sexta-feira, novembro 27, 2015

CICLOVIAS E OUTRAS CICLOAVENTURAS




O povo paulistano, neste ano de 2015, sempre fala, com ironia, que tem um prefeito que é louco por ciclovias. Mas não vou falar desse sujeito que acha que sabe o que é melhor para os outros. Isso é gente perigosa para a sociedade. Os paulistanos fariam bem em não dormir sossegado, tendo um alcaide desses.
Mas desejo falar da bicicleta em si ou das virtudes de se aventurar por trilhas com esse veículo de duas rodas. Não acho graça nenhuma praticar ciclismo na cidade. Parece não só perigoso como nada recomendável à saúde. Respirar o ar poluído por automóveis é sacrificar os pulmões.
A bicicleta serve para fazer trilha de uma maneira bastante agradável, pois não gera ruído e possibilita ao amante da natureza rápidos deslocamentos que não é possível a pé.
Sempre gostei de trilhar a mata com mochila nas costas, pedalando relaxadamente uma bicicleta de 18 marchas.
Fazia um programa dessa natureza nos arredores da grande São Paulo, em lugares com muita mata, pedras, montes e riachos. Mas há regiões perigosas, principalmente aquelas próximas a vilas formadas por invasões. São áreas habitadas por gente pobre, distantes do centro, que aproveitam terrenos abandonados, proprietários ausentes ou desconhecidos. Pode ser inclusive áreas com restrições legais de construção, mas que, por descuido ou negligência das autoridades, foram invadidas e povoadas de um dia  para o outro. Esses lugares isolados e distantes acabam sendo esconderijo de fugitivos da lei e desocupados de toda espécie. Embora muitos desses moradores sejam gentes honestas e trabalhadoras, a ausência de autoridade facilita a presença de indivíduos que, se cruzarem com você, enxergará apenas uma presa fácil para roubar sua bicicleta e sua mochila, talvez até seu tênis. Aconteceu isso como um amigo e não desejo compartilhar com ele essa experiência.  
A última vez que perambulei pelas trilhas foi numa área distante de estratos urbanos e pude cruzar com um casal de capivara deitado na sobra junto ao córrego. Com a minha aproximação, os dois animais levantaram e saltaram na água, nadando para uma curva uma dezena de metros adiante. Vi muitas aves e pássaros. Parei numa parte alta do terreno, alertado pelo ruído estranho na copa das árvores. Olhei e vi um bando de bugios, saltando de um galho ao outro. Uma fêmea carregava seu filho nas costas. O macho, mais corpulento e com uma juba meio marrom, parou e me encarou. Olhei-o em silencio, sem fazer nenhum movimento. Acredito que percebeu que eu não era uma ameaça, pois virou lentamente e subiu pelo tronco mais grosso da árvore, saltou para outra galhada e se afastou, seguindo as fêmeas.
Mais tarde vi um veadinho saltar de um descampado para o mato e fugir quebrando ramos e contornando as pedras do meio da mata.
Na volta presenciei mais um gracioso animal que é o esquilo. Ele estava no chão, catando coquinhos. Quando me viu correu para um tronco, subiu por ele até uma altura de três metros, parou e me encarou, soltando curtos gritos, uma espécie de latido agudo e rápido.
Devo ter viajado por uns 30 quilômetros meio em ziguezague, incluindo a volta. Não havia poluição, só o cheiro de flores e de ervas desconhecidas. Se tivesse caminhado a pé teria feito um terço desse percurso. Não fiquei cansado, pois pedalei com calma, mais interessado em ver os detalhes da floresta e da vida que habita ali.


quarta-feira, novembro 11, 2015

A NATUREZA NÃO SE PROTEGE POR DECRETO



A vida selvagem, principalmente animais de médio e grande porte está extremamente ameaçada pela urbanização, mais precisamente pela presença humana em toda parte. As regiões rurais são cortadas por estradas e divididas em blocos, chamados sítios e fazendas, que possuem casas, gados, porcos, galinhas e cães. Com exceção da maior parte da Amazônia, todas as terras do país são retalhadas e possuem donos. A simples presença disseminada de seres humanos por toda parte já é uma grave ameaça a vida selvagem. Mesmo que todos tivessem perdido o hábito de caça e deixassem os animais em paz, sua mera presença já seria um sério obstáculo a sua existência. Os defensores da fauna e da flora insistem em pedir leis severas, restrições de toda espécie e proibições infinitas,mas passam ao largo da questão principal que é a superpopulação do mundo. Podemos resumir a questão a uma só: tem gente demais nessa limitada espaçonave chamada planeta terra.

Cada individuo que nasce demanda comida e espaço, o que significa menos espaço e menos comida para animais que necessitam de algum território exclusivo para poder viver e se reproduzir. Criar parques e áreas protegidas é um débil paliativo. Combater o agronegócio é uma estupidez,  pois só a moderna agricultura é que pode matar a fome de mais de sete bilhões de  seres humanos. Os países ricos já pararam de crescer há um bom tempo, mas quase todas as nações pobres estão enfrentando uma explosão demográfica. Como encarar esse problema é uma questão que precisa estar ao lado do esforço para proteger leões e tartarugas. As soluções de controle de natalidade, tipo imposição governamental gerará tanto sofrimento e restrições da liberdade individual quanto levar tratamentos e  remédios para combater a mortalidade infantil e não levar um plano para discutir planejamento familiar. Vemos esse problema no Haiti, onde combateram com certa eficiência as doenças que matavam crianças, mas esqueceram de levar meios de modernizar a economia, não defenderam liberdade de negócios e empreendimento para aquele  povo. E, afinal, a queda do índice de mortalidade infantil só aumentou o número de pobres e miseráveis. O mundo precisa ficar rico para poder diminuir sua população. E só ficará rico quando houver liberdade econômica. Muitos desejam socializar a pobreza e assaltar  os países ricos para alimentar os povos que passam fome. Só conseguirão tornar todos pobres. Só protegeremos nossas matas, rios e animais quando já tivermos garantido nosso sustento e conforto. Assim, sobrará recursos econômicos para preservamos boa parte das florestas e de seus habitantes.

quinta-feira, outubro 15, 2015

O JARDIM DE DARWIN


Down House e a Origem das Espécies

De: Michael Boulter

 Considerando que já li muita coisa sobre Darwin, curtas biografias e outros escritos, ler este livro foi complementar e ampliou mais o meu conhecimento sobre ele.
Quero destacar que Darwin, ao contrário de muitos outros, jamais deixou de ser cientista e de limitar-se ao método científico, resistindo à tentação de estabelecer crenças ou hipóteses que pudessem posteriormente revelar-se equivocadas.
Comparo imediatamente a Marx ou mesmo a Freud, ambos pouco atentos aos limites que separam o conhecimento cientifico das teorias metafísicas. Freud, que inicialmente atinha-se à pesquisa séria e cautelosa, enveredou-se posteriormente pelo caminho das comparações da natureza humana com lendas antigas e tradições místicas.
Marx, dominado pela filosofia Hegeliana, confundia objetivismo dialético e jogos de palavras com objetivismo científico.

Darwin, da sua parte, manteve-se fiel a postura científica, e raramente desviou-se dela, permanecendo cauteloso e paciente, mesmo quando se sentia convicto de que suas idéias e conclusões estavam corretas.

terça-feira, setembro 29, 2015

DE ONDE VEM NOSSO ALMOÇO

Nunca cruzei com uma pessoa, na cidade, que tivesse interesse em saber como chegam a ele os produtos de seu almoço. A vida rural é que viabiliza a vida urbana, mas pouca gente se lembra disso. Um indivíduo que nasceu e vive numa metrópole raramente se detém para pensar como o feijão veio parar na sua panela ou como uma caixa de cenouras chegou à quitanda, de onde comprou. Um amigo contou-me que, ao visitar uma fazenda com seus dois filhos, esses faziam tantas perguntas sobre o que era o que viam que se sentiu o mais ignorante dos pais. O caçula do dono da fazenda teve que vir em seu socorro e pacientemente dedicou a tarde inteira a ciceronear as crianças pelos pastos, currais e lavouras. Os caipiras da cidade queriam saber, desde como o leito ia parar na caixinha de papelão, quanto porque o café era vermelho e não preto como aquele que estavam acostumados a tomar de manhã.   
O lavrador nunca foi exemplo de cultura e erudição, longe disso. A imagem que vem, espontaneamente, ao citadino é a do Jeca Tatu. Mas, embora a vida rural tenha representado, historicamente, o papel de reserva da ignorância e do analfabetismo, muita coisa mudou. Hoje, produzir alimentos para abastecer a cidade é um empreendimento como qualquer outro que se desenvolve numa grande cidade.

Mas o que desejo destacar é outra questão. Embora nosso país não tenha uma forte tradição de romantizar a vida junto à natureza, há, e de certa forma sempre houve, um pequeno contingente de pessoas que poetizam a vida da roça. Alguns com exagero, mas outros, sem fantasias irreais, defendem a escolha de viver num ambiente mais natural, sem poluição, sem ruídos desagradáveis e longe da correria das grandes metrópoles dos dias de hoje. Imagino que  é extremamente difícil encontrar alguém que não se emociona quando vê, no horizonte, entre os picos escuros das montanhas, um pôr de sol, com o céu pincelado de nuvens douradas e sem formas definidas sobre um fundo azul esmaecido. Nesse momento pode olhar ao redor e admirar as matas e os pastos salpicados de gado branco e pequenas torres de terra dos cupins operosos. É uma satisfação que não se consegue sentir na cidade e seu horizonte de arranha céus. 

sexta-feira, setembro 11, 2015

TEM AMIGO QUE É MAIS QUE AMIGO



Uma historinha contada por John Adams,lá no final do século XVIII, é muito reveladora e tocante. Vale lembra que Adams, um dos pais fundadores dos Estados Unidos da América, foi, depois, presidente daquele país.
 Disse ele: um amigo me contou que viu um mendigo na rua próximo a sua casa, sentado na calçada, acompanhado por um cão. O homem era muito magro e tinha sinais evidentes de que passava fome a maior parte do tempo. Seu cão também parecia não levar uma vida melhor, pois mostrava as costelas por baixo do pelo sem brilho e cheio de falhas. O amigo de Adams condoeu-se pelo pobre homem. Foi até a cozinha e pediu para a cozinheira prepara uma tigela de comida, com feijão, carne e biscoitos.

 Levou a vasilha para o mendigo  que estendeu a mão suja para receber o presente, agradecendo. O cão, sentindo o cheiro de boa comida, agitou o rabo e grunhiu. O homem separou os pedaços de carne e deu ao cão que comeu com desespero. O amigo de Adams vendo aquela cena, não se conteve e interpelou o mendigo, o aconselhado a se livrar do cão em vez de repartir a comida com o animal. Mas este retrucou: se eu não repartir a comida com ele, quem vai me amar? 

terça-feira, agosto 11, 2015

Pergunta impertinente: Afinal, a riqueza trás ou não a felicidade?



Gosto de chamar esse tipo de pergunta de pergunta de segunda ordem, ou seja, ela trás em seu bojo uma série de pré-conceitos que, se não forem analisados antes, não adianta responder a uma pergunta desse tipo, pois ela pode não ter sentido algum e responder sim ou não, pouco importa. Se você estiver fazendo uma pesquisa para ver o  que  pensam as pessoas vá lá, pode ser que faça algum sentido. De qualquer forma se noventa e nove por cento das pessoas pesquisadas responderem sim em vez de não, ou não em vez de sim, revela apenas opiniões e opiniões não são critérios de verdade. Quando se faz uma pergunta dessa, revela-se que as pessoas buscam felicidade fora de sim, em coisas, em outras pessoas, em consumismo, em festas, em viagens a lugares fúteis. Antes de tentar responder uma pergunta como essa, não faz mal nenhum perguntar se a felicidade está na diversão, na gastança, no luxo ou está na vida simples, na vida regrada, modesta mas suficiente. Pode-se também analisar a possibilidade de a felicidade ser encontrada na compreensão da vida, no autoconhecimento, na sabedoria de fazer escolhas que não tragam prejuízos físicos, psicológicos e financeiros. A maioria das pessoas passa suas vidas sem exercitar seus músculos mentais e usam o tempo consumindo as energias do corpo muito próximo da forma como vivem os animais. Vivemos rigorosamente do cultivo de uma espécie de pobreza de espírito, talvez acreditando que com isso conseguiremos acreditar que somos eternos, indestrutíveis e inteligentes o bastante para enganar a casualidade, a corrosão do tempo e a precariedade da vida. Mas, a todo o momento vemos gente surpreendida pela morte, pelo acidente furtivo, pela doença inesperada, pelas amargas conseqüências de escolhas feitas sem avaliações críticas. Muitos acordam tarde de mais para descobrir que viver não é uma eterna brincadeira e que a tragédia ou a boa sorte tem mais ou menos a mesma probabilidade de nos surpreender a qualquer momento. 

terça-feira, junho 30, 2015

ESQUILOS E FRUTOS

O alto do muro, coberto de mofo cinza, era uma espécie de estrada para os esquilos. Os dois desciam pelo tronco da árvore de cabeça para baixo e saltavam para o muro. Dali, corriam até a outra árvore, alcançavam o galho mais baixo e desciam ao pé da palmeira. O chão estava forrado de coquinhos amarelos. O primeiro esquilo pegou um coquinho, correu até um monte de pedra e ali começou a descascar o fruto. O outro subiu pelo tronco da palmeira até o cacho, olhou para baixo e, em vez de derrubar ou tentar colher os coquinho, voltou correndo para baixo, pulou no chão, catou um fruto e subiu novamente no trono. Um metro acima alcançou uma espécie de ninho de orquídeas e bromélias que cresciam agarradas à casca da palmeira, escorou as costas no trono e passou a roer o fruto, calmamente. Não havia sol e o céu, coberto pelas nuvens, parecia prestes a despejar água sobre a mata, ainda úmida da última chuva. O lombo do esquilo que roia o coquinho sobre as pedras estava molhado e uma pequena folha parecia colada abaixo de suas orelhas. Um pássaro pousou no galho da árvore próxima. O esquilo olhou para ele, piscou as pestanas e voltou a roer o fruto. O pássaro desceu ao chão, mas não estava interessado nos coquinhos. Bicou a terra em alguns lugares, achou uma lagarta nas folhas do ramo, pisou sobre os coquinhos e saiu saltitando em busca de uma borboleta que rodeava uma flor branca do jardim.
Eu, quieto, os observa, controlando até a respiração. Nada no mundo me faria interromper aquele momento em que, concentrados em roer seus coquinhos, sentiam-se sem nenhuma ameaça visível.  
Quantas dificuldades não enfrentariam em sua constante corrida à procura de comida!                        
Na floresta, não havia muitas outras palmeiras com coquinhos como aquela. Nem todas as árvores dão frutos comestíveis e as que frutificam não produzem em qualquer época. Deve haver períodos em que fica extremamente difícil encontrar alimentos e deve ser trabalhoso para eles evitar a fome.
Nós humanos damos muito valor a uma casa, aquele refúgio, da janela do qual observamos o mundo. Mas, onde seria a morada desses animaizinhos? Teriam uma toca no troco de um velho ingazeiro ou quem sabe uma caverna nas pedras da encosta da montanha? Teriam filhotes, que naquele momento estivessem dormindo em suas camas de musgos no fundo daquela abertura na rocha? E quantas horas do dia passariam correndo pelos troncos, galhos e penedos a procura de comida?
Imaginei que fossem um casal embora nem conseguisse ver diferença de tamanho ou de cor dos pêlos entre um e outro. Era possível que fossem eles um casal.


Seria um casal permanente ou na próxima estação sairiam cada um para seu lado, a procura de novas parcerias?

Depois de roer uma dúzia de coquinhos, o esquilo que estava sobre as pedras correu pelo chão, saltou no galho mais baixo da árvore e partiu, pulando de um tronco ao outro. Seu parceiro olhou por um momento em minha direção, lançou o coquinho para longe e correu atrás do outro esquilo. Rapidamente desapareceram na folhagem.

quinta-feira, maio 07, 2015

AS LEIS NÃO SÃO MÁGICAS

Eu vinha pela rua, atravessando na chamada faixa de pedestre, quando um carro apareceu bruscamente e, sem ligar a seta, dobrou à sua esquerda em minha direção. Eu já estava quase no meio da rua, e o motorista do carro tocou na buzina em advertência e passou rapidamente pelo espaço entre eu e a calçada, a trinta centímetros de mim. Instantaneamente subiu-me um ódio do motorista apressado e lembrei quase simultaneamente da lei de direitos do pedestre. Era uma raiva, inicialmente contra o tal motorista, mas depois foi se desviando para as leis de trânsito. Perguntei a mim mesmo como seria minha raiva se não houvesse nenhuma lei de trânsito?  Estaria eu menos protegido do que estive naquele momento, com todas essas leis e esses regulamentos de trânsito?. Afinal, para que serve a lei? Ou precisamente: essas leis tem alguma funcionalidade para me proteger, talvez por meio de  algum poder divino, de não ser atropelado?

O problema dessas leis, como muitas outras,  é que demandam um aparato policial, demandam vigilância, demandam um corpo de pessoal com a função, ou de forçar as pessoas a cumprir as leis, ou de castigar. Agora, quantas faixas de passagens existem em São Paulo, quantos cruzamentos em encontros de ruas e avenidas, sendo a cada momento utilizados pelos milhões de pedestres?
Para que leis, com a intenção de proteger os pedestres, fossem realmente eficientes, seria necessário  um policial em cada esquina, ou uma autoridade qualquer, com o poder de multar, prender ou pelo menos inibir esses atos. 

quinta-feira, abril 16, 2015

INTELIGÊNCIA OU SABEDORIA

Quero trabalhar a questão da diferença entre “inteligência e sabedoria” visto que nos tempos atuais a palavra sabedoria entrou em desuso e com isso a diferença entre ambas as expressões também se esvaneceu.  E isso é lamentável.
Inteligência é um componente da sabedoria, mas não é sabedoria. Sábio, como entendo, é todo aquele que antes de agir ou falar mede as conseqüência posteriores e tem inteligência suficiente para saber se essas conseqüências serão boas ou más. 
Inteligente é aquele que aprende rápido, domino conhecimentos úteis. Por exemplo, uma pessoa pode ter o domínio da matemática, da música ou da marcenaria, isso é ser inteligente nessas questões. Já sabedoria tem um sentido abrangente, não especifico. Portanto, sábio é todo aquele que tenda desvendar todas as relações de causa e efeito, entender a natureza humana e saber como agir sem negá-la. O sábio seria todo aquele que usa a inteligência para compreender, para ver, nas relações humanas diretas e, nas relações humanas com a natureza, os efeitos e conseqüências dos atos e escolhas tanto de si mesmo quanto dos seus semelhantes. O sábio não fica comprometido com ideologias ou religiões, pois tem uma consciência ampliada, vê o mundo em quatro dimensões, ou seja, percebe que as três dimensões estão inseridas numa quarta dimensão que é o tempo. Isso quer dizer que compreende que é um produto da história, que vive as conseqüências das escolhas de gerações passadas, que muita coisa do presente é efeito e não causa. Portanto seus recursos para mudar a realidade são limitados, quando não impotentes.  Como diria Sócrates, o filósofo grego do século V antes de Cristo: “Só sei que nada sei”. Ele conhecia suas limitações, por isso era um Sábio.

O antônimo de inteligente é inepto. O antônimo de sábio é néscio. Portanto inteligência é oposta pela inaptidão e a sabedoria é oposta pela necedade. 

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

VIZINHOS E ESTRANHOS


Eu morava na cidade, cercado de vizinhos com suas casas de muros altos e portões automáticos. O morador da casa ao lado saia cedo. Ouvia apenas o barulho do motor de seu automóvel e o latido do cão de guarda. O vizinho da frente saia toda manhã para caminhar e voltava meia hora depois, me desejava bom dia quando me via saindo, fechava o portão de grade e sumia no interior da casa. Num raio de uma centena de metros havia quase vinte casas bem construídas; a maioria assobradada e ampla. Apesar dessa proximidade, ninguém conhecia ninguém por nome. Cumprimentavam-se quando ocasionalmente cruzassem pela calçada ou quando um deles saia da garagem com seu carro e o outro do outro lado também manobrava o veículo para ir ao trabalho.
Vivíamos numa grande cidade mas não éramos uma comunidade. Ninguém saia de casa ao anoitecer para visitar o outro e prosear por algumas horas. Cada um cercava seu mundo com muros altos assim como levantavam paredes reforçadas em volta de suas habitações.
Certo dia, abri a janela e vi o vizinho da frente, aquele que gostava de fazer caminhadas nas primeiras horas da manhã. Estava abrindo seu portão, quando dois sujeitos estranhos se aproximaram. Um deles apontou uma arma para o homem e pediu a chave do carro. Os dois elementos pularam dentro do veículo e manobraram rapidamente para fora. O vizinho olhava paralisado. Antes de acelerar em disparada o assaltando passageiro esticou o braço com o revolver e atirou. O vizinho dobrou o corpo e caiu no chão. Corri ao telefone e disquei para a policia e para o pronto-socorro. Depois desci correndo e sai na rua. Já havia uma meia dúzia de pessoas, inclusive a esposa do vizinho que chorava agachada segurando a cabeça o homem, enquanto ele gemia com a mão no peito. Quando o pronto socorro chegou, a vizinhança estava toda na rua, em volta do ferido. Vi o vizinho do lado direito, o vizinho do lado esquerdo e os vizinhos do outro lado da rua. Estavam ali mais de vinte pessoas, todos preocupados, angustiados e inquietos.
Logo estávamos todos conversando e criticando a falta de segurança, a impunidade, a ineficiência da justiça e a imoralidade dos políticos. Todos nós falamos uns com os outros como se fossemos velhos amigos.
Enquanto o ferido convalescia no  hospital, todos nós, em horários diferentes, fomos visitá-lo e prestar nossa solidariedade. Agora sabíamos o nome de cada um de nossos vizinhos e por alguns dias fomos uma verdadeira comunidade. Um convidava o outro para visitá-lo e tomar um café, enquanto o morador da casa de muros altos  se oferecia para ajudar a família da vítima se precisasse.

Com os passar dos dias e com o retorno do vizinho do hospital a vida foi lentamente voltando a rotina e todos paramos de nos falar uns com os outros. Alguns meses depois vivíamos como dantes, próximos e isolados. Voltamos a ser uma cidade sem comunidade.

sexta-feira, janeiro 16, 2015

DEPOIS QUE TUDO PASSA, O QUE FICA?

Nosso corpo é finito, nasce da combinação de moléculas e termina com  a desagregação das mesmas moléculas. Antes de ser gerado nós não existíamos, depois de gerado, crescemos, ficamos adultos, envelhecemos e depois morremos, desmanchando toda aquela combinação extremamente complexa de átomos  e tudo o que sobre são moléculas primárias. Nossa pessoa deixa, então de existir, sobrando apenas alguns agregados de cal por mais algum tempo. Antes não existíamos, depois não existiremos mais. O que fica?
Ficam nossas obras. Podem perdurar as conseqüências de nossos atos e as marcas de nossa ação. Quando Leonardo da Vinci montou a tela no fundo do ateliê e começou a esboçar os traços que iam terminar numa das mais famosas pinturas de todos os tempos, pensava no futuro, na imortalidade daquela obra? Pintou ele a Mona Lisa com a intenção de tornar sua pintura uma arte para durar a eternidade?

Da mesma forma podemos imaginar Platão, depois de presenciar seu mestre beber o veneno de  sua sentença, sofrer a angustia de vê-lo apagar lentamente com apenas alguns gemidos, mas, ao mesmo tempo, desejando que todos os que estavam a sua volta continuassem a levar suas vidas da melhor maneira possível. Platão deve ter saído dalí  com a idéia de contar a história de seu mestre e, com isso, imortalizar tanto os atos de Sócrates quanto as suas próprias idéias e crenças. Quando decidiu escrever “A defesa de Sócrates” estaria imaginando que, com isso, deixaria para a posteridade uma obra imortal?

terça-feira, novembro 04, 2014

DUAS FORMAS DE EXPROPRIAÇÃO


Quais são as duas formas de tirar uma parte da renda de quem trabalha honestamente?
A primeira é através do assalto a mão armada. A segunda é através do Estado, por meio da cobrança de impostos. A diferença entre um e outro é que o assaltante não dá justificativa pelo que faz. Já o Estado diz que está tirando parte dos seus rendimentos para cuidar da sua saúde, da sua segurança e da sua educação. Se você reclama que não consegue tratar de sua doença com os impostos que paga, nem tem segurança, muito menos escola decente para colocar seus filhos, o agente do estado vai dizer que isso é problema do Estado e sua obrigação é de pagar corretamente os impostos e não ficar reclamando.

Se você for assaltado e disser ao bandido que não vai passar a carteira, leva um tiro e morre. Se você não pagar os impostos, fica sem suas propriedades e ainda vai preso. O bandido que o matar receberá proteção dos milhares de movimento pelos direitos humanos e, com um pouquinho de sorte, terá 95% de chance de jamais ser preso. Já, com o sistema informatizado do Estado, sua chance de não ser pego, processado e preso, é praticamente zero.

terça-feira, outubro 28, 2014

O PT E O PRI MEXICANO


Abel Aquino

Neste ano tivemos dois eventos que pararam todo o país: a copa do mundo e as eleições.Os dois momentos foram recheados de apelos ao patriotismo. Eu torci pela Seleção Brasileira sentindo impotente e, ao mesmo tempo, desempenhando o papel de otário. Na verdade, está cada vez mais difícil ser patriota nesse país. Aliás, ser  patriota sempre me pareceu uma postura idiota. Ter orgulho do lugar onde nasceu é como acreditar que se tivesse nascido na China não seria a mesma coisa. É uma crença estúpida. De qualquer forma, eu tinha razão nas minhas angustias, pois não foi fácil ver a goleada da Alemanha em cima da gloriosa seleção canarinho. Ser torcedor é como ter vontade de pegar um objeto e estar com as mãos amarradas nas costas;  você nunca pode fazer nada, a não ser gritar de alegria quando a seleção ganha ou chorar de tristeza quando perde. Isso é muita impotência para um ser humano só.
Agora falando da eleição, tive o mesmo sentimento de estar com as mãos amarradas por não  conseguir dar uma pitada sequer nos rumos da política. A Dilma e o Aécio, os dois finalistas, sendo ambos de esquerda, deixaram-nos a opção entre uma esquerda” lobo vestida com pelo de cordeiro” e uma esquerda, digamos, “civilizada”. Uma anêmica opção e deprimente, para piorar. Na verdade, senti que precisava escolher, não na idéia do mal menor, mas na de que com o Aécio era uma importante tentativa de tirar os lobos famintos que há doze anos corroem as instituições brasileiras. O desejo de ver uma nação mais livre do peso morto do Estado ficaria para o incerto futuro. O resultado foi muito curioso, dividiu o país entre os que não precisam de favores políticos e os que sem o bondoso Estado passam fome. Como a pobreza é útil!
Acredito que o PT tem a faca e o queijo na mão e pode ficar algumas boas décadas no poder. Imagino que  arriscas se transformar numa espécie de PRI mexicano, mantendo o poder e o país por varias décadas no atraso e na servidão. Nas próximas eleições, basta acusar o adversário de que tem a intenção de acabar com a Bolsa-Familia e, imediatamente, garantirá uns quarenta milhões de votos rumo a um novo mandato. O PT institucionalizou a compra de voto e em escala monumental, como nunca neste país.....

 Agora saia dessa, oposição!

sexta-feira, outubro 24, 2014

COMO! A PETROBRÁS É NOSSA? QUERO MINHA PARTE

Abel Aquino

Hoje, dialogando com um eleitor da Dilma ouvi, em alguns minutos, todos aqueles chavões da esquerda brasileira. Disse ele que a Petrobrás é do povo, é patrimônio da nação, que acredita que a Dilma não sabia de nada e que vai recuperar a empresa. Disse que só o PT preocupou com os pobres e que o PSDB é partido da elite. Para espantá-lo um pouco eu afirmei que admirava saber que ele se sentia dono da Petrobrás porque eu era incapaz de ver minha parte naquela empresa. Com que base ele afirmava que ela é do povo? Não soube Responder. Disse a ele que todas as acusações de que o PSDB é privatizante e que queria vender a Petrobrás me decepcionaram. Me decepcionaram porque sabia que não era verdade, pois tinha certeza de que o PSDB é tão ou quase tão estatizante quanto o PT. Por mim, acabaria com todas as estatais do pais, privatizaria tudo. Ele arregalou os olhos.
 Eu perguntei:  se a corrupção dominar a empresa em que você trabalha,o que acontece? Ela quebra, não é? Quebra e fecha. Agora quando um dirigente de uma estatal  desvia dinheiro até deixá-la a míngua, o que acontece? Ela quebra e fecha? Respondeu que não. Pois, então, continuei, toda e qualquer estatal corre, permanentemente, o risco de tornar-se instrumento de uso político. Desvirtuar a função de uma empresa por interesses particulares é fácil quando essa empresa está sob controle de governantes ávidos de poder ou que querem obter altos beneficio com o uso desse poder. O rapaz abaixou a cabeça e balançou os braços, visivelmente incomodado. Então considerei a conversa por encerrada, certo de que não tinha conseguido abalar suas convicções.
Eu sempre fico estarrecido quando encontro alguém que acredita que a Petrobrás é nossa, considerando esse “nossa” como todos os brasileiros. É uma crença tão sem base real quando a crença no Papai Noel, entanto persiste altaneira e sem arranhões ao longo de décadas, como verdade tão sólida quando a ingenuidade média do povo.
Juro que tentei, por meio de repetidos momentos de meditação e atos de renuncia, sentir-me parte da Petrobrás, talvez imaginar qual parte daquelas torres fumacentas, daquele enormes tanques cheirando betume, daquelas imensas plataformas balouçando no mar, mas fracassei.Não descobri nenhuma maneira de ver, apalpar ou reinvindicar a parte da empresa que me pertece como cidadão brasileiro, pagador de pesados e sufocantes impostos.

Há muito tempo desisti de acreditar, se é que alguma vez acreditei, que tenho alguma parcela, por menor que seja, da Petrobras. Para mim sinto-me que ela é tão parte de mim quanto um iceberg que se desprende da calota polar no verão.  Sou tão obtuso que não consigo perceber qual seria a diferença de abastecer meu carro com gasolina feita por uma empresa brasileira ou por qualquer outra. Sei que não há dificuldade nenhuma em perceber que me interessa a qualidade desse combustível, em primeiro lugar e, em segundo, o quanto pago por ele quando vou abastecer o carro.  Qualquer pessoa com um mínimo de cultura econômica sabe que o preço que pago é determinado por duas condições, que os economistas chamam de variáveis, ou seja, quanto se produz e quanto se compra. É a mecânica da oferta e da procura. Se tem mais gasolina pra vender e menos gente pra comprar o preço tende para baixo, se há menos gasolina e mais consumidores, o preço tende para cima. Outra coisa, a oferta depende de quantos a oferecem; se só um produz e vende, ele pode manipular o preço e sacrificar a demanda. Se só alguns produzem e vendem, esses podem estabelecer um conluio, controlar a oferta e, com isso, distorcer os preços a seu favor. Já quando muitos produzem e muitos  vendem, o consumidor passa a ser privilegiado, tem até certo ponto, poder de ditar os preços. Todas essas situações podem acontecer independentemente de serem os produtores nacionais ou estrangeiros. Dizer que é um bem incalculável poder se vangloriar de ter uma gigante petroleira, puramente nacional, e que nos abastece carinhosamente com bom e barato combustível, é contar piada de mal gosto. Por muitas razões isso é um engodo. Nossa gasolina não é a mais barata do mundo e muito menos a melhor. Pelo contrario, os carros importados precisam de custosas adaptações para funcionar com esse nosso combustível de quinta categoria.  24/10/2014

quinta-feira, maio 29, 2014

SERENIDADE



 Quem procura diversão, busca esquecer?
Talvez queira excitar o corpo e a mente
Ou cansar as pernas e distender os músculos.
Mas também há diversão em sentar
 - Despreocupado -num tronco caído e soprar a gaita.

Posso até tirar prazer do barulho da chuva
Ou ouvir o gorgulhar do riacho lavando as pedras,
Quem sabe cortando lenha, varrendo o quintal.
Viver é mais do que fazer festas, encontrar amigos,
Rir do mundo e contar o tempo
Como aquele que tem pressa do amanhã
E esquece que a vida é curta depois que passa.

Gasto o dia colhendo tomates e limpando o terreno,
Ao mesmo tempo que os pássaros ligeiros
Reviram a terra e bicam insetos.

Posso não fazer nada em qualquer dia,
Ter a liberdade de observar e escutar
Admirar as formas de árvores centenárias,
Folhas rodopiando em direção do solo

E exclamar: pra que ter pressa!

sábado, dezembro 21, 2013

CULTURA E LAZER, LITERALMENTE




Abel Aquino

Na chácara, passamos um mês comendo tomate, do pequeno, cujo pé havia nascido por acaso. Deixei que crescesse. Quando ficou da altura do meu peito, estava caído para os lados. Então cortei três varas, fiz uma escora e a  armei sobre o tomateiro. Amarrei seus delicados troncos nessas madeiras. Em pouco tempo, ficou carregado de tomatinhos. Eles eram comidos em forma de salada. Eu os cortava em duas partes, colocava numa bandeja, acrescentava azeite, shoyo, cebola fatiada e limão. Era um prato especial.
Aproveito a deixa para dizer que, embora nosso terreno seja diminuto, apenas 1.550m2, sendo que 400m2 é ocupado pela construção da casa, mesmo assim plantamos e colhemos uma enorme variedade de legumes. Temos, então,  todo ano,  abóboras, pimentas, cebolinhas verdes, pimentões, jilós e até bananas.  
Fico admirado como a natureza é pródiga e só uma pessoa muito sem ânimo ou descuidada é capaz de passar fome sobre seu pedaço de terra. Conheci, em Goiás, gente passando necessidades mesmo vivendo em vários hectares de terra. Suas moradias estavam cercadas de mato e a lavoura definhava sob as chamadas ervas daninhas. Criavam galinhas e porcos, muitas vezes soltos pelo terreno. As galinhas circulavam por dentro das suas residências, defecando na sala e na cozinha, deixando no ar um cheiro de enxofre desagradável.  Conheci um sitiante que construíra os ninhos de suas aves na sala. Perguntei do porque deixava as galinhas chocarem seus ovos na sala: disse-me, com simplicidade, que era para os bichos não as comerem. No interior da residência a ninhada estava protegida. Era muito raro ver hortas. Quando muito, formavam pequenos canteiros de cebolinhas e pés de plantas aromáticas ou medicinais.
Acredito que esses comportamentos parecem ser uma espécie de regressão à vida mais primitiva. São “brancos” que perderam os costumes mais urbanizados e contemporâneos. De qualquer forma, isso revela o quanto é frágil a evolução cultural do ser humano. Qualquer descuido e volta ele à época das cavernas, pelos menos em termos de costumes. 
Mas, voltando a falar da nossa diminuta chácara, não posso esquecer que interagíamos com a natureza.Usávamos nossas temporárias estadias como momentos de relaxamento e reflexões. Quando tive que regularizar o terreno, fui obrigado a derrubar uma meia dúzia de arvores, ato pelo qual fui multado pela Polícia Florestal. De qualquer forma, a casa ficou ilhada no meio da mata, com frondosas árvores cercando os quatros lados do terreiro.
Com essa proximidade, somos, com freqüência, visitados por bugios, macacos pregos, e até sagüis barulhentos. Nossos mais assíduos vizinhos são as sabiás, as corruíras, os bem-te-vis e os Joãos-de-barro. Vários outros pássaros freqüentam nossa redondeza,  mas ainda não foram identificados. As  beija flores fazem ninhos na lateral do telhado e os tucanos comem coquinhos do Jerivá carregado, grasnando de forma desagradável.

Os fins de semanas que passamos nessa chácara são a melhor forma de recarregar as baterias e dar descanso ao corpo, depois de uma semana agitada na maior cidade da América do sul. Sem contar que, nesses dias podemos comer melhor, elaborando nosso próprio e variado cardápio, gozando de forma saudável dos prazeres de alimentar-se bem, dormir até mais tarde e de relaxar a vida, ouvindo o canto dos pássaros e o barulho do vento nas folhas das árvores.

terça-feira, agosto 06, 2013

CÍRCULOS CIRCULARES


Curvo o tempo como dobro folhas,
Salto o vazio como salto trampolim
E corto as amarras enquanto vivo,
Pisando preceitos enquanto fujo.

Do outro lado há muitos espelhos
E desde, ficam todas as formas e sombras.
Por mais que eu reforme e modifique,
Tudo precisa ser ainda refeito.

Alguns acreditam na sorte furtiva,
Outros, nos rudes calos da mão.
Aqueles esperam o giro da roda
E estes, os frutos quase maduros.

Por fim me dobro exausto e frio.
O peso do atrito dos gonzos
Vai esmagando meu peito anêmico

Entanto sei que é apenas o recomeço.

quarta-feira, julho 24, 2013

UM CORPO NO RIO

Todo mundo tinha medo da correnteza naquele ponto do rio. As margens ficavam estreitas e as pedras negras e sempre molhadas da margem empurravam a água turva para o meio, onde rodopiava, encrespada, e descia velozmente por mais de cem braças até encontrar o remanço.
Marcilio parou sua montaria junto ao barranco e ficou, por alguns minutos, observando a corredeira. De vez em quando os raios do sol da manhã brilhavam na barriga prateada de peixes que desciam saltitando por entre as pedras.
De repente viu o corpo de uma pessoa rodando pela correnteza, de bruço, com a roupa rasgada, os braços abertos e balouçando nos movimentos da água. Por um momento Marcilio acompanhou o corpo, fustigando o cavalo e percorrendo a margem do rio, mas logo adiante o mato impedia a passagem e teve que afastar. Contornou o mato e, metros à frente, voltou a se aproximar da margem. Perscrutou a água mais não viu mais o corpo.
Resolveu voltar para casa. Depois de espalhar a noticia, os vizinhos curiosos desceram correndo em direção do rio para ajudar Marcilio a procurar o corpo. Ficaram a tarde toda percorrendo as margens acidentadas, mas não encontraram nada. Marcilio ia a frente com o facão na mão, abrindo caminho no capim alto do brejo.
Depois de duas horas de procura começaram a duvidar da história.
Marcilio, você deve Ter visto coisa demais, disse Fúlvio duvidando.
Não sou maluco, sô, respondeu Marcilio. – Vi muito bem; era um defunto boiando na água, sim!
Mas então deveria estar parada nesse remanço agumentou Crispim.
Era um defunto,sim, repetiu Marcilio já impaciente.
Eu não vou procurar mais não, concluiu Fúlvio. – Daqui um pouco escurece e a gente não pode ficar aqui para ser picado por cobra nesse matagal besta.
A gente pode não achar o corpo, justificou Marcilio. – mas que eu vi, eu vi.
Voltaram para suas casas, conversando, uns achando que o rapaz estava maluco, outros dizendo que poderia até ser verdade, mas faltava o corpo para tirar toda dúvida. Marcilio ficou alguns passos para trás, resmungando. Sabia que aquilo iria virar motivo de chacota mas estava confuso. Olhou para trás ouviu o barrulho da correnteza e pensou: será que eu me enganei?

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

LONGE DA LUZ



Há momentos em que vejo o avesso,
As coisas de cabeça para baixo,
Os seres humanos sem suas carapaças e
as sabiás fora das gaiolas.

Alguém me avisa que o tempo passou,
que as chuvas seguiram para o norte e,
enquanto olho pegadas na lama,
o sol sobe pela montanha molhada.

O mundo mudou ou foi o rio que fluiu?
A tarde caminha com as nuvens,
mesmo quando não tenho pressa
e meu trabalho dobra a última folha.

Mas vejo o outro lado da parede.
sabe, quando querem ocultar,
quando lançam palavras suaves
Desviam nosso olhar do óbvio?

Sinto que fui outra vez ludibriado
assim como quem percebe tarde
que existe o subterrâneo oculto
e outro mundo respira sem luz.





quarta-feira, janeiro 02, 2013

Engaiolado junto aos Pássaros

Costumo dizer que adoro ouvir o canto dos pássaros, mas, diferentemente daquelas pessoas que engaiolam essas aves canoras em volta da casa, eu construí minha gaiola no meio deles e, assim, cercado de mata, posso sentar no banco da minha varanda e ouvi-los gorjear pelo terreiro, no alto das árvores ou pousados nas rochas cobertas de liquens. Os bugios costumam vir até às árvores frutíferas que tenho junto ao muro e comem os frutos da nespereira despreocupadamente. Quando aproximam, o macho maior fica no alto do galho mais elevado, observando, enquanto o restante do bando desce aos galhos carregados de bagos amarelos. Depois que constata que somos amigos e não demonstramos intenções agressivas, ele sai de seu posto de guarda e vai comer com os outros. Além dos bugios recebo as visitas de sagüis e macacos- prego. Eles usam as árvores como estradas e todos passam pelos mesmos galhos e saltam de um trono a outro no ponto mais fácil e aparentemente já conhecido, pois raramente mudam de rota. Os bugios são mais barulhentos, embora os sagüis pratiquem uma linguagem estranha de chiados que lembram assobios agudos. Percebo, de vez em quando, a presença de um lagarto, um teiú enorme; deve ter um metro de comprimento e quando aproximo saí em correria, quebrando galhos secos e pulando por sobre pedras e troncos com agilidade. Temos o costume de misturar o lixo orgânico com terra fazendo um monte de futuro adubo para as plantas e para a horta, uma compostagem. A noite tínhamos a visita de um gambá que aparecia para revirar o monte a procura de restos de comida. Ele caminhava pelo muro e descia pelo galho da pitangueira. Outro dia encontrei-o morto junto a cerca. Examinei seu corpo, mas não vi marcas de ferimento ou outro indicativo da causa da morte. Seu pêlo estava vívido e denso, indicado que gozava de boa saúde. De qualquer forma não descobri a causa de sua morte. Enterrei-o perto do pé de juçara. Num domingo chuvoso vimos uma preguiça tentando atravessar a estrada. Alguns carros pararam e os motoristas saíram para tentar retirá-la do meio do caminho. Fui até lá e pedi para que deixassem eu levá-la para a mata no fundo da minha casa. Dalí o bicho foi lentamente subindo na árvore e, em pouco tempo desapareceu na mata. Tive a impressão de que, embora movimente-se lentamente, é capaz de ir de galho em galho o mais rápido do que se imagina.