuava a trabalhar; pôs a roupa suja de molho e bateu o pó dos móveis da sala. Jacinto ouvia os ruídos que ela fazia, imaginando que seria uma ótima coisa ter mulher para si, cuidando da sua vida, conservando a casa limpa e arrumada, além de dar prazer e calor na cama.
Clotilde falou do corredor.
- Acabei. Vou embora, explicou com voz serena e quase indiferente.
- Ta, respondeu jacinto, sem se mexer na cama.
Agora, mais do que nunca, dispôs-se a imaginar uma nova vida. Decidiu-se a não viver mais sozinho. Sim, iria arrumar uma companheira, tinha convicção disso.

Sábado, Julho 10, 2010

A CURVA DO TEMPO

Abel Aquino

Recolhi os remos do barco.
Fui com a correnteza das coisas,
Com o flutuar da isca sem consciência
E o deslizar da noite enluarada.
Vi as estrelas acima das pontas da serra,
O olhar aberto – a mente vazia,
O corpo apoiado nas bagagens
E a canoa escorregando pelo rio.

Sou o pescador das idéias etéreas,
Ouvindo o rõim, rõim dos batráquios,
O cri, cri dos grilos e o tic,tac do relógio.
Meu barco esbarra na pedra irregular,
O remo apóia no barranco e empurra,
Enquanto o barulho das águas
Denuncia a forma negra do obstáculo
E desperta o espírito distraído e morno.

Desejo abrir a mochila de lona
Encostar o bote na margem arenosa
E ler meu livro em voz alta.
Mas o espírito sem luz e a noite brumosa
lança meu desejo na marola escura
e leva o choro do mandi fisgado.
Só vou assar traíras na primeira manhã
Pouco importando com ouros e lembranças,

Esquecido do lugar nas curvas dos anos!

Terça-feira, Abril 06, 2010

PAIXÃO E CONFUSÃO

Abel Aquino

Mauricio não tinha convite para ir à festa. Osvaldo era o único que poderia ajudá-lo.
- Você pede dois convites; - pode ser três.
- Não sei se vai dar certo, retrucou Osvaldo.
- Claro que dá!
- Eles não conhecem você; vão saber que não foi convidado.
- Nessas ocasiões, se esquece para quem enviou convites; nem imaginam quem acompanha os convidados. – Sempre haverá gente mal conhecida.
- Bem! vou levar minha namorada.
- Pede três convites, então.
- Mas, afinal por que você faz questão de ir a essa festa?
- Porque a Vânia vai estar lá.
- Há! Tinha me esquecido. Você é amarradão nela.
- É. Preciso me aproximar dela.
- Mas, ela já tem namorado.
- E daí? Ainda não casou.... o namoro pode não dar certo e eu terei minha chance.
- Você vai é causar confusão.
- Não. Vou ser cuidadoso e paciente.
- Tudo bem! Vou tentar conseguir os convites.

Quando Osvaldo confirmou que tinha os convites, Mauricio correu para o banheiro, barbeou-se cuidadosamente, tomou banho e procurou o armário para escolher a melhor roupa que tinha. Vestiu uma calça azul escura, camisa cinza clara, passou gel no cabelo e o penteou com estilo. Calçou um par de sapatos preto, lustroso e bico meio quadrado.
Saiu para encontrar com Osvaldo, dando pulinhos na calçada e balançando os braços com alegria. A noite estava fresca e o ar meio frio esfriava seu seu rosto. Juntou-se ao Osvaldo -que o esperava com a noiva - e seguiram para a festa do João Paulo. Quando chegaram, viram muitos carros, gente bem vestida no alpendre e, do interior da casa, vinha o som alto da música. Entregaram os convites e entraram calmamente. Mauricio olhava a sua volta, tentando ver alguém conhecido ou cruzar com os grandes olhos azuis da Vânia. A sala era enorme e sem moveis; cadeiras e estofados ficavam junto das paredes. No extremo oposto, próximo à porta que dava para a cozinha, ficava o bar improvisado com mesas e caixotes. Os barris de chope estavam sobre um pequeno balcão, atrás do homem que servia aos convidados. Mauricio e Osvaldo rumaram para lá, atravessando a sala. Cada um pegou uma jarra de chope e seguiram para um canto à esquerda. Naquele momento viram Vânia entrando de mãos dadas com o namorado. Mauricio olhou-a da cabeça aos pés. Estava linda; o vestido, bege, com leves pregas saindo da cintura e um belo decote deixando partes dos belos seios à mostra. O cabelo solto, repartido ao meio, com cachos nas extremidades, brilhava sob as luzes da sala. Mauricio suspirou. Osvaldo cutucou-o.
- Tira o olho da menina, cara!
- Está linda, não está!
- Com certeza!
O casal passou quase ao seu lado e foi até junto da mesa de som. Cochicharam com o DJ e voltaram para o meio da sala. João Pedro, o anfitrião, veio, sorridente, ao seu encontro. Levou-os para outra sala à direita.
Quando o DJ colocou música dançante, casais mais afoitos foram para o meio da sala e começaram a dançar. A sala foi se enchendo de gente e muitos acompanhavam a música cantando e balançando os braços.
Mauricio já estava na terceira jarra de chope e não percebeu que o Osvaldo se afastara com a namorada. Observou a pista e olhou quem estavam dançando. Procurou pela Vânia, mas não estava na sala. Quando o DJ deu um intervalo na música, o Osvaldo e a namorada saíram pela porta da direita, procurando o banheiro. Passando por eles, Mauricio viu Vânia, entrando na sala. Ela parou por um momento, olhou para o lado da mesa de som, voltou para a esquerda e foi sentar ao lado de uma senhora que Mauricio reconheceu como sua mãe. O Osvaldo voltou com a namorada e ficou de pé ao lado de Mauricio. A música recomeçou e a sala encheu-se de casais a dançar. Mauricio olhava para a sua amada, ansioso por ter uma oportunidade de ir falar com ela.
- Ela está sozinha, falou para o Osvaldo.
- O namorado está jogando carta, na outra sala, respondeu Osvaldo.
- Está! Deixou ela sozinha. Nem imagina o perigo que corre, disse rindo.
- Tenha juízo, amigo.
- Tenho cuidado; vou me aproximar discretamente.
Mauricio começou a andar em direção da moça. Esta olhava os casais dançando e balançava o corpo ao ritmo da música que ouvia.
Mauricio aproximou-se e convidou-a para dançar.
- Oi! Vânia.
- Oi! Mauricio, respondeu com um leve sorriso.
- Quer dançar comigo?
- Não posso, estou acompanhada, respondeu a moça.
- Pensei que tinha terminado com o namorado, respondeu Mauricio.
- Não! Não terminei.
- É que eu o vi beijando a Julia, lá na outra sala.
- O que!
- Pensei que ele já estava com outra, explicou meio tímido.
- Que historia é essa! Perguntou indignada e com os olhos arregalados.
Levantou-se rapidamente e seguiu na direção da sala de jogos à passos largos.
Quando entrou na sala viu a Julia encostada na parede, um metro distante do seu namorado. Este, inclinado sobre a mesa e examinando as cartas, não viu a namorada chegar.
- O que essa vadia está fazendo aqui, gritou para o noivo.
Cláudio levantou os olhos assustado.
- O que aconteceu!
- Não se faça de desentendido, Cláudio, gritou, olhando para Julia que a encarava com ar de espanto.
- Você ficou maluca, querida!
- Maluca vou ficar agora!
Vânia avançou sobre Julia que saiu para o lado, assustada e sem entender o que estava acontecendo. Cláudio levantou-se e segurou no braço de Vânia.
- Calma, querida. O que está acontecendo com você?
- Você vai me trocar por essa vagabunda horrorosa?
- Que é isso, querida?
- Vagabunda horrorosa é você, sua vaca doida, gritou Julia, ofendida.
- Vaca é você, gritou Vânia, escapando do Cláudio e avançando sobre a mulher.
As duas se atracaram, puxando os cabelos uma da outra. Antonio, o namorado da Julia, que permanecera sentado confuso, levantou-se e partiu para cima das mulheres em luta. Gritou para Cláudio.
- Tira essa maluca de sua namorada, se não, vou dar-lhe uma sova.
- Cuidado com o que fala, provocou Cláudio.
- O que foi, ficou ofendido! Cuida de sua mulher que eu cuido da minha; - isso se você tiver competência, comentou, provocativamente.
Cláudio deu um saldo, esticou o braço e acertou um soco no queixo do Antonio. Este caiu sobre a cadeira quebrando-a. Levantou rapidamente, avançando sobre Cláudio.
Dois outros homens surgiram para apartar a briga e foram soqueteados pelos dois. Minutos depois todos os homens da sala estavam atracados uns com os outros, soqueteando-se e quebrando móveis. As mulheres gritavam para que os homens parassem, mas, ninguém ouvia ninguém. Mauricio olhava aquilo com ar divertido até que uma cadeira veio ao encontro de sua canela. Com a dor intensa, por um momento esqueceu que era o causador daquela tremenda confusão. Osvaldo não ouvira o que ele dissera para a garota, mas, tinha certeza de que era o causador de tudo aquilo.
Quando a policia chegou, uma meia dúzia de homens foram levados para as viaturas e levados para a delegacia. Mauricio viu Vânia caminhando pela sala cabisbaixa. Foi ao seu encontro, pegou sua mão e procurou consolá-la. Sua mão estava quente e suada. Mauricio sentiu seu corpo estremecer. Vânia delicadamente soltou sua mão e foi abraçar sua mãe, sem olha-lo.
Mauricio voltou para casa com a sensação de que sua chance de conquistar a garota havia aumentado. Seu amigo, Osvaldo,
estava silencioso; evitou comentar sobre a briga, sabendo que esse era um assunto que seu amigo deveria resolver.

Quinta-feira, Dezembro 17, 2009

O COTIDIANO DO POVOADO

O VILAREJO


Gosto de ir ao povoado de vez em quando. Pela estrada posso cruzar com um cavaleiro disposto a parar sob a sombra de uma árvore e prosear um pouco com a gente. Ele se debruça sobre o arreio e acaricia a crina bem aparada do pescoço do animal e vai contando histórias sem se preocupar com o tempo ou com as eras. Dali a gente pode ver a torre da igreja, caiada de branco recentemente, e além dela as colinas de Orizona. Quando atravesso as primeiras casas, vejo crianças e cachorros brincando pela rua, cumprimento as senhoras que passam com trouxas na cabeça e alcanço a primeira venda. Ali os homens se encontram para tomar um gole e limpar a garganta impregnada de poeira da estrada.
Hoje de manhã fui até a venda comprar querosene e encontrei o Juvêncio que me convidou para ir com ele cortar lenha. O Doutor Joaquim, empresário carvoeiro, o havia contratado para picar 100 metros cúbicos de madeira na fazenda Malacava, no vale do Tinhorão, e precisa de ajudante. Os lenhadores daqui trabalham para as carvoarias, principalmente. Madeira talhada também é vendida para compradores da cidade.
Ainda ontem estive no cerrado cortando lenha para abastecer nosso fogão e pensei comigo o quanto era agradável usar o machado, fazer calos nas mão enquanto a madeira gemia e tombava aos golpes cortantes. O cheiro caracteristico de cada árvore invadia minhas narinas e eu tentava adivinhar o nome e as qualidades de cada uma. Um velho vinhático já morto e bastante seco desafiava minha habilidade em picá-lo, embora não fosse uma madeira tão dura.

A LENHA

Descemos de carroça pela estrada mal feita do cerrado, contornando as pedras e troncos de árvores. Lá em embaixo podia ver o telhado de uma grande casa cercada de mangueiras e currais. Passamos por uma porteira de arame e começamos a ver montes de madeira amontoados na beira da estrada. Paramos junto ao rancho de palha usado pelos lenhadores para acamparem. Não tinha portas e toda a frente era aberta. No canto direito havia um fogão improvisado de pedra e barro; do outro lado, um giráu de paus roliços, que servia de mesa ou prateleira. Por todos os lados havia árvores tombadas e já secas, centenas delas. Perguntei ao Juvêncio quem tinha derrubado as árvores; respondeu que os empregados da fazendo vinham dois ou três meses antes e derrubavam as árvores e só depois é que a gente podia vir e picar os troncos em pedaços de um metro, partir os mais grossos em quatro partes, e deixá-los prontos para serem levados pelos caminhões. Fui até o tronco mais próximo que estava caído sobre outro já velho e apodrecido. Comecei a cortar pela parte mais fina. A árvore tinha, na base, uns cinquenta centímetros de diâmetro. O machado penetrava na madeira e tirava lascas cheirosas, enquanto o som corria pelo campo e ecoava no vale. Juvêncio era muito mais hábil que eu e, no fim da tarde, havia cortado mais que o dobro de lenha.
No início da noite, voltamos para o povoado, cansados e famintos. Deixei Juvêncio na venda do Osório e segui para casa. Meus braços e as palmas das mãos estavam doloridos. Desejava apenas tomar banho, comer e descansar.

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

AS DESPREOCUPAÇÕES DO DOMINGO

Abel Aquino


Naquela manhã Juvenal acordou com vontade de se vestir bem e passar o dia limpo, perfumado e feliz. Ele não era de tomar banho toda semana, muito menos todo dia. Banho era para ocasiões especiais, tais como casamentos, festas religiosas ou reuniões políticas. Eram acontecimentos raros e espaçados.Mas naquela manhã, um domingo como qualquer outro - quando as pessoas se arrumam e vão à missa das sete e depois visitam os parentes e amigos para por a conversa em dia - Juvenal queria tomar um belo banho e vestir o melhor par de roupas que tinha. Saiu do quarto disposto e cheio de energia. Na cozinha, encontrou sua mãe acendendo o fogo para preparar o café da manhã.
Embora ninguém fosse trabalhar, havia serviços que tem que ser feitos todos os dias. Reunir o gado no curral e tirar o leite era um deles. Juvenal lavou o rosto na bica, pegou as cordas, o balde e foi em direção do curral. Depois de tirar o leite, colocou a maior parte dele para coalhar e foi tomar seu banho. Pegou água da bica com um enorme balde metálico e seguiu em direção do banheiro. Fechou a porta tirou a roupa e, com uma caneca, pegou água do balde e jogou na cabeça. A primeira água parecia gelada demais e Juvenal deu um grito. Depois acostumou com a água, ensaboou o os membros e o tronco, jogou mais água sobre a cabeça até remover todo o sabão, pegou a toalha e secou o corpo.
Depois enrolou a toalha na cintura, abriu a porta do banheiro e foi em direção da casa para por a roupa nova.
Sentiu o cheiro de café que sua velha mãe preparava. Segui para a cozinha penteando o cabelo, pegou uma xícara e estendeu para sua mãe. Esta pegou o bule e entornou café na xícara que Juvenal segurava.
- ´Stá cheiroso, hoje, filho! Vai comigo à missa?
- Não mãe, deteste ouvir o padre rezar, mas quero passar o dia limpo e perfumado.
- Vai visitar alguém?
- Não.
- ´Ocê precisa arrumar uma namorada, filho.
- Não tenho pressa mãe.
- Eu não vou viver por muito tempo, logo vou acompanhar seu pai.
- Há! Mãe! Não fala bobagem!
- Mas essa é a vida, filho.
- Não se preocupe, mãe, vou me casar assim que achar uma mulher do meu agrado.
- É bom, filho, concluiu a mãe, saindo para o quarto.
Juvenal pegou um pedaço de fumo e foi para fora em direção do paiol. Abriu a pesada porta do paiol e pegou uma espiga de milho seca, destacou uma meia dúzia de palhas e foi sentar na varanda da casa. Calmamente, recortou a palha, dobrou e colocou debaixo da perna. Pegou o fumo e com o canivete foi destacando rodelas finas, esmagando-as na palma da mão. Depois de cortar um punhado de fumo, soltou o canivete, pegou uma palha, abriu-a com a boca, fez uma meia cana e colocou o fumo. Enrolou lentamente. No final passou a língua sobre a borda da palha e fechou o cigarro. Levou o cigarro à boca , pegou a binga de cobre, puxou a tampa, deslizou o dedo sobre o mecanismo de faísca e apertou. Acendeu o cigarro e se encostou na parede, olhando, pensativo, para o horizonte, alem da cerca, por cima das árvores do sopé da montanha. Sua mãe saiu pela porta da frente, arrumada e com uma sombrinha colorida. Juvenal sabia que ela ia para a igreja assistir a missa. Olhou indiferente e vago. Ela disse qualquer coisa como se sair não esqueça de fechar a casa e foi andando em seus passos miúdos.
A estrada era longa e reta, ladeada de capim e marcada pelas rodas dos carros de boi e das carroças. Ficou olhando sua mãe afastar lentamente, Alcançar a porteira, abrindo-a com esforço, e desaparecer na curva do caminho.
Juvenal ficou imaginando vê-la chegar ao povoado - mais de quilômetro dali - encontrar os parentes e amigos, o velho Ribaldo, a senhora Clementina e seu cadela magra, o farmacêutico Ernesto e seu enorme relógio de bolso, preso ao cinto por uma bela corrente de prata. Antes de entrar na igreja falariam das mesmas coisas, comentariam os mesmos acontecimentos e discutiríam o grau de honestidade de cada habitante das redondezas.
Juvenal estava feliz por não ir à missa. A solidão era melhor. Nada substituía a sensação de alargamento, de céu aberto e de sossego num domingo sem ir à roça, com pouca coisa para fazer. Não trocaria isso pelo passeio à vila, à igreja com cheiro de vela queimada e repleta de gente vazia e vulgar. Tragou a fumaça do cigarro de palha, prendeu a respiração por alguns segundos e soltou o ar devagar, fazendo uma pequena nuvem a sua frente. O sol brilhava sobre o pasto ondulado e o gado descansava à sombra das árvores. Suspirou em paz e sorriu consigo mesmo.

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

SOBRE ESMOLAS E DESTINO

Abel Aquino

Uma mulher pedia esmola na esquina, sentada num caixote de madeira e o braço estendido, com um prato metálico na mão. Falava alguma coisa ininteligível e olhava para todo transeunte que se aproximava. Duas crianças brincavam ao seu lado, indiferentes ao que a mãe fazia. A menina usava um vestido amarelo, sujo e amarrotado. O menino, de calça curta, vestia uma camiseta cinza, rasgada.
Parei na porta da loja e fiquei observando o comportamento da mulher. Ela agitava a vasilha e as poucas moedas que tinha, tilintavam. O barulho chamava a atenção das pessoas que passavam por perto. Um senhor bem vestido, mas sem aparência de abonado, aproximou-se de mim e puxou conversa.
Você acha certo dar esmola para uma pessoa assim?
Depende, respondi.
O que precisa mesmo é alguém pegar ela e os filhos e levar pra trabalhar.
E se ela não gostar da idéia?
Então, que morra de fome.
E se ela conseguir mais esmola que se trabalhasse?
Isso é que é errado. Dar esmola não é solução pra nada. É incentivo a vagabundagem. O certo é ter um jeito de tirar ela dessa vida que leva.
Mas quem vai poder fazer isso?
Pode ser o governo.... a gente não paga imposto pra isso?.... pro governo cuidar dos pobres?
Mas os políticos pensam nisso? Perguntei sorrindo, meio zombeteiro.
Ai que ´tá, respondeu o estranho. – quem vai obrigar o governo a fazer isso!?
A gente dá esmola para parecer que já fez a sua parte, falei provocativamente.
Eu não dou e não sinto remorso disso, declarou convicto.
Não tem dó das crianças?
Essas crianças estão aí pra fazer a gente sentir dó, mesmo. Eu não caio nessa!
Acredito que a intenção dela é essa mesma, mas, não é normal ver pessoas pedindo esmola numa esquina.
Normal não é, e não é culpa minha, deu de ombro.
Nem minha. Mas, não existe uma forma de evitar que um certo número de pessoas permaneça tão pobre que precise pedir esmola?
Existir, existe; bastava acabar com a preguiça dessa gente.
Você acha que isso é resultado da preguiça?
Em parte é. Eu nasci pelado, sem dente, não sabia andar nem falar, não recebi herança, não fui ajudando por meu pai e não reclamo da vida nem preciso dos outros pra viver. Não sou rico, mas fiz meu pé de meia, trabalhando duro.
Essa é a história de muita gente, respondi enquanto estudava a aparência do homem.
Pobreza é castigo de Deus.
Como assim?
Deus dá as mãos e as pernas, a inteligência e o mundo pra gente se virar. Quem não é aleijado não tem desculpa de viver na miséria.
Lá isso é verdade.
Tem mais: quem tem coragem não passa necessidade.
Também concordo.
O homem estava se empolgando. Falava mais alto e gesticulava, olhando para o meio da rua como que para impressionar uma platéia imaginária.
O problema da pobreza é que ninguém liga pro pobre, nem a igreja católica, nem a sociedade, nem os ricos, nem os políticos.
É, são marginalizados.
Mais do que isso. - São a sobra, não fazem parte de clubes, de famílias. – Pode ver: todo pobre é meio só no mundo, perdeu contato com a maioria dos familiares.
É triste.
Vamos fazer o que? O desconhecido olhou mais uma vez para a mulher sentada na calçada, agitando a latinha com moedas. – Falo uma coisa: ninguém dá jeito nisso, não. Estava desanimado.
Podemos cobrar dos políticos, da prefeitura. – Não é obrigação deles recolher e alimentar esses mendigos? Perguntei.
Recolhe um, aprece dois, deu de ombro e saiu rua abaixo.
Tchau!
Caminhei na direção oposta, passando em frente da mulher e seus filhos. Uma velhinha parou, abriu sua bolsa, tirou uma moeda e colocou na latinha. A mendiga agradeceu, desejando as bênçãos de Deus.

Sexta-feira, Julho 24, 2009

UM CORPO NA ÁGUA

Abel Aquino

Todo mundo tinha medo da correnteza naquele ponto do rio. As margens ficavam estreitas e as pedras negras e sempre molhadas da margem empurravam a água turva para o meio, onde ela rodopiava encrespada e descia velozmente por mais de cem braças até encontrar o remanço.
Marcilio parou sua montaria junto ao barranco e ficou, por alguns minutos, observando a corredeira. De vez em quando o sol brilhava na barriga prateada de peixes que desciam saltitando por entre as pedras.
De repente viu o corpo de uma pessoa rodando pela correnteza, de bruço, com sua roupa rasgada e balouçando nos movimentos da água. Por um momento Marcilio acompanhou o corpo, fustigando o cavalo e percorrendo a margem do rio, mas logo adiante o mato impedia a passagem e teve que afastar. Contornou o mato e, metros a frente, voltou a se aproximar da margem. Percrustou a água mais não viu mais o corpo.
Resolveu voltar para casa. Depois de espalhar a noticia rapidamente uma duzia de homens curiosos desceu em direção do rio para ajudar Marcilio a procurar o corpo. Ficaram a tarde toda percorrendo as margens acidentadas mas não encontraram nada. Marcilio ia a frente com o facão na mão, abrindo caminho no capim alto do brejo.
Depois de duas horas de procura começaram a duvidar da história.
Marcilio, ´ocê deve Ter visto coisa demais, disse Fúlvio, duvidando.
Não sou maluco, sô, respondeu Marcilio. – Vi muito bem! Era um defunto, boiando na água, sim!
Então, deveria ´tá parado nesse remanso, agumentou Crispim.
Era um defunto,sim! Repetiu Marcilio, já impaciente.
Eu não vou procurar mais, não, concluiu Fúlvio. – Logo escurece e a gente não pode ficar aqui para ser picado por cobra nesse matagal besta.
A gente pode não achar o corpo, justificou Marcilio. – mas que eu vi, eu vi.
Voltaram para suas casas, conversando, uns, achando que o rapaz estava maluco, outros, dizendo que poderia até ser verdade, mas faltava o corpo para tirar toda dúvida. Marcilio ficou alguns passos para trás, resmungando. Sabia que aquilo iria virar motivo de chacota, mas estava confuso. Olhou para trás ouviu o barulho da correnteza e pensou: será que me enganei?

Terça-feira, Junho 23, 2009

NO FRIO DO ASFALTO
Abel Aquino
Pare de fumar, Alice, ordenava o marido, mal humorado.
Fumo quanto quiser, retrucou a mulher, caminhando para a janela aberta.
Odeio fumaça de cigarro, continuou o homem.
´Tô cheio de você, de todo o mundo!
Você é muito ingrata, isso sim, concluiu o marido.
Alice acendeu o cigarro, olhou pela janela e deu uma baforada. Pensou consigo mesma:
por que tudo dá errado pra mim?
Ouvia a vizinha gritando com o filho, um enorme caminhão subindo a rua, cães latindo, vozes de rádio; sua cabeça doía, suas pernas formigavam. Um enorme rato correu junto ao muro, em direção dos fundos do quintal. Alice jogou a bituca e acendeu outro cigarro. Sentia-se o pior dos seres humanos. O marido, com aquele ar despreocupado e sorriso zombeteiro, deixava-a transtornada. Não tinha vontade de reclamar, de exigir, de protestar. Desejava apenas alimentar-se do próprio veneno. A vizinha continuava a gritar com o filho e com o marido. Mas, isso não tinha importância. A vida era uma loucura, o amor, um punhal que servia para perfurar, para dilacerar.
Alice queria se revoltar, procurar forças para jogar tudo para o alto, bater na cara do marido e xingar a vizinha que só reclamava da vida. Mas, não, permanecia calada e olhando pela janela. Pensou na mãe, naquilo que chamam de família. Não seria ingênua de acreditar em ajuda de família. Era adulta e, se enfrentava problemas, os outros também estariam enrolados em seus próprios problemas. Sua irmã a chamava de desmiolada, seu irmão a considerava uma puta. Definitivamente, família era para se manter distante.
O marido levantou do sofá e foi para a cozinha procurar comida. Alice ouviu-o abrindo panelas e batendo pratos. Lembrou que casara para deixar de ser mal afamada, para conquistar respeito da família e da vizinhança. Quanta ingenuidade!
Afastou-se da janela e foi ao quarto, abriu o guarda-roupa e retirou algumas peças de vestidos, calças e blusas. Pegou a mala, jogou tudo dentro, e saiu para a rua. Trancou a porta, jogou a chave por baixo, e caminhou pela calçada mal iluminada. A noite estava quente e não soprava nenhum vento. As poucas luminárias públicas acesas lançavam luzes amarelas em círculos no meio da escuridão.
Alice não tinha pressa, nem sabia qual destino tomar. Apenas caminhava pela longa e solitária rua da meia-noite. De repente, ouviu passos atrás de si. Sentiu medo e andou mais depressa. Quase corria, mas o estranho ruído de passos apressados continuava. O pavor foi tomando conta de seu corpo. A mala começou a pesar, suas pernas tremiam, e, os passos atrás de si, persistiam. Não tinha coragem de voltar a cabeça e olhar. Queria correr, mas, não tinha forças.
Um gato malhado saltou a sua frente, pulou o muro do outro lado e desaparece na escuridão. O susto acelerou ainda mais o coração palpitante. Estava ofegante. Ao chegar à avenida, viu, do outro lado, uma porta de bar aberta, viu luzes e ouviu vozes. Atravessou sem perceber que um carro se aproximava em alta velocidade. Ruído de pneus travados, faróis piscando e uma pancada seca. O corpo voou no ar, deu uma volta sobre si mesmo e estatelou no chão, imóvel. Logo,curiosos se aproximaram, janelas foram abertas e rostos surgiram com olhos compridos. Mais tarde, ouvia-se as sirenes da ambulância, afastando.
No dia seguinte, no chão frio do asfalto da avenida, amanheceu apenas uma mancha vermelha.

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Sexta-feira, Junho 05, 2009

UMA HISTÓRIA EM DIA DE CHUVA


Abel Aquino


Era uma tarde chuvosa e fria. No pátio da enorme obra em construção, os pesados caminhões espalhavam a lama pegajosa e a enxurrada desmanchava os montes de areia. Os trabalhadores que precisavam fazer serviços do lado de fora estavam sentados no chão, debaixo da cobertura provisória.
Brito, o encarregado civil, fumava tranqüilamente, recostado no pilar e olhando para o pátio, pensativo. Cheguei até ele e puxei conversa.
- Brito, hoje vai ser um dia perdido, não?
- Poxa! Se vai!
- O Severino já sarou? Vi que ele veio trabalhar hoje.
- Já. Está ainda meio fraco; dei pouco serviço pra ele.
- Você estava preocupado com ele, continuei.
- É! Gosto desse menino; mas é muito desorientado, só no mundo.
- A família está espalhada por todo canto.
- A família é grande, mas cada um foi prum lado.
- Você esteve onde ele mora, é ruim o lugar?
- Muito! É um fundo de casa, perto do córrego - construção de tabua - uma favela.
- Não quer ficar no alojamento da obra?
- Não. Prefere ficar onde está. – Aqui, no alojamento, corre muita bebida e não tem jeito - já falei com o Engenheiro para reforçar a vigilância, mas tudo continua como está. – Severino tem um fraco pela bebida e fica bêbado com pouca coisa.
A chuva não dava trégua. A água penetrava pelas partes em construção ainda descobertas e descia por entre as formas de concreto, molhava as escoras de madeira e lavava as escadas incompletas. Severino vinha caminhando em nossa direção, carregando um balde no ombro. O capacete de proteção estava enlameado, seu uniforme com manchas de barro. Caminhava, sem pressa, desviando das pilhas de tijolos, pulando por cima das resmas de caibros e dos montes de pedra britada.
A história desse rapaz era comovente. Corria até uma anedota de que tudo que é ruim no mundo cai na sua cabeça. Já se perdeu em São Paulo e passou a noite dormindo na rua; já foi preso por engano; levou um surra de uma turma de desordeiro; teve uma namorada que o abandonou por outro; o pai morreu e a mãe ficou louca; seus irmãos viviam cada um em uma cidade diferente e ninguém sabia o endereço de ninguém.
Brito cuidava dele quase como se fosse um filho. Vi muitas vezes os dois conversando; Severino ouvindo os conselhos e movendo afirmativamente a cabeça.
Havia faltado no trabalho, três dias, pois tivera uma gripe muito forte. Mas estava de volta.
Aproximou-se, sorriu levemente para mim, e perguntou ao Brito onde deixaria o balde de impermeabilizante.
- Deixe no almoxarifado; não vou precisar mais disso, hoje.
O rapaz afastou-se e eu perguntei:
- Ele já arrumou outra namorada?
- Creio que não. Ele gosta de ir ao puteiro da Juanízia e lá tem uma moreninha que adora arrancar dinheiro dele, coitado.
- E ele não se queixa disso?
- Ela faz uns carinhos, leva pra cama e ele fica extremamente generoso.
- Limpa ele?
- Pior que limpa! Na última vez que recebeu o salário, obriguei-o a me dar três partes do que recebera e saísse só com o necessário para tomar uma cerveja e deitar meia hora com a safada.
- Concordou?
- Não deixei escolha. No outro dia devolvi o dinheiro e falei para que procurasse pagar as dívidas.
- O que disse?
- Ficou agradecido; ele sabe que não pode gastar o salário do jeito que gasta, mas não tem juízo.
O engenheiro apareceu e chamou Brito que o seguiu pelo pátio, debaixo da chuva. Fiquei por alguns minutos parado, ali,olhando a movimentação, os trabalhadores carregando madeira, acionando os guinchos, empurrando carrinhos de massa de cimento. Uma meia dúzia de pessoas continuava sentada no chão, conversando. Dois deles sentaram numa pilha de blocos de concreto e examinavam um pequeno rádio.
No final da tarde, Brito apareceu no meu improvisado escritório e convidou-me para irmos à lotérica fazer uma fezinha.
Saímos em direção do portão principal. A chuva havia cessado e apenas a lama permanecia no pátio, sujando as botas dos que transitavam por ali. Na saída, encontramos o Severino que perguntou aonde íamos. Resolveu nos acompanhar e também fazer o seu joguinho preferido.
Dois dias depois vi o Brito, caminhando sorridente. Parou à minha frente.
- Adivinhe o que aconteceu?
- Não!
- O Severino ganhou na loteria!
- Verdade?!
- Sim! Foi ao banco sacar parte do dinheiro.
- Quanto ganhou?
- Ganhou 200 milhões de cruzeiros!
- É. Dá pra comprar um bom apartamento de classe média, comentei.
- Vai me dar dez por cento, porque diz que eu é que dei sorte pra ele.
- Deixe de ser fominha, Brito. Deixe ele com a grana.
- Que é isso! ´Tá falando em dar dinheiro até pra a moreninha do puteiro, justificou.
- Ele vai embora, então?
- Vai. Quer pedir a conta e ir pro nordeste, cuidar da mãe que é doente.
- Mas, não é muito dinheiro; se sair gastando, não vai durar nada.

Depois dessa conversa, não vi mais o Brito por uns dois meses. Quando voltei à obra, esta já estava em fase final, com pintores e maquinas de limpeza trabalhando a todo o vapor.
Brito estava almoçando no refeitório, acompanhado pelos outros encarregados. Quando me viu, chamou.
- Como está? Perguntei.
- Estamos bem, e ócê?
- Estou bem. Tem noticia do Severino?
- ´Tá na terra dele, cuidando da mãe; comprou uma casa na cidade, um carro e diz que vai trabalhar de chofer de madame.
- Espalhou muito dinheiro por aí?
- Um pouco, mas foi esperto - até me surpreendi – não procurou nenhum irmão. Pra putinha deu uma boa grana que a deixou toda feliz.
- Acho que a sua fase de azar acabou; que ele não precise nunca mais voltar para cá, comentei.
Despedi-me do pessoal, dei um abraço no Brito, desejando-lhe boa sorte e me afastei em direção do pátio do estacionamento. Suspirei contente, sem saber porque. Talvez por continuar vivo e ter grandes amigos.

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Terça-feira, Maio 12, 2009

DESPENHADEIRO


Justino gostava de passear com seu cão, Plato. Saia pela campina, seguindo as trilha do gado para apreciar o dilatado horizonte. Isso dava uma sensação de liberdade e amplitude e sentia que poderia conquistar muitas coisas. Seu cão corria à frente, parava, olhava para trás, balançava o rabo e ficava esperando Justino se aproximar. Depois corria mais um pouco, perseguia uma nhambu que ciscava debaixo do capim. Esta voava para longe e Plato desistia de persegui-la. Os passarinhos, no alto das árvores mais desfolhadas, saltitavam de galho eM galho, chilreando e batendo as asas. Justino tentava adivinhar que espécie poderia ser os de penacho amarelo, os outros de peito branco e, ainda, os de rabo longo e azul.

O dia estava limpo e o sol quente era abrandado pelo vento fresco do fim do verão. Andavam, agora, por uma região que Justino não conhecia. Enormes lajedos levantavam por entre árvores retorcidas e pedras meio arredondadas apareciam soltas na partes planas, despregadas que foram do alto da serrania.Plato correu atrás de uma codorna e Justino viu quando desapareceu à frente, ganindo de forma estranha. Justino correu e, quando viu a fenda, já era tarde. Seus pés escorregaram na laje lisa e o corpo alcançou o espaço e caiu. A fenda tinha mais de dez metros de profundidade. Seu corpo alcançou o fundo com um baque curto e segui-se o silêncio.

Uma semana depois encontraram os corpos, do animal e de Justino, lado a lado. Estavam cercados de abutres. Sobravam mais ossos que carne. Por entre as costelas de homem e do cão, movimentavam-se vermes e estes passavam de uma carcaça à outra. Lívio foi o primeiro a ver aquela cena e, imediatamente lhe ocorreu a pergunta: será que o homem e o animal são da mesma natureza?. Estavam alí desmanchando-se em podridão, vermes e pedaços de carne picotados pelos bicos afiados dos abutres.

Maria ficou sabendo da morte do marido com pavor e gritos. Chorou três dias sem cessar. Deram-lhe calmante todos aquele tempo. Por fim, já conseguia dormir sem remédio. Mas, sempre sonhava com o marido voltando para casa. Abria a porta e o via chegando, balançando o corpo de seu jeito peculiar, sorrindo. Passava para o quarto e a abraçava. Maria perguntava: - mas, você não morreu?. Justino dizia, sempre sorrindo, não morri, olhe para mim, tenho cara de morto? Cheire-me. E ela o cheirava e sentia aquele suor de homem que tanto a excitava.
Mas, ao acordar, via a cama vazia, sentia a solidão da casa solitária, sem a voz grave e sempre calma de seu amado companheiro e chorava de novo.
Porque ele aparece em meu sonho? Será que quer dizer alguma coisa pra mim?.
O padre dizia que era sua alma, tentando reconfortá-la. Mas, tendo toda noite sonhos desse tipo, Maria sabia que seu sofrimento nunca poderia acabar.

Domingo, Maio 03, 2009

A CURVA DO TEMPO



Recolhi os remos do barco.
Fui com a correnteza das coisas,
Com o flutuar da isca sem consciência
E o deslizar da noite enluarada.
Vi as estrelas acima das pontas da serra,
O olhar aberto – a mente vazia,
O corpo apoiado nas bagagens
E a canoa escorregando pelo rio.

Sou o pescador das idéias etéreas,
Ouvindo o rõim, rõim dos batráquios,
O cri, cri dos grilos e o tic,tac do relógio.
Meu barco esbarra na pedra irregular,
O remo apóia no barranco e empurra,
Enquanto o barrulho das águas
Denuncia a forma negra do obstáculo
E desperta o espírito distraído e morno.

Desejo abrir a mochila de lona
Encostar o bote na margem arenosa
E ler meu livro em voz alta.
Mas o espírito sem luz e a noite brumosa
lança meu desejo na marola escura
e leva o choro do mandi fisgado.
Só vou assar minhas traíras na primeira manhã
Pouco importando com ouros e lembranças,

Esquecido do lugar nas curvas dos anos!
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Terça-feira, Março 31, 2009

POÇO ABANDONADO

O cavaleiro vinha pelo pasto no meio da chuva. Evitava a estradinha porque por ali descia uma enxurrada violenta. Contornou a cerca, que ficava ao lado do capinzal, puxando a rédea com cuidado para que o cavalo não escorregasse. O chapéu de abas largas estava encharcado e vertia água pelas extremidades.
A longa capa cinza escura protegia seu corpo da chuva e, amarrada no pescoço, rodeava todo o corpo e cobria até as ancas do animal. Era o Sebastião, irmão do proprietário da fazenda. Acompanhei de longe, com o olhar, as passadas curtas do cavalo pelo pasto, aproximando próximo à linha da cerca de arame farpado.Eu estava sob a cobertura do paiol de milho e da doca do carro de boi.
De repente a montaria e seu cavaleiro sumiram diante de meus olhos. Gritei assustado. Vi que do canto da casa o Jacinto corria na direção do local onde o cavaleiro desaparecera. Sai na chuva também e rumei para lá. Na extremidade do pasto, quase no cruzamento da cerca de arame com a cerca de madeira, vimos, primeiro as orelhas e o focinho do animal e abaixo, abraçado ao seu pescoço, o cavaleiro, desesperado, nos gritava por socorro. Compreendi que haviam caído num poço abandonado, coberto de madeira e terra e que cedera com a chuva e o peso do cavalo. Os olhos do animal pareciam saltar para fora, suas ventas sopravam dilatadas e trêmulas. Por sorte o animal caíra com as ancas para baixo e as patas dianteira estavam estendidas para cima, quase tocando as bordas do poço. Tínhamos que fazer alguma coisa. Jacinto correu de volta para a casa sem dizer nada.
Deitei-me ao solo e tentei esticar o braço para alcançar a mão do Sebastião, o cavaleiro, mas, quando ele soltou um dos braços que o seguravam agarrado ao animal, quase escapou e por pouco não escorregou para mais baixo, onde fatalmente seria esmagado pelo corpo do cavalo. Este estava desesperado; agitava as patas traseiras, vergava o lombo e arranhava a borda do buraco com as patas dianteiras na tentativa de se erguer. Sebastião permanecia agarrado ao pescoço do cavalo e sentia que com qualquer descuido cairia para o fundo e seria esmagado.
Jacinto surgiu com uma corda e com o laço de couro cru. Dois outros homens o acompanhavam . Eram o Dico e o Osvaldão, os peões da fazenda. Jacinto lançou a corda e Sebastião, fez um grande esforço para segurá-la com uma das mãos mas tinha medo de escorregar. A ponta de corda desceu por entre seus braços e encostou no peito. Gritei para que abrisse as pernas e apoiasse no barranco, mantendo o corpo colado ao animal e assim poderia soltar as mãos e agarrar a corda. Foi o que fez. Juntamos todos os quatro homens e puxamos a corda lentamente. Essa penetrou na beira enlameada do poço e afundou, tornando muito pesado puxar. Sebastião ficou suspenso no ar tocando as botas no lombo do cavalo mas nós não conseguíamos puxar mais. Falei para os outros aguentarem o peso, mantendo a corda esticada, enquanto eu deitava no barro e puxava a corda abaixo do barranco. Conseguimos puxar mais um metro e as mãos do cavaleiro ficaram ao meu alcance. Agarrei seus pulsos e gritei para que enfiasse as pontas da bota na beira do poço e impulsionasse para cima. Com dois trancos consegui tirá-lo para fora. O cavalo, vendo seu dono na margem, ficou extremamente agitado; relinchava desesperadamente e cavava, com as patas dianteiras, o canto do poço, mas, com isso, só conseguia afundar-se mais ainda. O barro que caíra, já estava prendendo suas patas traseiras no fundo do poço. Jacinto preparou o laço. Olhei para ele; a água escorria pelo furo do velho chapéu de palha, sua roupa encharcada revelava um corpo musculoso e forte apesar de seus quase sessenta anos. Quando ia jogar o laço no pescoço do cavalo soterrado, avisei: - Jacinto isso não vai dar certo.
Também acho, respondeu ele. – só vou enforcar o pobre animal, concluiu.
Temos que pensar noutra coisa, argumentei. – podemos tentar amarrar a corda abaixo das ancas dianteiras.
E, se cavarmos a beirada, fazendo uma rampa, vai facilitar o arrasto, pensou em voz alta.
É uma boa idéia, respondi.
Dico, corre ao galpão e traga enxada, pá e enxadão para abrirmos uma vala na frente do animal.
Enquanto Dico buscava as ferramentas, jogamos a corda ao fundo do poço e, com uma vara, tentei fazê-la sair do outro lado do corpo do animal, mas não consegui. Achei melhor fazermos uma laçada na ponta da corda e enroscar nela a vara. Depois de duas tentativas consegui contornar o corpo do animal e deixei a laçada do outro lado. Desprendi a vara, enfiei-a pelo outro lado e fiquei tentando pescar a laçada da corda no fundo do poço, acima das patas traseiras. Só parte das coxas estavam fora da lama e, na tentativa de pescar a laçada esta afundou na lama e eu não conseguia vê-la. A chuva parecia mais forte e trovões ribombavam na serra. Os relâmpagos cortavam os céus pesados de nuvens cinzentas. A água corria pelo meu rosto, e embaçava minhas vistas. Dico chegou e imediatamente começaram a cavar a vala no rumo das patas dianteiras do cavalo. Este olhava com seus olhos esbugalhados e cheios da água da chuva, relinchava como que entendendo o esforço que fazíamos para tirá-lo dali. Quando Dico cansou, Osvaldão pegou na enxada e começou a puxar a terra, agora mais lama que terra. Uma leve enxurrada começou a fluir para dentro do buraco. Jacinto gritava: - vamos rápido com isso que a chuva vai encher o poço de água logo, logo. Eu peguei a pá e comecei a colher o barro e jogava para mais distante e à frente da vala para evitar que a lama escorresse para dentro.
Sebastião estava sentado num tronco caído e olhava tudo com ar distante e perdido. Sua capa enlameada de barro vermelho estava rasgada e rota. Osvaldão alcançou rapidamente a altura das patas do cavalo e o enxadão era manuseado com cuidado para não ferir-lo.
A vala estava com um metro de profundidade junto ao poço e subia em forma de rampa até dois metros adiante.
Tentei novamente pescar a corda que estava enterrada na lama no fundo do poço.
Com a vara, fui apalpando até encontrar a laçada da corda. Com cuidado, fui puxando e consegui trazê-la até a borda. Jacinto pegou numa das pontas e eu peguei na outra, passei a ponta pela laçada e puxamos cuidadosamente a corda de forma a ir escorregando no corpo do animal até fechar em torno das ancas dianteiras. Amarrei outro pedaço de corda no meio da primeira e conseguimos ter dois pegas para puxar. Jacinto laçou o pescoço do animal com o laço de couro cru e começou ao puxar. Eu e Sebastião pegamos numa punta da corda, Dico e Osvaldão na outra, e começamos a puxar. O cavalo esperneou, relinchou, mas não se moveu do lugar.
Tive a idéia de deixarmos a água correr para dentro do poço e com isso o animal poderia flutuar e sair mais fácil. Todos concordaram comigo. Nessa hora, um ar de desânimo já se estampava no rosto de cada um deles. Quando a água subiu até o pescoço, voltamos a esticar as cordas e o laço. Desta vez o cavalo conseguiu soltar as patas traseiras da lama e seu corpo flutuou. Puxamos mais uma vez e ele conseguiu ajudar com as patas dianteiras e avançou pela vala até firmar as patas traseiras. Nesse momento afrouxamos as cordas e o cavalo saltou para frente e alcançou a terra firme. Relinchou como que agradecido e Sebastião foi fazer um carinho no seu pescoço.
Seguimos para dentro da casa, debaixo da chuva que não dava trégua, cansados, enlameados, mas contentes. Sebastião vinha logo atrás, trazendo seu animal no cabresto, em direção do estábulo. A capa de chuva ficara enroscada na cerca e ele não se importou em recolhê-la.

Terça-feira, Março 10, 2009

A DOR E A TEMPESTADE



Abel Aquino

Agachei na beira do rio e fiquei olhando o movimento das águas. O enorme galho de uma árvore caída na margem riscava a superfície, enquanto um martim pescador trocava de lugar sobre o lajedo do lado oposto.
Fiquei angustiado com o pressentimento de que haveria grandes mudanças no tempo. Nuvens escuras surgiam lentamente no horizonte. Precisava ficar forte e não me deixar tomar pela emoção. Procurá-la seria um risco que não tinha intenção de correr. Com certeza, era um rompimento definitivo.
Teria que procurar outros ares, ver outros sorrisos, sentir outros perfumes. Mas quem teria aquele jeito de afastar os cabelos do rosto e de pender levemente a cabeça?
Seus olhos, nesses momentos, me encaravam com coragem e eu estremecia. Sua voz era cheia de calor e sensualidade natural. Mas eu sentia que seu coração não batia tanto por mim. Era uma relação precária.
Deitei sobre a pedra da margem do rio. O vento soprava e as folhas das árvores mais altas despregavam e caiam sobre as águas. Flutuavam como barcos e desciam numa corrida, seguindo a correnteza, umas tocando nas outras, rodopiando e balançando. Vi a libélula pousar na superfície do rio e imediatamente um peixe saltou fora dágua e a levou para o fundo. Seu dorso cinza brilhou por um instante aos raios do sol que passavam pela folhagem das pindaíbas.
As nuvens ficavam cada vez mais pesadas e escuras. O vento aumentava.
Levantei e segui pela trilha em direção da estrada. Um carro passava naquele momento e a poeira vermelha levantou-se em redemoinhos e afastou por cima das árvores. Caminhei pela estrada sem pressa.
Gostaria de tomar aquela chuva que avizinhava, de ouvir relâmpagos explodindo na serra e ver raios cortando as nuvens com fúria. Queria ver o vento arrancando árvores, quebrando galhos e lançando folhas em todas as direções. A chuva poderia cair como cachoeira, inundar o vale, arrancar tocos pela raiz, encher o rio e passar por cima da ponte. Desejei estar no meio da tempestade mais violenta que jamais vira, ser jogado ao chão e enlamear minha roupa, ficar surdo com os trovões sobre minha cabeça.
Quando senti os primeiros e grossos pingos da chuva, imaginei lavando minha alma, esfriando a cabeça, a água escorrendo pelas costas. Ficaria aliviado da angustia da perda, da dor do abandono.

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

O JANTAR E A ESPERA

Abel Aquino

Maria estava contente. Havia encontrado Camilo na casa da Joana. Este estava muito alegre e conversador, o que não era comum. Maria aproveitou para aproximar-se dele e a seu lado pode trocar elogios e gracejos. Camilo nunca a olhara daquele jeito, intenso, penetrante e sempre com leve sorriso nos lábios.
Na verdade a paixão de Maria por aquele homem surgira com a indiferença com que deitava olhares nela. Maria era muito bonita, corpo forte, alta, morena clara, cabelos longos e brilhantes. Todos os rapazes do povoado a cortejavam. Mas Camilo não. Isso enlouqueceu Maria; a imagem viril do homem, seu ar orgulhoso e displicente não saia da sua cabeça.
Com muito cuidado Maria aproveitou a intimidade para convidá-lo a ir jantar na sua casa.
- Posso preparar um jantar especial para você, concluiu ela.
- Hoje não posso, desculpou-se Camilo. – mas amanhã vou experimentar da sua comida, concluiu, com aquele leve sorriso.
- Amanhã, no final da tarde, `tá bom? Perguntou ela.
- Estarei lá, respondeu, Camilo.
Na manhã seguinte, Maria das Dores acordou feliz; todos os afazeres do dia seriam um nada em face da oportunidade de preparar um jantar para o homem que mexia com seu coração.
Desde que a mãe morrera, Maria cuidava da casa como se ainda estivesse cheia de gente. Seu irmão raramente dormia ali, mas sua cama, suas roupas, o chinelo, a toalha pendurada, tudo estava sempre pronto para ele quando aparecia. A maior parte do tempo Maria vivia solitária naquela enorme casa, sem mais que amigos e amigas que no avançar da noite iam embora para suas respectivas moradas e ela dormia sozinha. Tivera um namorado, na verdade, noivo, mas quando falavam em data do casamento, Maria descobriu que ele tinha outra em Orizona. Por um bom tempo o mundo ficou sombrio; ainda bem que nessa época sua mãe ainda era viva e nunca a deixou entregar-se à alguma loucura.

O tempo passou, a mãe morreu e foi enterrada ao lado da sepultura do pai. Depois Maria conheceu Camilo, o domador de cavalos. Apesar da indiferença dele ou talvez por causa disso, foi amor a primeira vista.

Naquele dia, ao cair da tarde, Maria já havia assado um frango, enfeitado a travessa de arroz com folhas de alface, mandioca cozida com pedaços de carne de vaca, travessa de queijo branco com cebolinha verde e uma garrafa de vinho que buscara na venda do Alípio.
A mesa estava enfeitada com toalha quatro cores, as extremidades bordadas a mão e pequenas flâmulas de pano branco descansavam no espaldar das cadeiras.
Maria ajeitou os talheres com carinho, guardanapos dobrados e um pequeno vaso com rosas brancas e vermelhas, colhidas à pouco.
Por um momento percorreu com o olhar a mesa arrumada e, vendo tudo em ordem, foi para a sala esperar o convidado. Sentou-se no banco e aguardou.
As horas passaram e a escuridão chegou. Acendeu a lamparina e voltou a sentar. Deu sete horas, oito horas, nove horas e Camilo não aparecia. O coração de Maria estava doendo, suas mãos suavam, seus olhos ardiam encanto tentava ver o meio da rua.
Passavam cavaleiros, casais apressados, crianças corriam de um lado a outro, mas a figura de Camilo não surgia na soleira da sua porta.
Quando Aninha apareceu Maria deu um salto e foi a seu encontro.
- Aninha, `ocê não viu o Camilo? Perguntou desesperada.
- O que houve? Retrucou Ana.
- Ele ficou de vir jantar comigo... concluiu Maria.
- Ah! Acho que não vem... não. Gaguejou Ana.
- Como assim?

Ana deu um passo para trás e meio insegura explicou:
- Vi ele ainda agora, bebendo com a rapaziada no boteco do Juca... tinha até umas mulheres no meio deles.... acha que era a Mirtes e duas outras. Eles estavam muito alegres... riam e cantavam, dançando e cambaleando.... todos com cara de muito bêbados, arrematou Aninha.
O mundo veio abaixo para Maria. Suas pernas tremiam de decepção e raiva. Agarrou os ombros da amiga, encostou a cabeça e desandou a chorar desesperadamente.

Sábado, Fevereiro 07, 2009

O TRÁGICO E A SIMPLICIDADE

Fiquei intrigado quando descobri que havia gente morando no alto da montanha. Pela estrada via o terreno coberto de pedras e fendas cortando picos rochosos. Era uma paisagem árida e bruta. Alguém poderia viver alí? O caminho seguia fazendo curvas para a esquerda e depois para a direita. O sol forte brilhava sobre as folhas das árvores retorcidas que teimavam em agarrar-se nas encostas pontilhadas de rochas avermelhadas. Alguns quilômetros adiante abria-se um planalto e o mato adensava. Mais alguns metros e pude ver uma casinha de tijolo cru. Do cume, ao norte, nascia um filete de água transparente e fria, passava por entre pedras enormes soltas no terreno e caía numa pequena represa, ao lado da construção. Ao leste havia um pequeno curral de madeira roliça, com partes caídas e a porteirinha amarrada com cordas. Quando me aproximei, uma senhora surgiu do terreiro do fundo, limpando as mão no avental encardido. Duas crianças corriam ao seu lado e chegaram primeiro ao meu encontro. Cumprimentei a todos e a senhora convidou-me para entrar sem perguntar o que eu fazia alí. Procurei pelo dono da casa e ela me disse que estava na roça, mas logo voltaria. Convidou-me para sentar e explicou que iria à cozinha preparar o café.
Alguns minutos depois o homem surgiu pela porta dos fundos. Era um homem baixo franzino, moreno, com a pele curtir pelo sol. Tirou o chapéu e veio me cumprimentar. Parecia não me ver como estranho. Apertou virilmente minha mão, sorrindo e balançando a cabeça para a frente em sinal de respeito. Não parecia que estava me vendo pela primeira vez. Nenhuma curiosidade em seu olhar, embora evitasse me encarar. A mulher surgiu com um pires à mão, equilibrando o copo de louça branca cheio de café cheiroso. Peguei o pires com a mão direita, passei para a esquerda e com a mão livre levei o copo a boca. O café estava delicioso. Voltei a me sentar e puxei conversa.
- Não imaginava haver gente morando nessas alturas, comentei.
- É difícil mesmo. Mas tem mais outros dois moradores nas redondezas, explicou o anfitrião.
Sua mulher permanecia de pé ao seu lado. Vi as crianças cochichando junto à porta que separava a sala da cozinha. A mulher arrastou uma cadeira para o marido e se retirou.
O homem sentou-se e perguntou meu nome.
- Meu nome e Thomaz.
- Meu nome é Zé. José Arimatéia, mas o pessoal me chama de “Rima”.
- È difícil aparecer gente aqui, comentou.
- Acredito, respondi. - Fico contente que me tenha recebido bem em sua casa.
- Há! Visita é sempre uma felicidade pra gente que vive tão só nesse sertão, afirmou com um leve sorriso.
- Imagino, conclui.
- O senhor fica pro almoço? Perguntou.
- Não sei se é possível. Estou fazendo levantamento dos habitantes da região para a Sucam, expliquei.
- Você é dos Malárias.
- Sim, respondi sorrindo.
- (Malárias são conhecidos os agentes de saúde que trabalham na campanha de combate a malária e outras endemias pelo interior de Goiás)
O casal de criança corria de um lado para o outro em volta de nós. O pai ralhou com eles para que ficassem quietos.
Perguntei o nome do menino que olhava para mim, tentando aquietar-se.
- Zildo, respondeu o menino.
- Fala direito seu nome, moleque! zangou-se o pai. – É Ezildo, moço, conclui o homem, dando um leve tapa na cabeça do filho.
- E o seu? Perguntei para a menina que parecia ser mais nova que o garoto.
- É Marta, respondeu, escondendo atrás do pai.
- E quantos anos você tem?
- 6 anos.
- Você é muito bonita, elogiei a menina.
Ela sorriu envergonhada. Puxou o irmão pelo braço como que querendo que eu voltasse a fazer perguntas a ele.
- Você tem mais filhos? Perguntei a pai.
- Tenho outra filha mulher que está com a avó na cidade.... pra poder estudar.
- Entendo, balancei a cabeça em aprovação. – E esses dois ainda não estão na escola?
- Não sei como fazer. O garoto já fez 7 anos, mas aqui não tem escola. – Penso em ir pra a cidade pra eles estudar. Só que lá preciso de emprego. Aqui planto minha roça e trabalho pros fazendeiros... só sei mexer com gado e lavoura.
Olhei para fora e vi que o sol brilhava mais alto e que as horas estavam passando. Despedi-me deles e saí em direção ao sul a procura dos outros moradores. Antes do cair da tarde precisava voltar, descer a serra até Santa Cruz, onde estava hospedado.
A paisagem daquela montanha não tinha beleza como em outras regiões. Havia muita pedra e as árvores eram pequenas espinhentas e retorcidas. Nos pequenos vales com planícies estreitas, cortadas por riachos, os moradores plantavam lavouras, principalmente milho e feijão. As planícies úmidas que vi não passavam de uns duzentos metros de largura. Muitas vezes os córregos eram represados para que formassem pequenas lagoas, onde criavam peixes e desviavam água para suas casas.
Voltei diversas vezes à montanha da Contenda e sempre tomava café na casa de taipa do Rima. Zeneide, sua esposa, preparava um saboroso café que eu sorvia acompanhado de pedaços de queijo ou batata doce que ela trazia numa bandejinha de lata.
As crianças adoravam prosear comigo. Eu sentava no banco de troncos que ficava do lado de fora da casa e Ezildo e Marta ficavam pulando a minha frente, gesticulando e balançando o corpo como numa dança. Marta apesar de menor era mais conversadeira e alegre; seus cabelos, meio rebeldes, cacheados caiam nos ombros e cobriam parte do rosto. Ela constantemente puxava com as pontas dos dedos as mexas e passava para trás das orelhas. Ezildo gostava de contar dos tombos que sua irmã tomava, como no dia em que atravessavam o riacho, pulando de pedra em pedra; Marta acabou caindo e molhando-se toda ou quando ela correu da vaca que viera cheirá-la inofencivamente.

No final do verão voltei à casa do Rima, durante minhas periódicas rondas de avaliação de controle de endemias, no caso para detecção da presença do percevejo bicudo, causador da doença de Chagas.
A casinha de adobe estava com a porta e a janela abertas, mas não vi gente nem os cães. Parei próximo à porta e gritei:
- ô, de casa! Silêncio.... só ouvi o cacarecar das galinhas, ciscando um monte de gravetos.
- Ô, de casa! Repeti.
Dei a volta em torno da casa, vi que a porta da cozinha também estava aberta, mas não havia ninguém. Olhei para o sul, no rumo da roça, para o norte, na direção da nascente do riacho e não vi gente alguma. Caminhei para a frente da casa e peguei a estrada de volta. Então vi o Rima surgir por detrás das rochas vermelhas, trazendo um bezerrinho nos braços. Zeneide o acompanhava e mais atrás vinha o menino. Esperei que eles se aproximassem, cumprimentei-os sem pegar a mão e seguimos em direção do curral, onde Rima colocou o bezerro.
- O Sr ‘tá bem, seu Thomaz! Perguntou sorrindo e estendendo o braço.
- Eu estou bem, Rima, e vocês?
- ‘Tamos como Deus quer, respondeu. – Vamos chegar, convidou-me, seguindo lentamente em direção à porta da casa. Olhei para Ezildo , o garotinho. Ele tinha um boné cinza empoeirado na cabeça e me olhou sem muita alegria. Bati, de leve, a mão nas suas costas e caminhei com eles. Zeneide foi na frente.
Entramos na casinha e Rima puxou uma cadeira e ofereceu-me para sentar.
- Onde está a Marta? Perguntei.
Os dois se entreolharam, ficaram alguns segundos em silêncio. Rima olhou para mim, sério.
- A nossa filhinha morreu... afirmou baixando os olhos.
- Como assim? Ela morreu? Perguntei incrédulo.
- É verdade, cochichou.
- Mas como ela morreu? Insisti.
- Foi picada de cobra.
- Picada de cobra? Mas hoje em dia ninguém morre de picada de cobra, comentei. E continuei: - é só levar ao médico.
- É mas a gente levou ao benzedor.
- Estão brincando? Perguntei incrédulo.
- É, mas ele benzeu o filho do Joaquim e o veneno não fez nada com ele.
- Mas Rima! Exclamei revoltado. – Nem sempre a cobra mata ou tem veneno suficiente para matar. Vocês deviam ter levado a menina ao hospital.
- Daqui é difícil, justificou Rima cabisbaixo e envergonhado.
- Fosse de cavalo até a fazenda mais próxima.
- Eu sei, respondeu. Quem sabe era o destino dela... concluiu resignado.
Fiquei calado, remoendo por dentro. Aquele casal vivia uma vida tão simples, tão inculta que o mundo deles não era o meu mundo. Viviam isolados, não frequentavam a igreja, não conheciam gente com estudo para trocar informações sobre a vida e até mesmo sobre o mundo de hoje. Eu, sinceramente não sabia o que dizer a eles.
Tentei reconfortá-los.
- Ela deve estar descansando no céu, afirmei sem muita convicção.
- Jesus há de cuidar dela, exclamou Zeneide, a mãe.

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

O homem tossia todo o dia e toda a noite. Da minha casa, ouvir aquilo me angustiava. Nos dias de calor e sol ele tossia, nos dias de chuva ele tossia, nos dias de frio e vento ele tossia. Sua mulher fazia chá e o cheiro do chá quente espalhava-se pela redondeza. Os vizinhos iam visitá-lo e saiam cabisbaixos e silenciosamente caminhavam para suas casas. Nunca vi um médico visitá-lo; apenas o enfermeiro vinha, diariamente, aplicar-lhe injeção. Diziam que o medico o havia desenganado. Alguns vizinhos não o visitavam porque temiam que sua doença fosse contagiosa, outros evitavam visitá-lo porque não queriam sentir pena. Sua família não era grande. Os filhos, as vezes, brincavam no quintal, mas a maior parte do tempo ficavam com os avós. Na frente da casa havia uma palmeira, um belo pé de jerivá com três cachos carregados de coquinhos amarelos. Os periquitos gostavam de assentar alí e comer os frutos enquanto faziam uma enorme e estridente algazarra.
Quando a esposa saia na rua eu a observava caminhar em direção do mercadinho. Seus passos eram lentos e vacilantes, seu corpo inclinava ora para um lado ora para o outro. Parecia uma mulher fraca e triste, embora sem ar de doente. Seus cabelos eram mal cuidados e os pés calçavam uma sandália de tiras simples e desgastadas.
Mas a todo o tempo o homem tossia.
A gente desejava poder ajudar, poder fazer alguma coisa que curasse aquela criatura mas nada vinha a mente. Fui visitá-lo numa tarde fria e garoenta. Ele estava deitado na cama de solteiro armada no meio do quarto. Esta ficava bem no centro, de forma que as pessoas que o visitavam podiam rodear a mesma e observá-lo de todos os ângulos. O doente acompanhava a gente com o olhar e seus braços descansavam sobre o cobertor que cobria seu corpo. O travesseiro era alto e uma toalha encardida ficava amassada ao lado. Quando começava a tossir, ele pegava a pequena toalha e a leva a boca como que para expelir menos bactérias aos visitantes.

Numa noite calma e com lua cheia a tosse cessou. A casa ficou em silêncio. Apenas um pouco de luz escapava pelas frestas da janela do quarto. Não ouvi choro nem lamentos. Tudo estava quieto.Apenas os latidos dos cães da rua e o cricri dos grilos do quintal quebravam o torpor do ar fresco e leve da madrugada.
De manhã vieram contar que o vizinho havia morrido.

Sexta-feira, Janeiro 09, 2009

Abandono



A mãe não quis o filho...
Ninguém o quis naquela manhã,
Abandonado à beira da estrada.
No ar frio, suas perninhas agitavam.
Os carros passavam uns pelos outros,
Buzinas, pneus na lama vermelha.
O corpo sobre o pano mal lavado,
As mãozinhas atacando o ar gelado
Da primavera chuvosa.
Algumas rolinhas assustadas
Esticavam o pescoço e ouviam o choro.
Os automóveis passavam...
Alguém parou,
Outros fizeram uma roda.
Nos braços daquela mulher,
Ouvindo vozes e suspiros,
O bebezinho sorriu!

Terça-feira, Setembro 30, 2008

ERA UMA NOITE VAZIA

Abel Aquino

As largas ruas da pequena cidade estavam vazias naquela madruga de inverno. Alguns cães procuravam restos de lixo nos cantos de muros manchados de umidade. Hugo caminhava sem pressa e angustiado. Havia poucas luzes acesas nos postes de madeira e as partes mais escuras ocultavam os contornos das casas. Quando chegou em frente da sua casa, Hugo parou por alguns segundos, aguçou os ouvidos e não percebeu nenhum ruido ou movimento no interior. Abriu lentamento o portão, passou para dentro e encostou-o mais devagar ainda, evitando fazer qualquer ruido. Seu cão surgiu balançando o rabo e grunhindo. Agachou para acariciá-lo antes que começasse a latir e por instante desejou dar meia volta e ir embora. Enfiou a mão direita no bolso, retirou a chave e aproximou-se da porta. Encaixou a chave na fechadura e girou sem pressa. A porta abriu com um leve gemido das dobradiças. Depois de fechá-la, caminhou no escuro, tocando com as pontas dos dedos nos moveis, cuidando para não esbarrar em nenhuma cadeira e seguiu até a cozinha. Pegou um copo sobre a mesa, encheu de água do pote de barro e bebeu. Ouviu um leve ruido vindo da sala. Olhou naquela direção e viu o vulto de uma pessoa. Hugo gelou.
Sua mulher parou debaixo do umbral da porta que dividia a sala da cozinha e perguntou com a voz rouca e soturna.
- Onde ‘ocê estava, seu traste!
- Bem.... eu.... estava no bar do Chico com amigos... jogando baralho e nem vi as horas passar.
- ‘Ocê me prometeu parar com isso, Hugo!
- Eu sei... mas....
- ‘Ocê é uma porcaria de marido e um péssimo pai.... um sem vergolha!
- Eu não fiz nada grave.... só joguei e bebi um pouco.
- Bebeu um pouco?! Estou sentindo seu bafo de alcool daqui!
- É... bebi um tanto....
- ‘Ocê é cara de páu, Hugo!
- ´Stá me ofendendo....
- Há! Agora tem sentimentos? E sentimentos pros filhos, pra familia?
- É....mas não precisa me lembrar do que tenho que fazer.
- ‘Ocê não tem conserto, Hugo! Vai dormir no sofá e amanhã a gente tem muito que conversar.
Zilda deu meia volta e seguiu para o quarto, batendo a porta. Hugo ouviu o ruido da chave, trancando a fechadura.
Acendeu a luz da sala e procurou alguma coisa para se cobrir. Sobre a poltrona havia uma manta dobrada. Pegou-a. Sentou-se no sofá, soltou os cadarços dos sapatos e espreguiçou. Retirou mecanicamento os sapatos e as meias. Deitou no velho sofá com a cabeça apoiada no canto, jogou a manta sobre o corpo e suspirou. A única coisa que sentia era sono, uma profunda vontade de dormir. Fechou os olhos. Tudo girava dentro de sua cabeça mas sua alma estava serena. Perguntou a si mesmo: - será que eu não tenho juizo mesmo?
Estava tonto demais para pensar; precisava dormir e então dormiu.

Quarta-feira, Abril 30, 2008

SERRA DA CANASTRA


Aqui nasce o rio São Francisco


Quando a gente viaja pela primeira vez para a Serra da Canastra, há sempre a ansiedade da chegada, do momento em que ela surgirá no horizonte da maneira o mais portentosa possível. No trecho sem asfalto de Piuhmi até São Roque a gente já começa a entrar no clima, ao presenciar a paisagem mais agreste e rude. A poeira da estrada dá a sensação de que a civilização ficou para trás. E sobe morro, desce morro, curva para a direita, curva para a esquerda e a gente de olho no horizonte a procura de vestigio do paredão que se vê nas fotos promocionais. Cruzamos uma pontezinha mal conservada, sobre rio de pouca água e vemos a placa indicando que alí passa o lendário Rio São Francisco. Há um pouco de desapontamento. Do outro lado, a estrada poeirenta segue serpenteando até que avistamos a encruzilhada. À direita segue-se para São Roque, à esquerda segue-se para a cachoeira Casca D'anta, a mais volumosa queda d'água do parque. Quarquer lado que escolher, a gente estará indo em direção da Serra mas terá dificuldade de vê-la por inteiro.

É preciso ir rodeando-a por estradas estreitas e sinuosas, às vezes bem próximo, às vezes mais distante. Há momentos em que é imperativo parar, descer do carro, subir ao barranco e vislumbrar os paredões recortados por quedas d`águas. No lado sul, por onde desce o Rio São Francisco – ainda nos seus primeiros quilômetros de existência – é que se pode presenciar toda a magestade da montanha, estendendo-se como imensa muralha de granito, coberta por vegetação rasteira, arbustos retorcidos e cachoeiras. Viaja mais alguns quilômetros por estrada paralela ao paredão e, depois de passar por casas de fazendas feitas de adobe, cobertas com telha colonial, portas e janelas de madeira lavrada, chega-se a entrada oficial do parque.


A PRIMEIRA VIAGEM

Levantamos cedo, antes do raiar do sol como dizem os camponeses, e seguimos pela estreita estrada que nasce ao lado do cemiterio e segue rumo a portaria principal do parque, no alto da serra. O muro do cemitério é feito de pedras caprichosamente encaixadas umas nas outras de forma que não há espaço entre elas. Musgos e algas verdes crescem por entre os encaixes e dão uma aparência centenária ao muro. Enquanto subiamos, fomos tragados pela neblina e só podiamos ver por meros 4 metros a nossa frente. o jeep ia lentamente subindo e fazendo as curvas ao redor de morros cada vez mais altos. Quando alcançamos a portaria mal podiamos ver a cancela e a construção de pedra que abriga os guardas e o pequeno escritório.
Portaria principal do parque.
Passada a portaria seguimos subindo por mais algumas centenas de metros e então começamos a sair da neblina e conseguimos ver a chamada casa de pedra. Passamos por ela e alcançamos a campina, onde o capim é baixo e exisntem poucas árvores, a maioria pequenas e retorcidas. A campinas fica num planalto, com suaves ondulações do terreno de forma que destacam as pontas das pedras das partes mais altas e as grotas nas partes baixas. Mais a frente avistamos a baixada onde nasce o São Francisco.
Paramos o jipe junto à pequena ponte de madeira, descemos e seguimos a trilha em direção do riacho. Parei ao lado da água e num passo atravessei o São Francisco que ali tem 60 cm de largura.

Caminhamos em direção do Monumento que colocaram em homenagem ao Santo que emprestou o nome ao rio. A Estatua está protegida por cercado de pedras, recolhidas na redondeza.

Alguns quilômetros depois da nascente já não consegui atravessar o rio nem com dez passos. Ali encontramos a primeira cachoeira.

Dentro do parque, Casca D’anta é a maior cachoeira do Rio São Francisco.. Alí as águas se lançam do alto da montanha e arrebentam-se lá embaixo com enorme barrulho. Depois o rio prossegue mais sossegado, contornando a serra, saltando pedras, margeado por matas, sinuosamente rolando, para seguir seu longo caminho a procura do mar.
Mas do alto da montanha, aconpanhando a água, dá para ver só um pequeno pedaço da cachoeira. E olhando no fundo do vale o rio reaparece. Dá para ver a outra portaria do parque, a uns quinhentos metros do pé da serra.

Planalto dentro do parque.

Cachoeira do Serradão nas proximidades do parque. Essa cachoeira faz parte do circuito turistico da região.



Campina das terras altas.


Carro de boi, comum na região. Pena que a maioria desses carros foram abandonados pelos cantos das fazendas. Foram substituidos por camionetes e jipes.

Frondoso piquizeiro que cresceu todo inclinado na encosta da montanha.

Fomos visitar um morador da região. A casa tinha o curral na frente e pomar no fundo. O sítio não deveria ser grande e, da janela da sala, pude ver os contra fortes da imensa montanha. Aquela familia não tinha luxo mas vivia num razoavel conforto. A comida é sempre boa nesses lugares. O próprietário fabricava queijo e para isso mantinha uma casinha ao lado, toda bem fechada, com prateleiras junto às paredes repletas de queijos para curtir. Proseamos com aquela familia até alta hora da noite e no final já éramos íntimos de todo o mundo. Comemos uma espécie de bolinho em formato de charuto e envolto em casca de bananeira. Muito delicioso. Brincamos com o formato do bolinho que lembrava o orgão sexual masculino.

Sede de fazenda cercada por muro de pedra como muitas das que existem no entorno do parque.
A sensação que a gente tem, quando no alto da serra, no planalto levemente ondulado, é de estar mais próximo do céu. As núvens passam baixas e o vento sopra forte e dobra o capim para um lado e para o outro. Por entre o capim, aparecem pedras enormes, manchadas de musgos e enegrecidas pelas frequentes queimadas que acontecem na estação da seca. Alí o céu é baixo mas o horizonte parece quase infinito.
Num primeiro momento a gente não percebe a grandeza do parque.
É curioso, mas é depois de caminhar bastante, ir a muitos lugares diferentes, visitar cachoeiras, subir penhascos, descer caminhos tortuosos e percorreu as curvas do rio, ainda riacho, é que a gente se dá conta da imensidão desse lugar.