quarta-feira, junho 09, 2021

A LINGUAGEM MUDOU TUDO

 

Os seres humanos criaram a linguagem para se comunicar entre si e isso mudou tudo. Com a linguagem criou-se um fosso enorme entre nós e os parentes mais próximos como os chipanzés. A linguagem propiciou uma eficiente e fantástica forma de transmitir conhecimento de uma geração para outra. Assim nasceram as ferramentas a agricultura, as invenções facilitadoras da vida e também as armas para caçar, defender e matar rivais. Com a linguagem foi possível chegar aonde chegamos com esse mundo tecnológico, computação, robótica e telecomunicação. A linguagem também evoluiu para encantar, cativar, dissimular, criar poderosas religiões e sofisticadas ideologias. Favoreceu também as estratégias de guerra, de execuções, de invasões, de planejamento de extermínios de povos indesejáveis. A lista é infinita, tanto de coisas boas quanto maléficas.

A lista de maldades saídas dessa caixa de pandora é tão grande que dá vontade de querer voltar à época em que nossos antepassados só gruíam, gritavam e gesticulavam; guerreavam apenas com punhos, pedras e porretes de pau.

terça-feira, junho 01, 2021

A FILOSOFIA DE USO, UM SABER DE USO

 


 

Nosso esforço é o de resgatar o sentido antigo de filosofia, que é o do amor a sabedoria, e que esse amor à sabedoria pode ser a forma de se alcançar uma maneira de viver o mais saudável possível, tanto física e social, quanto mental. Entendemos que essa foi a missão de Sócrates, o filósofo de rua da antiguidade grega, que dedicou sua vida a beliscar os outros para que procurassem por si mesmos o “saber viver”.

 

Só não é nosso propósito criar uma ideologia, uma interpretação fechada e completa da vida, mas, sim, estabelecer um filosofia de vida, formada por um conjunto complexo de  comportamentos filosóficos.

 

Resumindo: uma maneira filosófica de viver.

 

Mas o que é uma maneira filosófica de viver? Essa postura pode ser definida práxis de vida, praticada por meio da reflexão, da inspeção detalhada de cada questão, da análise antes de qualquer julgamento - seja ele moral ou técnico - uma análise, em fim, que não busca a explicação mas o conhecimento da  coisa. Para cada fenômeno eu pergunto o que é isso e não como explicar o que é isso?

Ao longo da história da humanidade, buscaram-se explicações. A era da ciência suspendeu a explicação antecipada ou justificadora das coisas e passou a destrinchar, investigar os fenômenos e conhecê-los no que são, independente de qualquer crença, explicação ou julgamento.

Assim, em nossa busca do saber de uso, ou seja, do saber para uso prático da vida, essa busca só dará resultados para aqueles que estiveram aquém ou além das explicações e dos julgamentos peremptórios ou dogmáticos.

quarta-feira, maio 26, 2021

A IDEOLOGIA DO PASTOR DE OVELHAS

 

Sabe o que é mentalidade do “pastor de ovelha”?

É aquela ideologia que prega que o mundo é dividido em três classes: ovelhas, lobos e pastores.

Quem prega essa mentalidade é quem se vê no papel de pastor. Quem acredita nessa mentalidade é aquele que se sente fraco e impotente; este se agarra na crença de que o pastor o protege dos lobos. As ovelhas vêem o pastor como protetor, mas não percebem que só valem alguma coisa enquanto servirem para lhe dar lã que o protege do frio e carne para matar sua fome. Quando não há predador o pastor inventa lobos para não perder seu posto privilegiado.

quarta-feira, maio 12, 2021

NÃO SE NEGA A VIDA IMPUNEMENTE

 Quem leu Nietzsche e não apreendeu a mensagem principal de seus escritos que é a de que ”ninguém nega a vida impunemente”, não aprendeu nada. Abraçar a utopia de que a vida é amor, solidariedade, cooperação, pacifismo, harmonia com a natureza e altruísmo extremo é a forma mais vulgar de negar a vida e, por conseguinte, de sacrificá-la. O ser humano não é santo, mas também não  é demônio, não é guerreiro o tempo todo ou pacifista em qualquer circunstância. Sonhar com um mundo cor de rosa leva ao risco de querer transformá-lo em cor única, monocromático, eliminando todas as outras cores, e esse é o primeiro passo para se destruir a vida verdadeira.

quinta-feira, abril 29, 2021

HIPERATIVIDADE MENTAL E BOM HUMOR

 Quando se estuda a história da filosofia, é uma constante o problema enfrentado pelos pensadores em função de nosso cérebro hipertrofiado. Pensamos demais, trazemos o passado e imaginamos o futuro. Se nosso passado foi trágico, projetamos um futuro tenebroso. Estamos presos nesse desespero da mente hiperativa. Sair dessa armadilha foi, historicamente, muito difícil e raro. Poucos homens conseguiram conviver com o ritmo frenético de seus pensamentos. Esses poucos indivíduos que conseguiram conviver com a hiperatividade mental e dar-lhe um rumo construtivo e fecundo, eu os chamo de sábios. 

Adoro o sábio que ri. Os humoristas estão, quase todos, de bem com a vida; em vez de ver o lado trágico da vida passada, presente ou projetado no futuro, eles encontram e cultivam o lado cômico das coisas. Há! como é bom rir da estupidez humana e, principalmente, da nossa própria estupidez. Um indivíduo alegre e bem humorado nunca será candidato a ditador.

quarta-feira, abril 21, 2021

HÁ MOMENTOS DE.....

 Há momentos de competir e há momentos de cooperar;

Há momentos de plantar e há momentos de colher;

Há momentos de pratear e há momentos de regozijar;

Há momentos de trabalhar e há momentos de descansar;

Há momentos de juntar e há momentos de espalhar;

Há momentos de falar e há momentos de calar;

Há momentos de lutar e há momentos de selar a paz;

Há momentos de acreditar e há momentos de duvidar;

Há momentos que se perde e há momentos que se ganha;

Pois  saber o momento de cada coisa é o principio da sabedoria.

quarta-feira, fevereiro 17, 2021

SÓCRATES ENSINAVA HUMILDADE

 

Numa manhã de chuva, daquelas que persistem todo o dia, resolvi voltar a ler sobre Sócrates. Da janela podia ver as árvores da mata e suas folhas molhadas, oscilando sob o impacto das gotas d’água. Meu desejo era imaginar a mim mesmo, apoiado nas informações que temos e nos escritos que chegaram até nós, perambulando pelas ruas poeirentas de Atenas num dia qualquer do alto verão. Encontraria Sócrates sentado num banco de pedra, à sombra  das árvores  e conversando com seus amigos. Pelos relatos, sua aparência era inconfundível.

 

Sócrates admitia que seria incapaz de ensinar qualquer coisa a alguém, principalmente por dinheiro. Na apologia cita o caso de Cálias de Hipônico que admitiu que iria pagar 5 minas para Éveno de Paros, para educar seus filhos. Ouvindo isso Sócrates declarou: “o certo é que eu também me sentiria altivo e orgulhoso, se soubesse tais coisas (capaz de vender ensinamentos); entretanto, o fato é que não sei”.

 

 

Uma idéia revolucionaria de Sócrates até hoje ainda não foi assimilada pelo povo, ou pelo menos nunca foi posta em prática, seja pelos intelectuais, seja pelos políticos, seja pelos mestres e ensinadores. É a de que sábio é aquele que sabe até onde sabe e que consegue imaginar o quanto ainda não sabe. Sábio é o relativista que se preocupa não com o que aprendeu, mas com o quanto precisa aprender para poder formular alguma regra ou conceito válido ou útil.

 

Sócrates percebeu, já faz mais de dois mil anos, que as pessoas especialista em alguma área do conhecimento se sentem sábias em qualquer outra coisa,  e assim são consideradas pelos outros. De vez em quando vemos grandes cientista manifestando opiniões sobre disciplinas que desconhecem. O povo acha que um médico notório no seu saber e com habilidade cirúrgica é também hábil em política ou psicologia. Este equivoco persiste intacto nos tempos atuais.

Ou seja, as pessoas não conhecem os limites de seu conhecimento ou de sua inteligência e portanto, conforme Sócrates, não são sábias.

sexta-feira, novembro 08, 2019

DIÁLOGO IMPOSSSÍVEL



 Alguem acredita que é possível dialogar com um bárbaro?
Olhe, eu não avalio as pessoas pela cor da pele. Mas não dá para negar que a sociedade é composta de brancos, negros, pardos, asiáticos.
- Viu como você é racista, seu branco opressor!
- Como assim?
- Você é racista, racista, racista!!! Gente esse cara aqui é um racista!!!!!

terça-feira, agosto 20, 2019

TROPEÇANDO NOS MEUS CHINELOS


A relação entre pensamento e vida, entre as idéias que o ser humano cultiva e a vida concreta, entre as reflexões filosóficas da vida e do mundo e o dia a dia do cotidiano, como trançar todos esses laços? Não afastar da vida do meu chinelo, dos meus filhos, dos meus pais, dos meus amigos, dos meus inimigos, dos meus vizinhos, mas levar para esse mundo o que encontro nos livros, nas teses filosóficas, nos tratados sociológicos e nas idéias de pensadores do passado, depois trazer de volta esse adubo e fertilizar o  mundo concreto de meus desejos, de anseios e das minhas relações sociais, enriquecendo a mente e clareando os próximos passos. Isso é  possível?

Como posso aprender a viver, gastando a maior parte do tempo na luta para manter-me vivo? Nalgum momento da vida meu pão de cada dia pode estar assegurado, mas o alimento da mente não corre risco de faltar? Como exercitar o cérebro assim como se levanta pesos em uma academia para fortalecer os músculos?
Outro dia, depois de ler uma volumosa biografia de Benjamin Franklin, desejei passar alguns dias sem ler outro livro e folhear, por algum tempo, os meus próprios neurônios agitados e, talvez, observar as idiossincrasias dos amigos e dos políticos. Exercitar a mente viajando ao passado tende a enfraquecer minhas pernas. Corro o risco de tropeçar na realidade do que se passa a volta. Quero comentar aquela leitura, mas deixo para outra ocasião, pois meu pensamento agora quer desenvolver músculos por outros meios, como observar pássaros no alto da montanha ou tirando um tempo para conversar com amigos e parentes.
A preocupação é a de não deixar que os contornos musculares do cérebro se atrofiem por falta de atividade. Decidi, por alguns dias, ler o “livro aberto da vida” para concluir com uma frase de poesia barata.


quarta-feira, novembro 07, 2018

COMPORTAMENTO APROPRIADO


No sentido extramoral qual é o comportamento mais adequado para o momento? Quando o adequado é lutar, luta-se com o máximo de energia possível e com a maior habilidade adquirida; quando é adequado fugir, foge; quando for adequado fazer as pazes e celar um acordo, escolhe-se a paz e celebra o acordo. Esse é o comportamento apropriado.

quarta-feira, março 21, 2018

O QUE HERDAMOS DE NOSSOS ANTEPASSADOS?


Nossos pensamentos e crenças herdadas estão de tal forma entrelaçados com os sentimentos que se torna quase impossível modificar essas crenças e formas de pensar independentemente dos sentimentos e afeições. Da mesma forma, não se consegue separar os sentimentos das crenças e pré-conceitos inconscientes que moldaram todo o nosso ser e que geram, numa sociedade qualquer, formas de ver e pensar o mundo muito semelhantes, estabelecendo uma certa homogeneidade social positiva ou mesmo negativa.
                                                                                                                      
 Costumo imaginar que sou um processo sem começo determinado, um ponto na linha do tempo histórico. Sou produto do passado, fruto das escolhas que meus pais fizeram. Estes por sua vez são conseqüências dos atos e escolhas de meus avós.  E assim pode-se retroceder até ao verme de quatro bilhões de anos atrás. Somos efeitos de causas passadas e as causas passadas eram efeito de causas anteriores e assim retrocedendo-se indefinidamente.
Não será por isso que notamos uma certa continuidade nos costumes a que chamam de “característica de um povo”, ou seja, costumes, hábitos, qualidades,  defeitos, vícios, independentemente de leis, códigos, coerções, revoluções, matanças e religiões?

sexta-feira, janeiro 19, 2018

ONDE SE APRENDE A VIVER UMA BOA VIDA?

Uma sociedade simples como uma aldeia indígena que não possui normas escritas de comportamento funciona melhor que uma sociedade moderna baseada em leis e penalidades; por que acontece assim?
Esse tipo de sociedade está fundamentada sobre costumes e hábitos transmitidos de geração para geração através da imitação e do exemplo paterno. É um sistema de educação não institucionalizado, não planejado por um grupo especial de membros ou por um projeto de vida escolhido pelos pais. As pequenas dissidências são condenadas de forma suava pelos outros membros da sociedade, de forma que o membro desviante se sente coagido a mudar seu comportamento em resposta a reação negativa da comunidade.
Nas sociedades regidas por leis modernas essa educação básica e fundamental é desprezada em nome da educação estatal, planejada aplicada com objetivos políticos.
Destacar:  desprezamos a educação por imitação, pela relação social e investimos na educação controlada, ou com o objetivo de controlar cada indivíduo, como se ele fosse moldável, não pelo processo de assimilação mas por meio de impossições.
Assim como temos médico para cuidar da nossa saúde, advogado para nos ajudar a prevalecer sobre os outros, psicólogo para fazer nossa cabeça, temos também professores para nos ensinar comportamentos. O comportamento do professor ou da professora não é exposto ao aprendiz e sim separado do contexto do ensino. O que o professor é disvincula-se do que ele ensina, assim como não interessa ao tratamento médico se o doutor é um bom marido ou um bom pai. É preciso, apenas, que ele seja um bom especialista em medicina.
Qual é o resultado dessa separação, dessa desvinculação?
A vida real tem aspectos tão separados e independentes? Será que um médico para ser bom médico não precisa ser um bom marido, um bom pai ou um bom membro da sociedade?
Da mesma forma um professor está desvinculado, no ambiente de ensino, dos aspectos sociais da sua vida. É possível ensinar dessa forma?
Outra questão é que o professor não considera ou ignora a educação que a criança está tendo em casa no seio da família e desvincula esse aspecto da formação do indivíduo. Muitas vezes o que a criança ouve ou é ensinada a praticar pelo professor revela-se o oposto do que vê e ouve em casa.
A educação é compartimentada, sem distinguir entre ensinar habilidades manuais ou técnicas científicas e ensinar a viver.
A arte e a ciência de viver é enfiada guela abaixo do aluno como ser fosse a mesma coisa que ensinar como desenhar, ou como funciona um motor de carros. A engenharia de viver é ensinada como extensão da engenharia civil ou mecânica.
Daí que os avanços das chamadas ciências exatas foi prodigioso nos últimos séculos e os avanços nas “ciências humanos” foi insignificante.
No processo de ensinar uma habilidade manual temos: explicação – demonstração – imitação e prática pela repetição.
No processo de ensinar a viver bem temos outra forma de aprendizado: observação – avaliação por comparação – imitação e prática pela repetição.

No aprendizado técnico o professor pode ser ignorado como ser social, pois está ensinando uma prática que não envolve comportamentos afetivos diretamente. Já no aprendizado da ciência de viver, os aspectos afetivos do ser humano são o ingrediente básico do ensino.  Nesse caso o que o professor diz tem menos importância que o que ele faz na sua vida particular. Não será por isso que as escolas ensinam comportamentos de maneira insistentes e, no entanto, as pessoas saem da escola como se nada tivessem aprendido?

quarta-feira, maio 24, 2017

TRANÇANDO LAÇOS E RELAÇÕES

A relação entre pensamento e vida, entre as idéias que o ser humano cultiva e a vida concreta, entre as reflexões filosóficas da vida e do mundo e o dia a dia do cotidiano, como trançar todos esses laços? Não afastar da vida do meu chinelo, dos meus filhos, dos meus pais, dos meus amigos, dos meus inimigos, dos meus vizinhos, mas levar para esse mundo o que encontro nos livros, nas teses filosóficas, nos tratados sociológicos e nas idéias de pensadores do passado, depois trazer de volta esse adubo e fertilizar o  mundo concreto de meus desejos, de anseios e das minhas relações sociais, enriquecendo a mente e clareando os próximos passos.
é  possível?
Como posso aprender a viver, gastando a maior parte do tempo na luta para manter-me vivo? Nalgum momento da vida meu pão de cada dia pode estar assegurado, mas o alimento da mente não corre risco de faltar? Como exercitar o cérebro assim como se levanta pesos em uma academia para fortalecer os músculos?
Outro dia, depois de ler uma volumosa biografia de Benjamin Franklin, desejei passar alguns dias sem ler outro livro e folhear, por algum tempo, os meus próprios neurônios agitados e, talvez, observar as idiossincrasias dos amigos e dos políticos. Exercitar a mente viajando ao passado tende a enfraquecer minhas pernas. Corro o risco de tropeçar na realidade do que se passa a volta. Quero comentar aquela leitura, mas deixo para outra ocasião, pois meu pensamento agora quer desenvolver músculos por outros meios, como observar pássaros no alto da montanha ou tirando um tempo para conversar com amigos e parentes.

A preocupação é a de não deixar que os contornos musculares do cérebro se atrofiem por falta de atividade. Decidi, por alguns dias, ler o “livro aberto da vida” para concluir com uma frase de poesia barata.

terça-feira, dezembro 06, 2016

NOSSA VIDA NÃO TEM CAMINHO

Caminhos e estradas são muito simbólicos e servem para criar metáforas de todo tipo. Dizem que viver é seguir um caminho. Quando a pessoa comete erros, consideram que perdeu o caminho ou o rumo. Não consigo imaginar como é esse caminho nem quem o abriu para mim. Alguns dizem que  viver é seguir por essa imaginaria estrada até encontrar a morte. Outras pessoas dizem que, se seguirmos certas regras obrigatórias, ao final dessa viagem alcançaremos o paraíso. Claro que uma boa parte acaba indo é para o inferno. 
Acho bastante interessante essas metáforas, pois simplificam muito a nossa necessidade de encontra uma  lógica ou uma razão do viver.
Mas, será que não estamos sendo enganados com isso? A metáfora da vida como um caminho a percorrer dá a ilusão de que existe um sentido prévio da  vida, uma espécie de missão impostas a todos as pessoas. Dizem até de que há, numa determinada etapa desse caminhar, uma encruzilhada. Para a esquerda vamos direto a um mundo sustentado pelo diabo. Para a direita, podemos alcançar o céu, povoado de anjos imaculados e com um chefe todo poderoso chamado Deus. 
No cotidiano de nossas vidas essa metáfora, embora não seja nada prática, nos segue como vulto ideal, uma espécie de bússola que nos orienta ao longo da acidentada jornada
 Por atrevimento ou, talvez por imprudência, resolvi imaginar como seria minha vida sem essa metáfora. Considerei que viver pode ser um caminhar, mas sem nenhuma vereda, nem uma trilha sequer. Teria que viver abrindo minha própria trilha em meio às florestas das possibilidades, de desafios, de obstáculos e das necessidades de escolhas. Preciso, toda, desbravar uma parte desconhecida, uma subida penosa e cheia de pedras ou uma descida inclinada demais, escorregadia e ponteada de valas e cercada de despenhadeiros. Posso encontrar, à frente, pântanos perigosos ou desertos inclementes. De qualquer forma minha caminhada não pode ser detida a não ser pela morte. E, como desejo continuar bem vivo, não desisto e prossigo. Imagino que não há bússola nem outros meios confiáveis de me orientar. Sigo em frente meio perdido, desorientado ou caminhando em círculos. Depois consigo encontrar meu rumo e recobrar o animo de prosseguir. Atrás de mim, fica o caminho, as marcas das solas do sapato e os galhos e cipoais rompidos à minha passagem. À frente, não vejo sinais de  de outros, rastros de algum viajante mais prudente, só arbustos espinhosos, liames enovelados entre os troncos das árvores, ou charcos traiçoeiros. Quando passo pelo deserto, só vejo areia, pedras, e o brilho do sol abrasador. Passo fome, passo cedo, sinto fraquezas, as vezes desânimos ou desespero, mas tenho que prosseguir. Depois que passo, fica o caminho, as marcas de minhas obras, das escolhas e dos atos. Um caminho que depois o tempo vai se encarregar de devolver à natureza e apagar as pegadas de minha passagem. 

quinta-feira, novembro 10, 2016

BOAS INTENÇÕES SÃO O CAMINHO MAIS CURTO PARA O INFERNO

Muitos acreditam que consertar o mundo e construir o paraíso perfeito é uma questão de vontade obsessiva de alguns e de subordinação de todos os outros; ainda, da eliminação direta dos contrários e com o triunfo da unanimidade.

Tem gente que acredita que o mundo só é imperfeito e sofrido por culpa dos outros. Caso esses outros aceitassem suas idéias e se dispusessem, pacificamente, a lhes obedecer, rapidamente o paraíso se estabeleceria na terra. A complicação é que esses “outros” pensam a mesma coisa daqueles primeiros.

terça-feira, outubro 04, 2016

QUANDO É POSSÍVEL SER CULTO?

Imagine alguém que vive na roça, na zona rural, longe de cidade, aquele que tira  seu sustento da terra. Talvez crie galinhas, porcos e gado leiteiro. Num mundo isolado desse estaria ele obrigado a  viver uma vida mentalmente pobre, absorvido em sua lida e sem tempo para ler um livro, conversar com gente culta, ouvir palestra sobre economia, quem sabe psicologia ou mesmo filosofia? Porque o lavrador deveria viver de seu trabalho assim como vivem as abelhas na coleta de néctar, com conhecimento suficiente da posição do sol, da direção do vento ou dos ciclos das estações? Não poderia ele adquirir musculatura mental assim como adquiri calos nas mãos e hipertrofia os músculos dos braços? Estaria condenado a aprender meramente datas para plantar couves,  ou qual a melhor época para semear feijões, decorar as fases da lua, dos dias de festas no povoado e da  missa na igreja de pau à pique?
Qualquer homem da roça sabe distinguir as primeiras folhas do milharal que nasce das brotas de capim ou de ervas daninhas. Mas sabe ele distinguir uma sonata de Beethoven de uma peça de Mozart, ou ainda, que o cavalo de tróia era de madeira e que a montaria  de Alexandre tinha o nome de bucéfalo?
Parece-me que em quase todas as partes do mundo, ser agricultor é sinônimo de vida tosca, embora romântica. Justamente aquele indivíduo que vive em contato com a natureza, ver todos os dias os pores de sol e todas as auroras, pode terminar por não perceber a beleza das nuvens formando fantasmas de roupas brancas e amareladas, contornadas por  bordas vermelhas. Talvez, por isso mesmo, por ter todas as manhas e todas as tardes defraudando arrebóis encarnados, que tudo acaba sendo sem importância. O homem não olha para o céu, nem perscruta o horizonte a não ser para ver se vem chuva ou se o dia vai ser quente.
Só quem perdeu todo  esse paraíso é que aprende a valorizá-lo. Aquele que vive entre fumaça de automóveis, horizonte bloqueado por arranha-céus, ruas coalhada de gente e de ruídos de trens e fábricas, pode, de uma hora para a outra, refugiar-se no meio de uma invernada ou no sopé da montanha. Então ouvirá o burburinho da correnteza do rio, o canto dos pássaros e desejará admirar o sol que desce deslizando sobre o morro irregular e escuro, e aí irá se emocionar e exclamar: como é belo!
O triste é que a vida no campo está associada à vida simples, pobre, ingênua, sem graça e vazia. Em minhas caminhadas pela borda da floresta ou atravessando rios a nado, lembrava que por conhecer os dois mundos, aprendi a buscar não só prazer no meio do “nada” como fazer desse nada, desse mundo de plantas, pedras, animais, insetos, um universo não só emocionante mais também cheio de belas e agradáveis surpresas. Quando me exercitei na lida de agricultor e ganhei o meu pão de cada dia plantando abóboras e alfaces, meu objetivo era não só o de cumprir um ritual de que tinha saudades como o de poder plantar feijão e depois ler Homero, saboreando a ambos com o mesmo prazer. Acreditei até que plantar uma roça de milho é tão filosófico, tão criativo quanto escrever uma tese sobre Spinoza ou descrever numa monografia as contradições da teoria da relatividade comparada à mecânica quântica.

De qualquer forma a maioria dos roceiros parece feliz e não sente falta de Aristóteles, de Spinoza, de Descartes e suas vidas. Os biólogos e os antropólogos dizem que os seres vivos adquirem conhecimento de seu meio como estratégia de sobrevivência e nada além do que precisam para manter-se vivos e se reproduzirem. Nesse caso alguns seres humanos fogem à regra, pois estão sempre se metendo em confusão, seja ela religiosa ou filosófica. Querem conhecer mais do que plantar trigo ou fugir de raios nas tempestades. Mas os lavradores que conheci estão mais de acordo com as explicações dos biólgos. A maioria vive feliz com seu mundo simples e delegam aos deuses e santos as tarefas que demandam conhecimentos ocultos ou difícil de serem adquiridos, já que seu mister não o exige, ou pelo menos assim acreditam.
Invejo essa simplicidade da vida campesina, marcada pelo contato direto e muito próximo com o mundo natural, quase inteiramente dedicada aos instintos de sobrevivência e a procriação. Pelo menos não sofrem a angustia daqueles intelectuais que perderam a inocência de viver, enroscados em tantas perguntas sem respostas. Cultivam certas preocupações que são boas  para provocar insônias.


Certa feita, fui a um velório no sertão e, como todo observador ressabiado, fiquei observando e ouvindo os presentes. O que notei foi uma total falta de medo da morte. Todos desejavam que o defunto descansasse em paz como se por toda a sua vida não tivesse encontrado momentos de repouso. Tinham uma visão quase fatalista da vida e da morte, ou melhor, viam a vida como constante labuta e a morte como aquele momento de repouso, o descanso sem volta, o alivio das dores e suores da existência.  Pelo menos não percebi neurose nessa filosofia tosca e resignada, em certo aspecto melhor que a minha. 

quinta-feira, agosto 25, 2016

FLORES SEM NOME

O quintal de qualquer casa está sempre sendo invadido por plantas, a maioria desconhecida, que chamamos de mato. 

O lavrador dá o nome de praga da roça.







Meu quintal não é diferente. Uma dezena de plantinhas nasceram e cresceram enquanto não tinha tempo para limpar o terreno. Algumas começaram a soltar flores e eu parei para admirá-las. Não eram plantas de jardim ou ornamentais, mas tinham pétalas lindas e não deixavam nada a desejar às rosas, aos cravos e as orquídeas.



Fiquei contente de não tê-las capinado.

quinta-feira, junho 09, 2016

VIAGEM COM POUCO DINHEIRO

Viajei para Itahum para conhecer a região. Levei dinheiro para comer alguma coisa por três dias e guardei o suficiente para pagar a passagem de volta à Itaporã. Não tinha sobra para ficar num hotel. Perambulei pela cidadezinha por algumas horas, comi um lanche simples num barzinho aconchegante e segui para os arredores. A cidade era  cercada pelo cerrado, terreno plano, arreia clara e árvores pequenas e esparsas.  Procurei uma parte deserta e calma para passar a noite. Com o cair da tarde, escolhi um local limpo, arenoso, com árvores retorcidas e moitas de capim barba-de-bode. Entre os ramos e touceiras destacava a superfície de areia muito fina, partes amarelo-amarronzado e  outras muito brancas. Lembrava um deserto só que mais vivo, mas verde e cheio de vida. Por um momento observei os pequenos lagartos correrem de um lado a outro e formigas perscrutarem as cascas das árvores. Era fim de tarde e um vento fresco começou a substituir o calor intenso do dia. Sentei-me no chão e abri minha mochila, disposto a escrever alguma coisa no meu caderno de anotações. Peguei a caneta, mas nada me vinha a mente. Aliás, uma multidão de coisas agitava minha imaginação, e nenhuma daquelas imagens associadas a sentimentos de toda sorte, demorava mais que alguns segundos. A luz diminuía constantemente.
Pensei comigo: vou dormir por aqui mesmo; quero alimentar-me dessa visão agreste por mais tempo. O terreno era incrivelmente regular e o horizonte parecia muito próximo. As pequenas árvores afastadas umas das outras balançavam delicadamente suas folhas ao toque da suave brisa do cair da tarde. Não lembro, exatamente, o que sentia. Tenho certeza apenas de que uma centena de sentimentos, misturados com visões coloridas e brilhos de luzes desconhecidas, tumultuavam minha cabeça. Mas era uma sensação gostosa, talvez uma embriaguez prazerosa. Pássaros silenciosos saltitavam por entre touceiras de capim, juntamente com as formigas e os lagartos apressados. Uma seriema piou ao longe, a oeste; outra respondeu, ao norte.
Passei a noite meio sentado na areia, as pernas, ora esticadas ora encolhidas,com as costas apoiada no tronco rugoso de uma árvore de folhas oblongas e ásperas.  Ouvi muitos ruídos que me assustavam, uivos e guinchados mais distantes que me obrigavam a abrir os olhos e a perscrutar a escuridão. A noite era relativamente clara, sem lua, mas com um céu tão cheio de estrela que elas pareciam mais baixas, mais próximas da terra. Tinha a sensação de que se levantasse, esticasse o braço para cima, poderia tocá-las.  De manhã, quando o brilho vindo do leste estendeu-se pelo campo, desejei agitar meus membros doloridos e caminhar na direção do meu destino.


segunda-feira, abril 25, 2016

RELIGIÃO E CIÊNCIA E A SUPERAÇÃO

CAPÍTULO AINDA SEM NÚMERO

Versículo 121 – Os seguidores de religiões cultivam a fé porque ignoram que a dúvida não mata. Se não temessem a morte, nem os demônios, nem a fúria dos deuses, não receariam de mandar antecipadamente seus padres, pastores e gurus para o inferno, mesmo sem acreditar no inferno.

Versículo122 – Qualquer religião que se preze precisa ter belos e suntuosos templos. Seus deuses são tão humanos que precisam de palácios, luxos e conforto; os súditos devem descalçar os pés e pôr-se de joelhos nesses lugares  sagrados. Precisam demonstrar algum tipo de submissão e obediência.

Versículo 123– Não podemos comprovar a inexistência dos deuses, embora as divindades que conhecemos são demasiadamente humanas para perdermos tempo com elas.

Versículo 130 – Quem condena as religiões não entende o papel que elas desempenham. São respostas provisórias para perguntas que ainda não tivemos coragem de fazer. São explicações de um mundo que ainda não aprendemos a suportar.

Versículo 131– Religião religa o ser humano ao mundo da natureza da qual nunca se desligou por absoluta impossibilidade, mas de que se sentia diferente e separado. Talvez por ter a capacidade de construí-la dentro do cérebro e isso causava tamanho terror que precisava domar, não a natureza que estava fora de si, mas a que havia construído dentro de si. A natureza dentro de si não podia ficar sem explicações, sem causa e efeito compreensível. Por isso que a ciência é uma continuidade da religião que substitui o dogma e a explicação arbitrária pela hipótese e pelo experimento; de certa forma a ciência não destrói a religião, vai além dela. Na verdade dá continuidade ao objetivo de diminuir o terror que o desconhecido, a mudança e o futuro incerto causam no ser humano


Versículo 132– O medo do trovão e do raio não era medo do trovão e do raio; era medo do poder do trovão e do raio. O ser humano precisava saber a natureza do trovão e do raio para poder, de alguma forma, descobrir um meio de evitá-lo ou domá-lo. Dizer que o trovão e o raio eram a manifestação do poder de um Deus qualquer foi o recurso inventado, primitivo e tosco, na tentativa de domá-lo. E aí estava o germe da ciência de hoje. 

segunda-feira, março 21, 2016

OS DETALHES DA FLORESTA


Estava observando o terreno perto das árvores, numa parte plana onde tenciono fazer alguns canteiros de verduras. Sempre admiro o viço das plantas, principalmente no verão, quando uma área limpa se cobre de mato e em pouco tempo cresce e logo ameaça transformar o que era antes uma terra exposta ao sol, novamente em mata. Num metro quadrado contei mais ou menos 35 tipos diferentes de plantas. Se deixar, passado alguns meses o mato já tem o tamanho de meio metro de altura.
Quando voltei para dentro de casa, vi que as pernas da minha calça estavam repletas de sementes que haviam aderido ao tecido de forma tão forte que precisei usar a unha para tirar uma a uma. Todo mundo sabe que muitas plantas criam mecanismos de semeadura extremamente sofisticados e desenvolvem pêlos na superfície das sementes para que algum passante, seja gente ou animal, arraste essas para longe, garantindo a disseminação e a perpetuação da espécie. Um caso clássico de semente que se agarra nas calças e peles das pessoas são os popularmente conhecidos "carrapicho" e "picão".
Todo  a imensa diversidade de artimanhas que as plantas usam para, primeiro viabilizar a fecundação, o cruzamento entre machos e fêmeas, usando aves, animais, insetos e o vento.
Depois vem o encanto dos recursos para viabilizar a disseminação, espalhar seus óvulos que são as sementes, da mesma forma usando os animais, as aves, os insetos e o vento.
Desse caso eu quero tratar aqui.
Na verdade é uma viagem instigante observar os mecanismos que as plantas usam para se disseminarem. Nunca me canso de estudar esses detalhes da natureza, tanto na variedade de recursos como nas miríades de formas extremamente criativas de propagarem seus descendentes. Como as plantas não andam nem podem criar seus descendentes assim como fazem os animais, dependem dos outros para se reproduziram. Só as inumeráveis maneiras de desenvolver soluções aerodinâmicas, atrativas ou adesivas já encantam quem tem a paciência de observar não só as grandes paisagem mas também os pequenos, as vezes quase invisíveis, detalhes dos sistemas de reprodução das plantas. Outro dia peguei uma semente de cedro, uma pequenina vagem com pestanas quase transparentes. Esse tipo de asa  serve para que, quando ela cai lá do alta da copa, o vento a leva para longe. Essa usa o vento, outras usam o apetite das aves e dos animais, outras usam coberturas adesivas como aquelas  que descrevi no inicio. As que desenvolveram cobertura comestível, também criaram cores chamativas e um núcleo resistente ao processo de digestão de animais e aves. Dizem os botânicos que certas sementes só nascem depois de passar pelo ataque do ácido do trato digestivo dos mesmos. O cedro que citei, como se sabe torna-se imensa árvore de 20, 30 metros de altura, mas sua semente é muito pequena e pesa somente algumas gramas. Mas, naquela minúscula semente armazena todas as informações de que precisa para nascer, desenvolver e se reproduzir.  Podemos dizer, meio grosseiramente, que cada semente é um micro-chip, contendo os dados genéticos e a programação de reprodução da árvore mãe.
Outro detalhe curioso é a abundancia de sementes que são produzidos anualmente por uma árvore. É coisa assombrosa. Contei o cacho de uma palmeira juçara e havia 456 coquinhos. Quando os plantei 80 por cento deles nasceram. E essa palmeira solta até quatro cachos por ano. Para não correr riscos, a natureza prefere exagerar na reprodução de seus descendentes. Uma figueira brava, por exemplo, dá tanto fruto que é praticamente impossível contá-los.
Essa superabundância de frutos não só garante a perpetuação de cada planta como garante o alimento de miríades de pássaros, aves, animais e do próprio homem. O que seria da humanidade se não houvesse essa abundância de grãos, frutas, legumes e castanhas?

Naturalmente qualquer um de nós chega a conclusão de que a vida não só é interconectada em seu conjunto biológico, quanto interdependente em sua troca de favores e de  dependências.