terça-feira, setembro 29, 2015

DE ONDE VEM NOSSO ALMOÇO

Nunca cruzei com uma pessoa, na cidade, que tivesse interesse em saber como chegam a ele os produtos de seu almoço. A vida rural é que viabiliza a vida urbana, mas pouca gente se lembra disso. Um indivíduo que nasceu e vive numa metrópole raramente se detém para pensar como o feijão veio parar na sua panela ou como uma caixa de cenouras chegou à quitanda, de onde comprou. Um amigo contou-me que, ao visitar uma fazenda com seus dois filhos, esses faziam tantas perguntas sobre o que era o que viam que se sentiu o mais ignorante dos pais. O caçula do dono da fazenda teve que vir em seu socorro e pacientemente dedicou a tarde inteira a ciceronear as crianças pelos pastos, currais e lavouras. Os caipiras da cidade queriam saber, desde como o leito ia parar na caixinha de papelão, quanto porque o café era vermelho e não preto como aquele que estavam acostumados a tomar de manhã.   
O lavrador nunca foi exemplo de cultura e erudição, longe disso. A imagem que vem, espontaneamente, ao citadino é a do Jeca Tatu. Mas, embora a vida rural tenha representado, historicamente, o papel de reserva da ignorância e do analfabetismo, muita coisa mudou. Hoje, produzir alimentos para abastecer a cidade é um empreendimento como qualquer outro que se desenvolve numa grande cidade.

Mas o que desejo destacar é outra questão. Embora nosso país não tenha uma forte tradição de romantizar a vida junto à natureza, há, e de certa forma sempre houve, um pequeno contingente de pessoas que poetizam a vida da roça. Alguns com exagero, mas outros, sem fantasias irreais, defendem a escolha de viver num ambiente mais natural, sem poluição, sem ruídos desagradáveis e longe da correria das grandes metrópoles dos dias de hoje. Imagino que  é extremamente difícil encontrar alguém que não se emociona quando vê, no horizonte, entre os picos escuros das montanhas, um pôr de sol, com o céu pincelado de nuvens douradas e sem formas definidas sobre um fundo azul esmaecido. Nesse momento pode olhar ao redor e admirar as matas e os pastos salpicados de gado branco e pequenas torres de terra dos cupins operosos. É uma satisfação que não se consegue sentir na cidade e seu horizonte de arranha céus. 

sexta-feira, setembro 11, 2015

TEM AMIGO QUE É MAIS QUE AMIGO



Uma historinha contada por John Adams,lá no final do século XVIII, é muito reveladora e tocante. Vale lembra que Adams, um dos pais fundadores dos Estados Unidos da América, foi, depois, presidente daquele país.
 Disse ele: um amigo me contou que viu um mendigo na rua próximo a sua casa, sentado na calçada, acompanhado por um cão. O homem era muito magro e tinha sinais evidentes de que passava fome a maior parte do tempo. Seu cão também parecia não levar uma vida melhor, pois mostrava as costelas por baixo do pelo sem brilho e cheio de falhas. O amigo de Adams condoeu-se pelo pobre homem. Foi até a cozinha e pediu para a cozinheira prepara uma tigela de comida, com feijão, carne e biscoitos.

 Levou a vasilha para o mendigo  que estendeu a mão suja para receber o presente, agradecendo. O cão, sentindo o cheiro de boa comida, agitou o rabo e grunhiu. O homem separou os pedaços de carne e deu ao cão que comeu com desespero. O amigo de Adams vendo aquela cena, não se conteve e interpelou o mendigo, o aconselhado a se livrar do cão em vez de repartir a comida com o animal. Mas este retrucou: se eu não repartir a comida com ele, quem vai me amar? 

terça-feira, agosto 11, 2015

Pergunta impertinente: Afinal, a riqueza trás ou não a felicidade?



Gosto de chamar esse tipo de pergunta de pergunta de segunda ordem, ou seja, ela trás em seu bojo uma série de pré-conceitos que, se não forem analisados antes, não adianta responder a uma pergunta desse tipo, pois ela pode não ter sentido algum e responder sim ou não, pouco importa. Se você estiver fazendo uma pesquisa para ver o  que  pensam as pessoas vá lá, pode ser que faça algum sentido. De qualquer forma se noventa e nove por cento das pessoas pesquisadas responderem sim em vez de não, ou não em vez de sim, revela apenas opiniões e opiniões não são critérios de verdade. Quando se faz uma pergunta dessa, revela-se que as pessoas buscam felicidade fora de sim, em coisas, em outras pessoas, em consumismo, em festas, em viagens a lugares fúteis. Antes de tentar responder uma pergunta como essa, não faz mal nenhum perguntar se a felicidade está na diversão, na gastança, no luxo ou está na vida simples, na vida regrada, modesta mas suficiente. Pode-se também analisar a possibilidade de a felicidade ser encontrada na compreensão da vida, no autoconhecimento, na sabedoria de fazer escolhas que não tragam prejuízos físicos, psicológicos e financeiros. A maioria das pessoas passa suas vidas sem exercitar seus músculos mentais e usam o tempo consumindo as energias do corpo muito próximo da forma como vivem os animais. Vivemos rigorosamente do cultivo de uma espécie de pobreza de espírito, talvez acreditando que com isso conseguiremos acreditar que somos eternos, indestrutíveis e inteligentes o bastante para enganar a casualidade, a corrosão do tempo e a precariedade da vida. Mas, a todo o momento vemos gente surpreendida pela morte, pelo acidente furtivo, pela doença inesperada, pelas amargas conseqüências de escolhas feitas sem avaliações críticas. Muitos acordam tarde de mais para descobrir que viver não é uma eterna brincadeira e que a tragédia ou a boa sorte tem mais ou menos a mesma probabilidade de nos surpreender a qualquer momento. 

terça-feira, junho 30, 2015

ESQUILOS E FRUTOS

O alto do muro, coberto de mofo cinza, era uma espécie de estrada para os esquilos. Os dois desciam pelo tronco da árvore de cabeça para baixo e saltavam para o muro. Dali, corriam até a outra árvore, alcançavam o galho mais baixo e desciam ao pé da palmeira. O chão estava forrado de coquinhos amarelos. O primeiro esquilo pegou um coquinho, correu até um monte de pedra e ali começou a descascar o fruto. O outro subiu pelo tronco da palmeira até o cacho, olhou para baixo e, em vez de derrubar ou tentar colher os coquinho, voltou correndo para baixo, pulou no chão, catou um fruto e subiu novamente no trono. Um metro acima alcançou uma espécie de ninho de orquídeas e bromélias que cresciam agarradas à casca da palmeira, escorou as costas no trono e passou a roer o fruto, calmamente. Não havia sol e o céu, coberto pelas nuvens, parecia prestes a despejar água sobre a mata, ainda úmida da última chuva. O lombo do esquilo que roia o coquinho sobre as pedras estava molhado e uma pequena folha parecia colada abaixo de suas orelhas. Um pássaro pousou no galho da árvore próxima. O esquilo olhou para ele, piscou as pestanas e voltou a roer o fruto. O pássaro desceu ao chão, mas não estava interessado nos coquinhos. Bicou a terra em alguns lugares, achou uma lagarta nas folhas do ramo, pisou sobre os coquinhos e saiu saltitando em busca de uma borboleta que rodeava uma flor branca do jardim.
Eu, quieto, os observa, controlando até a respiração. Nada no mundo me faria interromper aquele momento em que, concentrados em roer seus coquinhos, sentiam-se sem nenhuma ameaça visível.  
Quantas dificuldades não enfrentariam em sua constante corrida à procura de comida!                        
Na floresta, não havia muitas outras palmeiras com coquinhos como aquela. Nem todas as árvores dão frutos comestíveis e as que frutificam não produzem em qualquer época. Deve haver períodos em que fica extremamente difícil encontrar alimentos e deve ser trabalhoso para eles evitar a fome.
Nós humanos damos muito valor a uma casa, aquele refúgio, da janela do qual observamos o mundo. Mas, onde seria a morada desses animaizinhos? Teriam uma toca no troco de um velho ingazeiro ou quem sabe uma caverna nas pedras da encosta da montanha? Teriam filhotes, que naquele momento estivessem dormindo em suas camas de musgos no fundo daquela abertura na rocha? E quantas horas do dia passariam correndo pelos troncos, galhos e penedos a procura de comida?
Imaginei que fossem um casal embora nem conseguisse ver diferença de tamanho ou de cor dos pêlos entre um e outro. Era possível que fossem eles um casal.


Seria um casal permanente ou na próxima estação sairiam cada um para seu lado, a procura de novas parcerias?

Depois de roer uma dúzia de coquinhos, o esquilo que estava sobre as pedras correu pelo chão, saltou no galho mais baixo da árvore e partiu, pulando de um tronco ao outro. Seu parceiro olhou por um momento em minha direção, lançou o coquinho para longe e correu atrás do outro esquilo. Rapidamente desapareceram na folhagem.

quinta-feira, maio 07, 2015

AS LEIS NÃO SÃO MÁGICAS

Eu vinha pela rua, atravessando na chamada faixa de pedestre, quando um carro apareceu bruscamente e, sem ligar a seta, dobrou à sua esquerda em minha direção. Eu já estava quase no meio da rua, e o motorista do carro tocou na buzina em advertência e passou rapidamente pelo espaço entre eu e a calçada, a trinta centímetros de mim. Instantaneamente subiu-me um ódio do motorista apressado e lembrei quase simultaneamente da lei de direitos do pedestre. Era uma raiva, inicialmente contra o tal motorista, mas depois foi se desviando para as leis de trânsito. Perguntei a mim mesmo como seria minha raiva se não houvesse nenhuma lei de trânsito?  Estaria eu menos protegido do que estive naquele momento, com todas essas leis e esses regulamentos de trânsito?. Afinal, para que serve a lei? Ou precisamente: essas leis tem alguma funcionalidade para me proteger, talvez por meio de  algum poder divino, de não ser atropelado?

O problema dessas leis, como muitas outras,  é que demandam um aparato policial, demandam vigilância, demandam um corpo de pessoal com a função, ou de forçar as pessoas a cumprir as leis, ou de castigar. Agora, quantas faixas de passagens existem em São Paulo, quantos cruzamentos em encontros de ruas e avenidas, sendo a cada momento utilizados pelos milhões de pedestres?
Para que leis, com a intenção de proteger os pedestres, fossem realmente eficientes, seria necessário  um policial em cada esquina, ou uma autoridade qualquer, com o poder de multar, prender ou pelo menos inibir esses atos. 

quinta-feira, abril 16, 2015

INTELIGÊNCIA OU SABEDORIA

Quero trabalhar a questão da diferença entre “inteligência e sabedoria” visto que nos tempos atuais a palavra sabedoria entrou em desuso e com isso a diferença entre ambas as expressões também se esvaneceu.  E isso é lamentável.
Inteligência é um componente da sabedoria, mas não é sabedoria. Sábio, como entendo, é todo aquele que antes de agir ou falar mede as conseqüência posteriores e tem inteligência suficiente para saber se essas conseqüências serão boas ou más. 
Inteligente é aquele que aprende rápido, domino conhecimentos úteis. Por exemplo, uma pessoa pode ter o domínio da matemática, da música ou da marcenaria, isso é ser inteligente nessas questões. Já sabedoria tem um sentido abrangente, não especifico. Portanto, sábio é todo aquele que tenda desvendar todas as relações de causa e efeito, entender a natureza humana e saber como agir sem negá-la. O sábio seria todo aquele que usa a inteligência para compreender, para ver, nas relações humanas diretas e, nas relações humanas com a natureza, os efeitos e conseqüências dos atos e escolhas tanto de si mesmo quanto dos seus semelhantes. O sábio não fica comprometido com ideologias ou religiões, pois tem uma consciência ampliada, vê o mundo em quatro dimensões, ou seja, percebe que as três dimensões estão inseridas numa quarta dimensão que é o tempo. Isso quer dizer que compreende que é um produto da história, que vive as conseqüências das escolhas de gerações passadas, que muita coisa do presente é efeito e não causa. Portanto seus recursos para mudar a realidade são limitados, quando não impotentes.  Como diria Sócrates, o filósofo grego do século V antes de Cristo: “Só sei que nada sei”. Ele conhecia suas limitações, por isso era um Sábio.

O antônimo de inteligente é inepto. O antônimo de sábio é néscio. Portanto inteligência é oposta pela inaptidão e a sabedoria é oposta pela necedade. 

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

VIZINHOS E ESTRANHOS


Eu morava na cidade, cercado de vizinhos com suas casas de muros altos e portões automáticos. O morador da casa ao lado saia cedo. Ouvia apenas o barulho do motor de seu automóvel e o latido do cão de guarda. O vizinho da frente saia toda manhã para caminhar e voltava meia hora depois, me desejava bom dia quando me via saindo, fechava o portão de grade e sumia no interior da casa. Num raio de uma centena de metros havia quase vinte casas bem construídas; a maioria assobradada e ampla. Apesar dessa proximidade, ninguém conhecia ninguém por nome. Cumprimentavam-se quando ocasionalmente cruzassem pela calçada ou quando um deles saia da garagem com seu carro e o outro do outro lado também manobrava o veículo para ir ao trabalho.
Vivíamos numa grande cidade mas não éramos uma comunidade. Ninguém saia de casa ao anoitecer para visitar o outro e prosear por algumas horas. Cada um cercava seu mundo com muros altos assim como levantavam paredes reforçadas em volta de suas habitações.
Certo dia, abri a janela e vi o vizinho da frente, aquele que gostava de fazer caminhadas nas primeiras horas da manhã. Estava abrindo seu portão, quando dois sujeitos estranhos se aproximaram. Um deles apontou uma arma para o homem e pediu a chave do carro. Os dois elementos pularam dentro do veículo e manobraram rapidamente para fora. O vizinho olhava paralisado. Antes de acelerar em disparada o assaltando passageiro esticou o braço com o revolver e atirou. O vizinho dobrou o corpo e caiu no chão. Corri ao telefone e disquei para a policia e para o pronto-socorro. Depois desci correndo e sai na rua. Já havia uma meia dúzia de pessoas, inclusive a esposa do vizinho que chorava agachada segurando a cabeça o homem, enquanto ele gemia com a mão no peito. Quando o pronto socorro chegou, a vizinhança estava toda na rua, em volta do ferido. Vi o vizinho do lado direito, o vizinho do lado esquerdo e os vizinhos do outro lado da rua. Estavam ali mais de vinte pessoas, todos preocupados, angustiados e inquietos.
Logo estávamos todos conversando e criticando a falta de segurança, a impunidade, a ineficiência da justiça e a imoralidade dos políticos. Todos nós falamos uns com os outros como se fossemos velhos amigos.
Enquanto o ferido convalescia no  hospital, todos nós, em horários diferentes, fomos visitá-lo e prestar nossa solidariedade. Agora sabíamos o nome de cada um de nossos vizinhos e por alguns dias fomos uma verdadeira comunidade. Um convidava o outro para visitá-lo e tomar um café, enquanto o morador da casa de muros altos  se oferecia para ajudar a família da vítima se precisasse.

Com os passar dos dias e com o retorno do vizinho do hospital a vida foi lentamente voltando a rotina e todos paramos de nos falar uns com os outros. Alguns meses depois vivíamos como dantes, próximos e isolados. Voltamos a ser uma cidade sem comunidade.

sexta-feira, janeiro 16, 2015

DEPOIS QUE TUDO PASSA, O QUE FICA?

Nosso corpo é finito, nasce da combinação de moléculas e termina com  a desagregação das mesmas moléculas. Antes de ser gerado nós não existíamos, depois de gerado, crescemos, ficamos adultos, envelhecemos e depois morremos, desmanchando toda aquela combinação extremamente complexa de átomos  e tudo o que sobre são moléculas primárias. Nossa pessoa deixa, então de existir, sobrando apenas alguns agregados de cal por mais algum tempo. Antes não existíamos, depois não existiremos mais. O que fica?
Ficam nossas obras. Podem perdurar as conseqüências de nossos atos e as marcas de nossa ação. Quando Leonardo da Vinci montou a tela no fundo do ateliê e começou a esboçar os traços que iam terminar numa das mais famosas pinturas de todos os tempos, pensava no futuro, na imortalidade daquela obra? Pintou ele a Mona Lisa com a intenção de tornar sua pintura uma arte para durar a eternidade?

Da mesma forma podemos imaginar Platão, depois de presenciar seu mestre beber o veneno de  sua sentença, sofrer a angustia de vê-lo apagar lentamente com apenas alguns gemidos, mas, ao mesmo tempo, desejando que todos os que estavam a sua volta continuassem a levar suas vidas da melhor maneira possível. Platão deve ter saído dalí  com a idéia de contar a história de seu mestre e, com isso, imortalizar tanto os atos de Sócrates quanto as suas próprias idéias e crenças. Quando decidiu escrever “A defesa de Sócrates” estaria imaginando que, com isso, deixaria para a posteridade uma obra imortal?

terça-feira, novembro 04, 2014

DUAS FORMAS DE EXPROPRIAÇÃO


Quais são as duas formas de tirar uma parte da renda de quem trabalha honestamente?
A primeira é através do assalto a mão armada. A segunda é através do Estado, por meio da cobrança de impostos. A diferença entre um e outro é que o assaltante não dá justificativa pelo que faz. Já o Estado diz que está tirando parte dos seus rendimentos para cuidar da sua saúde, da sua segurança e da sua educação. Se você reclama que não consegue tratar de sua doença com os impostos que paga, nem tem segurança, muito menos escola decente para colocar seus filhos, o agente do estado vai dizer que isso é problema do Estado e sua obrigação é de pagar corretamente os impostos e não ficar reclamando.

Se você for assaltado e disser ao bandido que não vai passar a carteira, leva um tiro e morre. Se você não pagar os impostos, fica sem suas propriedades e ainda vai preso. O bandido que o matar receberá proteção dos milhares de movimento pelos direitos humanos e, com um pouquinho de sorte, terá 95% de chance de jamais ser preso. Já, com o sistema informatizado do Estado, sua chance de não ser pego, processado e preso, é praticamente zero.

terça-feira, outubro 28, 2014

O PT E O PRI MEXICANO


Abel Aquino

Neste ano tivemos dois eventos que pararam todo o país: a copa do mundo e as eleições.Os dois momentos foram recheados de apelos ao patriotismo. Eu torci pela Seleção Brasileira sentindo impotente e, ao mesmo tempo, desempenhando o papel de otário. Na verdade, está cada vez mais difícil ser patriota nesse país. Aliás, ser  patriota sempre me pareceu uma postura idiota. Ter orgulho do lugar onde nasceu é como acreditar que se tivesse nascido na China não seria a mesma coisa. É uma crença estúpida. De qualquer forma, eu tinha razão nas minhas angustias, pois não foi fácil ver a goleada da Alemanha em cima da gloriosa seleção canarinho. Ser torcedor é como ter vontade de pegar um objeto e estar com as mãos amarradas nas costas;  você nunca pode fazer nada, a não ser gritar de alegria quando a seleção ganha ou chorar de tristeza quando perde. Isso é muita impotência para um ser humano só.
Agora falando da eleição, tive o mesmo sentimento de estar com as mãos amarradas por não  conseguir dar uma pitada sequer nos rumos da política. A Dilma e o Aécio, os dois finalistas, sendo ambos de esquerda, deixaram-nos a opção entre uma esquerda” lobo vestida com pelo de cordeiro” e uma esquerda, digamos, “civilizada”. Uma anêmica opção e deprimente, para piorar. Na verdade, senti que precisava escolher, não na idéia do mal menor, mas na de que com o Aécio era uma importante tentativa de tirar os lobos famintos que há doze anos corroem as instituições brasileiras. O desejo de ver uma nação mais livre do peso morto do Estado ficaria para o incerto futuro. O resultado foi muito curioso, dividiu o país entre os que não precisam de favores políticos e os que sem o bondoso Estado passam fome. Como a pobreza é útil!
Acredito que o PT tem a faca e o queijo na mão e pode ficar algumas boas décadas no poder. Imagino que  arriscas se transformar numa espécie de PRI mexicano, mantendo o poder e o país por varias décadas no atraso e na servidão. Nas próximas eleições, basta acusar o adversário de que tem a intenção de acabar com a Bolsa-Familia e, imediatamente, garantirá uns quarenta milhões de votos rumo a um novo mandato. O PT institucionalizou a compra de voto e em escala monumental, como nunca neste país.....

 Agora saia dessa, oposição!

sexta-feira, outubro 24, 2014

COMO! A PETROBRÁS É NOSSA? QUERO MINHA PARTE

Abel Aquino

Hoje, dialogando com um eleitor da Dilma ouvi, em alguns minutos, todos aqueles chavões da esquerda brasileira. Disse ele que a Petrobrás é do povo, é patrimônio da nação, que acredita que a Dilma não sabia de nada e que vai recuperar a empresa. Disse que só o PT preocupou com os pobres e que o PSDB é partido da elite. Para espantá-lo um pouco eu afirmei que admirava saber que ele se sentia dono da Petrobrás porque eu era incapaz de ver minha parte naquela empresa. Com que base ele afirmava que ela é do povo? Não soube Responder. Disse a ele que todas as acusações de que o PSDB é privatizante e que queria vender a Petrobrás me decepcionaram. Me decepcionaram porque sabia que não era verdade, pois tinha certeza de que o PSDB é tão ou quase tão estatizante quanto o PT. Por mim, acabaria com todas as estatais do pais, privatizaria tudo. Ele arregalou os olhos.
 Eu perguntei:  se a corrupção dominar a empresa em que você trabalha,o que acontece? Ela quebra, não é? Quebra e fecha. Agora quando um dirigente de uma estatal  desvia dinheiro até deixá-la a míngua, o que acontece? Ela quebra e fecha? Respondeu que não. Pois, então, continuei, toda e qualquer estatal corre, permanentemente, o risco de tornar-se instrumento de uso político. Desvirtuar a função de uma empresa por interesses particulares é fácil quando essa empresa está sob controle de governantes ávidos de poder ou que querem obter altos beneficio com o uso desse poder. O rapaz abaixou a cabeça e balançou os braços, visivelmente incomodado. Então considerei a conversa por encerrada, certo de que não tinha conseguido abalar suas convicções.
Eu sempre fico estarrecido quando encontro alguém que acredita que a Petrobrás é nossa, considerando esse “nossa” como todos os brasileiros. É uma crença tão sem base real quando a crença no Papai Noel, entanto persiste altaneira e sem arranhões ao longo de décadas, como verdade tão sólida quando a ingenuidade média do povo.
Juro que tentei, por meio de repetidos momentos de meditação e atos de renuncia, sentir-me parte da Petrobrás, talvez imaginar qual parte daquelas torres fumacentas, daquele enormes tanques cheirando betume, daquelas imensas plataformas balouçando no mar, mas fracassei.Não descobri nenhuma maneira de ver, apalpar ou reinvindicar a parte da empresa que me pertece como cidadão brasileiro, pagador de pesados e sufocantes impostos.

Há muito tempo desisti de acreditar, se é que alguma vez acreditei, que tenho alguma parcela, por menor que seja, da Petrobras. Para mim sinto-me que ela é tão parte de mim quanto um iceberg que se desprende da calota polar no verão.  Sou tão obtuso que não consigo perceber qual seria a diferença de abastecer meu carro com gasolina feita por uma empresa brasileira ou por qualquer outra. Sei que não há dificuldade nenhuma em perceber que me interessa a qualidade desse combustível, em primeiro lugar e, em segundo, o quanto pago por ele quando vou abastecer o carro.  Qualquer pessoa com um mínimo de cultura econômica sabe que o preço que pago é determinado por duas condições, que os economistas chamam de variáveis, ou seja, quanto se produz e quanto se compra. É a mecânica da oferta e da procura. Se tem mais gasolina pra vender e menos gente pra comprar o preço tende para baixo, se há menos gasolina e mais consumidores, o preço tende para cima. Outra coisa, a oferta depende de quantos a oferecem; se só um produz e vende, ele pode manipular o preço e sacrificar a demanda. Se só alguns produzem e vendem, esses podem estabelecer um conluio, controlar a oferta e, com isso, distorcer os preços a seu favor. Já quando muitos produzem e muitos  vendem, o consumidor passa a ser privilegiado, tem até certo ponto, poder de ditar os preços. Todas essas situações podem acontecer independentemente de serem os produtores nacionais ou estrangeiros. Dizer que é um bem incalculável poder se vangloriar de ter uma gigante petroleira, puramente nacional, e que nos abastece carinhosamente com bom e barato combustível, é contar piada de mal gosto. Por muitas razões isso é um engodo. Nossa gasolina não é a mais barata do mundo e muito menos a melhor. Pelo contrario, os carros importados precisam de custosas adaptações para funcionar com esse nosso combustível de quinta categoria.  24/10/2014

quinta-feira, maio 29, 2014

SERENIDADE



 Quem procura diversão, busca esquecer?
Talvez queira excitar o corpo e a mente
Ou cansar as pernas e distender os músculos.
Mas também há diversão em sentar
 - Despreocupado -num tronco caído e soprar a gaita.

Posso até tirar prazer do barulho da chuva
Ou ouvir o gorgulhar do riacho lavando as pedras,
Quem sabe cortando lenha, varrendo o quintal.
Viver é mais do que fazer festas, encontrar amigos,
Rir do mundo e contar o tempo
Como aquele que tem pressa do amanhã
E esquece que a vida é curta depois que passa.

Gasto o dia colhendo tomates e limpando o terreno,
Ao mesmo tempo que os pássaros ligeiros
Reviram a terra e bicam insetos.

Posso não fazer nada em qualquer dia,
Ter a liberdade de observar e escutar
Admirar as formas de árvores centenárias,
Folhas rodopiando em direção do solo

E exclamar: pra que ter pressa!

sábado, dezembro 21, 2013

CULTURA E LAZER, LITERALMENTE




Abel Aquino

Na chácara, passamos um mês comendo tomate, do pequeno, cujo pé havia nascido por acaso. Deixei que crescesse. Quando ficou da altura do meu peito, estava caído para os lados. Então cortei três varas, fiz uma escora e a  armei sobre o tomateiro. Amarrei seus delicados troncos nessas madeiras. Em pouco tempo, ficou carregado de tomatinhos. Eles eram comidos em forma de salada. Eu os cortava em duas partes, colocava numa bandeja, acrescentava azeite, shoyo, cebola fatiada e limão. Era um prato especial.
Aproveito a deixa para dizer que, embora nosso terreno seja diminuto, apenas 1.550m2, sendo que 400m2 é ocupado pela construção da casa, mesmo assim plantamos e colhemos uma enorme variedade de legumes. Temos, então,  todo ano,  abóboras, pimentas, cebolinhas verdes, pimentões, jilós e até bananas.  
Fico admirado como a natureza é pródiga e só uma pessoa muito sem ânimo ou descuidada é capaz de passar fome sobre seu pedaço de terra. Conheci, em Goiás, gente passando necessidades mesmo vivendo em vários hectares de terra. Suas moradias estavam cercadas de mato e a lavoura definhava sob as chamadas ervas daninhas. Criavam galinhas e porcos, muitas vezes soltos pelo terreno. As galinhas circulavam por dentro das suas residências, defecando na sala e na cozinha, deixando no ar um cheiro de enxofre desagradável.  Conheci um sitiante que construíra os ninhos de suas aves na sala. Perguntei do porque deixava as galinhas chocarem seus ovos na sala: disse-me, com simplicidade, que era para os bichos não as comerem. No interior da residência a ninhada estava protegida. Era muito raro ver hortas. Quando muito, formavam pequenos canteiros de cebolinhas e pés de plantas aromáticas ou medicinais.
Acredito que esses comportamentos parecem ser uma espécie de regressão à vida mais primitiva. São “brancos” que perderam os costumes mais urbanizados e contemporâneos. De qualquer forma, isso revela o quanto é frágil a evolução cultural do ser humano. Qualquer descuido e volta ele à época das cavernas, pelos menos em termos de costumes. 
Mas, voltando a falar da nossa diminuta chácara, não posso esquecer que interagíamos com a natureza.Usávamos nossas temporárias estadias como momentos de relaxamento e reflexões. Quando tive que regularizar o terreno, fui obrigado a derrubar uma meia dúzia de arvores, ato pelo qual fui multado pela Polícia Florestal. De qualquer forma, a casa ficou ilhada no meio da mata, com frondosas árvores cercando os quatros lados do terreiro.
Com essa proximidade, somos, com freqüência, visitados por bugios, macacos pregos, e até sagüis barulhentos. Nossos mais assíduos vizinhos são as sabiás, as corruíras, os bem-te-vis e os Joãos-de-barro. Vários outros pássaros freqüentam nossa redondeza,  mas ainda não foram identificados. As  beija flores fazem ninhos na lateral do telhado e os tucanos comem coquinhos do Jerivá carregado, grasnando de forma desagradável.

Os fins de semanas que passamos nessa chácara são a melhor forma de recarregar as baterias e dar descanso ao corpo, depois de uma semana agitada na maior cidade da América do sul. Sem contar que, nesses dias podemos comer melhor, elaborando nosso próprio e variado cardápio, gozando de forma saudável dos prazeres de alimentar-se bem, dormir até mais tarde e de relaxar a vida, ouvindo o canto dos pássaros e o barulho do vento nas folhas das árvores.

terça-feira, agosto 06, 2013

CÍRCULOS CIRCULARES


Curvo o tempo como dobro folhas,
Salto o vazio como salto trampolim
E corto as amarras enquanto vivo,
Pisando preceitos enquanto fujo.

Do outro lado há muitos espelhos
E desde, ficam todas as formas e sombras.
Por mais que eu reforme e modifique,
Tudo precisa ser ainda refeito.

Alguns acreditam na sorte furtiva,
Outros, nos rudes calos da mão.
Aqueles esperam o giro da roda
E estes, os frutos quase maduros.

Por fim me dobro exausto e frio.
O peso do atrito dos gonzos
Vai esmagando meu peito anêmico

Entanto sei que é apenas o recomeço.

quarta-feira, julho 24, 2013

UM CORPO NO RIO

Todo mundo tinha medo da correnteza naquele ponto do rio. As margens ficavam estreitas e as pedras negras e sempre molhadas da margem empurravam a água turva para o meio, onde rodopiava, encrespada, e descia velozmente por mais de cem braças até encontrar o remanço.
Marcilio parou sua montaria junto ao barranco e ficou, por alguns minutos, observando a corredeira. De vez em quando os raios do sol da manhã brilhavam na barriga prateada de peixes que desciam saltitando por entre as pedras.
De repente viu o corpo de uma pessoa rodando pela correnteza, de bruço, com a roupa rasgada, os braços abertos e balouçando nos movimentos da água. Por um momento Marcilio acompanhou o corpo, fustigando o cavalo e percorrendo a margem do rio, mas logo adiante o mato impedia a passagem e teve que afastar. Contornou o mato e, metros à frente, voltou a se aproximar da margem. Perscrutou a água mais não viu mais o corpo.
Resolveu voltar para casa. Depois de espalhar a noticia, os vizinhos curiosos desceram correndo em direção do rio para ajudar Marcilio a procurar o corpo. Ficaram a tarde toda percorrendo as margens acidentadas, mas não encontraram nada. Marcilio ia a frente com o facão na mão, abrindo caminho no capim alto do brejo.
Depois de duas horas de procura começaram a duvidar da história.
Marcilio, você deve Ter visto coisa demais, disse Fúlvio duvidando.
Não sou maluco, sô, respondeu Marcilio. – Vi muito bem; era um defunto boiando na água, sim!
Mas então deveria estar parada nesse remanço agumentou Crispim.
Era um defunto,sim, repetiu Marcilio já impaciente.
Eu não vou procurar mais não, concluiu Fúlvio. – Daqui um pouco escurece e a gente não pode ficar aqui para ser picado por cobra nesse matagal besta.
A gente pode não achar o corpo, justificou Marcilio. – mas que eu vi, eu vi.
Voltaram para suas casas, conversando, uns achando que o rapaz estava maluco, outros dizendo que poderia até ser verdade, mas faltava o corpo para tirar toda dúvida. Marcilio ficou alguns passos para trás, resmungando. Sabia que aquilo iria virar motivo de chacota mas estava confuso. Olhou para trás ouviu o barrulho da correnteza e pensou: será que eu me enganei?

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

LONGE DA LUZ



Há momentos em que vejo o avesso,
As coisas de cabeça para baixo,
Os seres humanos sem suas carapaças e
as sabiás fora das gaiolas.

Alguém me avisa que o tempo passou,
que as chuvas seguiram para o norte e,
enquanto olho pegadas na lama,
o sol sobe pela montanha molhada.

O mundo mudou ou foi o rio que fluiu?
A tarde caminha com as nuvens,
mesmo quando não tenho pressa
e meu trabalho dobra a última folha.

Mas vejo o outro lado da parede.
sabe, quando querem ocultar,
quando lançam palavras suaves
Desviam nosso olhar do óbvio?

Sinto que fui outra vez ludibriado
assim como quem percebe tarde
que existe o subterrâneo oculto
e outro mundo respira sem luz.





quarta-feira, janeiro 02, 2013

Engaiolado junto aos Pássaros

Costumo dizer que adoro ouvir o canto dos pássaros, mas, diferentemente daquelas pessoas que engaiolam essas aves canoras em volta da casa, eu construí minha gaiola no meio deles e, assim, cercado de mata, posso sentar no banco da minha varanda e ouvi-los gorjear pelo terreiro, no alto das árvores ou pousados nas rochas cobertas de liquens. Os bugios costumam vir até às árvores frutíferas que tenho junto ao muro e comem os frutos da nespereira despreocupadamente. Quando aproximam, o macho maior fica no alto do galho mais elevado, observando, enquanto o restante do bando desce aos galhos carregados de bagos amarelos. Depois que constata que somos amigos e não demonstramos intenções agressivas, ele sai de seu posto de guarda e vai comer com os outros. Além dos bugios recebo as visitas de sagüis e macacos- prego. Eles usam as árvores como estradas e todos passam pelos mesmos galhos e saltam de um trono a outro no ponto mais fácil e aparentemente já conhecido, pois raramente mudam de rota. Os bugios são mais barulhentos, embora os sagüis pratiquem uma linguagem estranha de chiados que lembram assobios agudos. Percebo, de vez em quando, a presença de um lagarto, um teiú enorme; deve ter um metro de comprimento e quando aproximo saí em correria, quebrando galhos secos e pulando por sobre pedras e troncos com agilidade. Temos o costume de misturar o lixo orgânico com terra fazendo um monte de futuro adubo para as plantas e para a horta, uma compostagem. A noite tínhamos a visita de um gambá que aparecia para revirar o monte a procura de restos de comida. Ele caminhava pelo muro e descia pelo galho da pitangueira. Outro dia encontrei-o morto junto a cerca. Examinei seu corpo, mas não vi marcas de ferimento ou outro indicativo da causa da morte. Seu pêlo estava vívido e denso, indicado que gozava de boa saúde. De qualquer forma não descobri a causa de sua morte. Enterrei-o perto do pé de juçara. Num domingo chuvoso vimos uma preguiça tentando atravessar a estrada. Alguns carros pararam e os motoristas saíram para tentar retirá-la do meio do caminho. Fui até lá e pedi para que deixassem eu levá-la para a mata no fundo da minha casa. Dalí o bicho foi lentamente subindo na árvore e, em pouco tempo desapareceu na mata. Tive a impressão de que, embora movimente-se lentamente, é capaz de ir de galho em galho o mais rápido do que se imagina.

terça-feira, julho 17, 2012

QUE PREDADOR É ESSE?

Há muitas maneiras de caminhar por uma trilha da mata assim como caminhar por uma rua movimentada da grande cidade. A gente pode estar sendo observada por algum predador; na floresta pode ser um felino tal como uma onça e na metrópole pode ser um predador da mesma espécie humana. Mas caminhar pela selva tem sua vantagem, a começar pelo ar sem fumaça de automóveis, nem pelo tumulto do excesso de gente.Quando tenho tempo de seguir alguma trilha marcada por pedras ou copas de velhos cedros floridos, imagino que uma espécie de ancestralidade animal me liga mais fortemente aos esquilos que catam os frutos das árvores do que aos seres humanos que habitam a cidade, principalmente porque não sei que tipo de educação receberam e que meios de vida escolheram para garantir seu sustento. Muitos animais humanos aprendem a viver de outro tipo de predação que não a do felino. O meio de vida da onça é o da caça a outros mamíferos, mas o meio de vida de muitos seres humanos apoia-se no mimetismo e na linguagem da dissimulação. Não é fácil proteger-se de predadores que cultivam e aperfeiçoam continuamente os recursos do disfarce e do fingimento.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

PARQUE PETAR



Quem viaja para esse parque é porque quer conhecer cavernas. Nessa região existem centenas delas, algumas podem ser visitadas pelo turista, desde que acompanhado por guias locais, credenciados pela administração.

Caverna do Diabo

Normalmente a primeira a ser visitada é a lendária “Caverna do Diabo” . Embora ela esteja fora dos limites do parque Petar, faz parte do roteiro de quem quer conhecer as cavernas existentes no vale do Ribeira. A Caverna do Diabo é a mais urbanizada, podemos dizer assim, com entrada facilitada por trilha calçada e o interior protegido por corri-mãos e escadas esculpidas nas pedras. Não há dificuldade nenhuma para o turista caminhar pelo seu interior. Antigamente ela era toda iluminada, mas hoje esse recurso foi retirado, pois estava alterando as condições internas e criando colônias de algas e fungos na presença de luz.
Já no parque Petar poucas cavernas podem ser visitadas mas mesmo assim são consideradas representativas nas suas características e de como se formaram, criando fantásticas galerias ornadas por estalagmites e estalactites. Guias treinados levam o público por alguns quilômetros adentro, desde que cada pessoas esteja protegida por capacete e botas de borrachas, além do lanternas. É para quem tem espírito de aventura.


Caverna do Núcleo Caboclo



Placa Indicativa




Corredeiras do Rio Bethary



Pinguela sobre o Rio Bethary



Saida Pequena Caverna Núcleo Caboclo



Portal da Entrada Caverna do Couto




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terça-feira, agosto 02, 2011

DEPOIS DA CHUVA

Percorri a margem do rio, pela trilha dos pescadores. Havia locais em que restos de embalagens de plástico ou papel, carvão e madeira queimada indicava o local preferido dos pescadores para acampar. Numa parte em que o barranco ficava mais alto, sentei numa pedra e olhei para o meio do rio. Havia chovido na noite anterior e as águas estavam barrentas e bravas. O nível da água subira pelo menos um metro e no meio da correnteza, de vez e quando passavam pedaços de paus, galhos e troncos flutuando no meio da turbulência do rio. O dia estava fechado, sem sol. As folhas das árvores e o capim permaneciam úmidos e as trilhas mantinham poças de água e barro. Não era um dia bom para pescaria. Levantei-me e continuei a caminhar pela margem irregular. A trilha subia, descia, virava para a esquerda, depois para a direita, aproximava da margem, em seguida afastava da margem, contornando pedras e árvores, atravessando grotas e seguindo leitos de enxurradas.
Depois de caminhar por mais de meia hora, cheguei à curva do rio, onde o leito abria num quase lago, de águas mais calmas. O barranco externo da curva tinha marcas do choque constante das correntezas, forçadas a se desviar. Aquela curva funcionava como freio, deixando as águas mais calmas e ali era o ponto preferido de pesca por todos os pescadores que conheci. Perto da curva havia um pequeno rancho de palha, sem paredes, construído para dar abrigo aos pescadores. Quando me aproximei vi gente; dois deles estavam agachados na margem com a vara fincada na terra e a linha mergulhada nas águas sossegadas do rio; outro mexia com o fogo de um fogão improvisado sob a cobertura do rancho, ainda outro abria um peixe com a faca, tirava suas vísceras e jogava para um par de cães que saltitavam a seu lado.
- Bom dia! Cumprimentei o homem que ajeitava a lenha no fogão improvisado com pedras. Uma panela fervia sobre essas pedras.
O homem levantou a cabeça, olhou para mim e sorriu, devolvendo o cumprimento. Os outros voltaram suas cabeças na minha direção. Cumprimentei a todos. Um deles eu conhecia, era o Joaquim, o primeiro que estava pescando. O que estava limpando o peixe veio em direção do fogo, pegou uma vara, atravessou o corpo aberto e sem viceras e colocou-o sobre as brasas, ao lado da panela.
Achei que era uma oportunidade de prosear um pouco e ficar conhecendo o mundo daquelas pessoas aparentemente comuns.
Sentei-me num tronco caído, diante do fogo e percebi que aquelas b pessoas me aceitavam com naturalidade. Todos continuavam a fazer o que estavam fazendo. O que estava mexendo na panela sobre o fogo era o Pedro Boiadeiro. Ele olhou para mim e disse:
- Você não veio pescar, veio?
- Não, respondi.
- Você apareceu com as mãos abanando, completou…
- É, estou aproveitando o domingo para perambular pelas margens do Rio.
- E acha divertido?
- Sim, descansa a mente.
- O que me descansa é pescar, explicou Pedro Boiadeiro.
- Eu entendo.
O homem que limpava um peixe, agora estava preparando um cigarro de palha e de vez em quando olhava para mim, sem dizer uma palavra.
Perguntei o seu nome e ele respondeu rapidamente.
- Sou o Gerônimo, o filho do Vicentino.
- Há! Já ouvir falar de você, respondi.
- Ei, Thomaz! Chega até aqui, chamou Joaquim da beira do rio.
Fui até lá e fiquei de pé a seu lado,enquanto ele segurava a vara de pescar, com a linha e o anzol mergulhados na água.
- Fiquei sabendo que ´ocê é vegetariano.
- Sim, sou, respondi.
- A Marilda me disse que jantou na casa dela. – Teve que fritar quatro ovos para ´ocê, comentou rindo.
- É verdade.
- Mas, não come nem peixe?
- Não. Nem galinha?
- Só o ovo da galinha? Respondi divertido.
- Sim.
- Ei, gente! Gritou Joaquim voltando para os outros companheiros de pescaria. – Ele não veio pra comer nossos peixes; ele é vegetariano, explicou dando uma gargalhada.
- Com certeza, conclui, meio sem jeito.
- Já vi ócê em Santa Cruz, falou o homem que pescava mais adiante, no inicio da curva do rio.
- Sim, estou morando lá já faz um ano, respondi. O homem era calvo, atarracado e tinha uma cicatriz no rosto.
- Meu nome é Tarso, explicou, sorrindo.
- Muito prazer, respondi.
O cheiro forte de peixe assado espalhava-se no ar. Algumas aves passavam voando baixo e um Martim pescador pousou no galho de uma árvore inclinada sobre o rio, do outro lado. Olhei para o rancho e vi o homem que assava o peixe, cortar uma lasca do corpo do mesmo e experimentar com prazer.
O homem que se identificou como Tarso, da cicatriz, deixou a vara fincada na barranca do rio com a linha mergulhada na água e veio em minha direção.
- Cuidado! Esse ai é pistoleiro, gritou, rindo, o Joaquim, apontando para o homem
- É perigoso? Perguntei, encarando-o.
- É graça dele, replicou Tarso, estendendo a mão para me cumprimentar. – Não sou de encrenca, não.
- ´Stou brincando, justificou Joaquim, rindo.
- Sou porque matei uns sujeitos por aí, ele me chama de pistoleiro.
- Matou? Arregalei os olhos.
- Ele matou uns dois ou três e diz que não tremeu, nem teve dó, comentou Joaquim irônico.
- Ele ´stá querendo passar medo em ´ocê. – Não liga não rapaz, explicou o homem.
- Não estou com medo.
- Eu não caço briga, não, tornou a justificar.
- Sei...
- Ele parou de matar, Thomaz. – é meu melhor amigo.... não precisa ter medo dele, explicou Joaquim. – Por menos por enquanto... arrematou, zombeteiro.
- Mas, o que faz.... vive de quê? Perguntei, enquanto observava-o puxar um pedaço de tronco e sentar-se.
- Sou amansador de cavalo.
- Dos que amansam com brutalidade ou daqueles que preferem amansar o animal com jeito?
- Gosto de amansar com jeito, explicou.
Percebi que o homem queria conversar comigo e então preparei-me para adivinhar as
suas intenções.
- “Ocê que é mais entendido, começou a perguntar, deve saber se é melhor ser crente ou
continuar católico: que acha?
- Eu fui criado pelos crentes, expliquei, meu pai era pastor da igreja Adventista. Deixou a
católica quando eu ainda era criança.
- E então?
- Os crentes também são chamados de Protestantes, continuei, pois não concordam com os
costumes da igreja católica, principalmente sobre adoração de imagens e obediência ao papa.
- Minha mãe era muito carola, comentou Tarso, enquanto cutucava o chão com uma varinha curva. – Meu pai, era um cachaceiro e abandonou a gente logo que eu nasci.
- E aí? Perguntei para incentivá-lo a continuar.
- Minha mãe rezava todo dia para Dez cuidar de nós, mas acho que ele não cuidou nada.
- Porque você pensa assim?
- A gente, eu e meus cinco irmãos, passava fome e vivia em taperas abandonadas lá na Trabucaia. – Eu tinha seis anos e já fui trabalhar pros outros....
- E sua mãe continuava rezando?
- Rezava, acendia velas para Nossa Senhora. Uma vez pegou fogo no altar dela, com as velas, sabe, e queimou a santa junto com a mesinha de madeira e só não pegou fogo toda na casa porque eu e meus irmãos corremos com baldes dágua e apagamos o fogo.
- Foi assustador?
- Foi uma loucura. – Olha, se Deus existe deve ser muito esquisito, não acha?
- Penso assim como você, respondi.
- Ta vendo! Não é só eu que duvida disso, exclamou para os outros ouvirem.
- O Tarso diz que houve a voz dos homens que ele matou, nos sonhos, comentou Joaquim.
- E verdade? perguntei, olhando-o firmemente.
Tarso baixou a cabeça e cutucou o chão, visivelmente angustiado.
- É.
- Isso acontece, repliquei, procurando parecer despreocupado.
- “Ocê acha que é castigo? Deus castiga assim?
- Você não é daqueles que duvidam de Deus? Perguntei tentando forçá-lo a raciocinar com mais profundidade.
- Sou. – Mas tem hora que fico tendo pesadelos pelo que já fiz, comentou sem levantar os olhos.
- Ai acha que Deus pode não proteger, mas consegue castigar.
- É. – “Ocê diz bem. – Acho que Deus é mal.... talvez cruel com a gente.
- Posso dizer uma coisa? Deus pode ser a nossa voz da consciência e só, expliquei.
- Como assim? Levantou os olhos para observar a minha expressão do rosto.
- Sua mãe falava de Deus, dizia que ele castiga quem desobedecia e isso ficou na sua cabeça, quero dizer que você acreditou nisso, no que ela dizia e agora é difícil desacreditar, entende?
- Acho que é isso mesmo, respondeu mais animado.
- “Ocê acha que é muito errado tirar a vida dos outros? Perguntou ansioso.
Fiquei em silencio por um momento, tentando achar as palavras mais apropriadas para não deixá-lo mais confuso ainda.
- Olhe, Tarso, existem muitas situações em que a gente pode tirar a vida de um semelhante.
- Eu também penso assim.
- Tem sujeito que mata por prazer, pra ver o outro morrer aos seus pés. Tem outros que matam pra provar que é o melhor. Ainda outros que matam para defender a própria vida. Por fim , tem os profissionais, aqueles que matam por encomenda; as vezes sentem até piedade pelo coitado, mas precisa fazer o trabalho, não é assim?
- É. – “ocê fala bem.... desanuvia a cabeça da gente, explicou com um suspiro.
- E então?
- O primeiro eu matei pra me defender. – Era um valentão que gostava de desafiar os outros, sabe?
- Conheço esse tipo de gente...
- Eu não fiquei com medo dele.... tive que matar.
- Fez uma coisa justíssima, respondi para incentivá-lo.
- Aí fiquei famoso. – Todo o mundo me cumprimentava, fiquei respeitado.
- Muito interessante.
- Então, o pessoal começou a achar que eu podia ajudar.... acabar com os desafetos, sabe?
- Entendo....
- O cara me ofereceu uma boa paga..... era um serviço simples... foi fácil... precisava de dinheiro.
- Perfeitamente normal, aprovei.
- O outro também.... me pagou um bom pacote. Mas aí, não gostei mais. Fiquei um tempo sumido lá pras bandas da Cabaça Quebrada, trabalhando de lenhador.
- Não queria virar matador, pistoleiro?
- Não. Imaginava que minha mãezinha pudesse ficar sabendo que eu fazia aquilo.... não era bom.
- Sua mãe era muito bondosa?
- Era uma santa. Não roubava nem uma banana dos outros. Era capaz de morrer de fome mas, não pegava nada de ninguém.
- Entendo...
- Ajudava gente, qualquer um.... e era ela que precisa de ajuda.
- Muito bonito....
- Ela morreu naquela época.... nem sei se ficou sabendo do que eu fazia.
- Morreu quando você foi embora?
- É. – Não pude ver o enterro.... foi triste.
- Descansou, pelo menos, expliquei meio sem jeito.
- A vida dela foi sofrida.... disso eu sei, explicou, tentando aliviar o sentimento de culpa.
- Com o tempo a gente dá valor no que perde... comentei apenas para não ficar calado.
- Com certeza. Minha mãe trabalhava pros outros, fazia qualquer coisa, lavava roupa, limpava casa, capinava roça. A gente era criança e ajudava ela. Ela cantava enquanto trabalhava e ficava brava quando a gente brincava no serviço. Mas a gente era muito criança... gostava de brincar.
- Era normal, apartei apenas para reforçar minha compreensão.
- Nunca casei.... vivo sozinho.... é bom.... as vezes é ruim, entende?
- Claro!
- Falei dos crentes....
Ah! Sim. – Conheceu eles?
- É. – Estiveram em minha casinha. Falaram muita coisa bonita. Fiquei contente. Assim, muita conversa bonita.
- Falaram do lado bom do seu Deus?
- Isso! Isso mesmo. “Ocê conhece, né?
- Sei. Mas, o que falaram pra você?
- Que Deus é bom, mas só pra aqueles que lê a bíblia e segue as leis que ta escrita lá.
Mas, eu não sei ler... só posso ficar ouvindo eles falar.
- Compreendo.
- Mas minha cabeça ficou matutanto uma coisa.... minha mãe não lia a bíblia.... também não sabia ler.... só apredeu a rezar.... era devota da Nossa Senhora.
- Mesmo assim Deus não cuidou dela?
- Não sei.... Ela merecia ta no céu.
- Quem sabe?
- Merecia sim.... era muito boa pra todo o mundo.... até pra quem não valia nada.
- Compreendo.
- Falei isso pro crente, sabe?
- Falou?
- Ele ficou quieto.... mudou de assunto.... não gostei disso.
- Mas religião é isso. Cada um acha que tem razão e despreza as práticas religiosas do outro.
- E Deus não é um só? Perguntou me olhando extranhamente.
- É o que dizem.
- “ocê continua crente?
- Continuo, mas do meu jeito. Não sou membro de nenhuma religião em particular.
- Ta vendo como isso é tudo confuso! Exclamou irônico.
- Com certeza.
- Eu sou católico, aproximou-se Pedro Boiadeiro, mas não perco tempo em ir na igreja ouvir o padre. Sigo a minha família.
- Muita gente faz isso, comentei.
- O Tarso ta certo, a mãe dele era uma santa... eu conheci e se algum crente ou católico disser que ela não merece ta no céu... eu não vou acreditar em mais nada.
- É difícil acreditar nos homens, respondi. Cada um fala uma coisa e ninguém se entende.
- Isso é verdade, respondeu Pedro, apontando para o Tarso. – Sua mãe ta no céu... disso pode ter certeza.
- Eu sei.... a vida dela foi de sofrimento e morrer ou foi descanso de tudo ou foi para viver noutra vida só de alegria, comentou Tarso, suspirando.
- É nisso que faz bem acreditar, acrescentei, evitando complicar suas crenças.
O sol estava quase à pino e o calor agradável da beira do rio cercado de mata tornava o ar convidativo ao relaxamento e à despreocupação da vida. Levantei-me.
- Vou continuar meu passeio, expliquei.
- Gostei muito de prosear com “ocê, comentou Tarso, contente.
- Conversaremos mais outro dia, com certeza, respondi.
- Fico contente.
- “Ocê não é crente mas fala bem, acrescentou Pedro, dando um tapinha nas minhas costas, entende das coisas.... “ocê é estudado, não?
- Freqüentei a escola um punhado de anos.
Gosta de ler, né? O povo diz que tem um monte de livro em casa, explicou Joaquim, aproximando com um grande peixe debatendo nas mãos.
- Gosto de ler, sim!- Pescou um belo dourado! Exclamei, admirando o brilho das escamas.
- Esse é dos bons!
- Adorei papear com vocês, mas, vou deixá-los em paz com a pescaria.
- Não ta atrapalhando, não.... explicou Tarso, tocando meu braço com carinho.
- Conversaremos noutra hora, prometo.
Sai pela trilha, convicto de que tivera uma mais que agradável hora de descompromissada
prosa. Nada mais prazeroso do que conhecer o drama de pessoas simples e ao mesmo tempo tão autênticas e sem nenhum verniz de erudição dissimuladora da vida.