terça-feira, junho 23, 2009

NO FRIO DO ASFALTO
Abel Aquino
Pare de fumar, Alice, ordenava o marido, mal humorado.
Fumo quanto quiser, retrucou a mulher, caminhando para a janela aberta.
Odeio fumaça de cigarro, continuou o homem.
´Tô cheio de você, de todo o mundo!
Você é muito ingrata, isso sim, concluiu o marido.
Alice acendeu o cigarro, olhou pela janela e deu uma baforada. Pensou consigo mesma:
por que tudo dá errado pra mim?
Ouvia a vizinha gritando com o filho, um enorme caminhão subindo a rua, cães latindo, vozes de rádio; sua cabeça doía, suas pernas formigavam. Um enorme rato correu junto ao muro, em direção dos fundos do quintal. Alice jogou a bituca e acendeu outro cigarro. Sentia-se o pior dos seres humanos. O marido, com aquele ar despreocupado e sorriso zombeteiro, deixava-a transtornada. Não tinha vontade de reclamar, de exigir, de protestar. Desejava apenas alimentar-se do próprio veneno. A vizinha continuava a gritar com o filho e com o marido. Mas, isso não tinha importância. A vida era uma loucura, o amor, um punhal que servia para perfurar, para dilacerar.
Alice queria se revoltar, procurar forças para jogar tudo para o alto, bater na cara do marido e xingar a vizinha que só reclamava da vida. Mas, não, permanecia calada e olhando pela janela. Pensou na mãe, naquilo que chamam de família. Não seria ingênua de acreditar em ajuda de família. Era adulta e, se enfrentava problemas, os outros também estariam enrolados em seus próprios problemas. Sua irmã a chamava de desmiolada, seu irmão a considerava uma puta. Definitivamente, família era para se manter distante.
O marido levantou do sofá e foi para a cozinha procurar comida. Alice ouviu-o abrindo panelas e batendo pratos. Lembrou que casara para deixar de ser mal afamada, para conquistar respeito da família e da vizinhança. Quanta ingenuidade!
Afastou-se da janela e foi ao quarto, abriu o guarda-roupa e retirou algumas peças de vestidos, calças e blusas. Pegou a mala, jogou tudo dentro, e saiu para a rua. Trancou a porta, jogou a chave por baixo, e caminhou pela calçada mal iluminada. A noite estava quente e não soprava nenhum vento. As poucas luminárias públicas acesas lançavam luzes amarelas em círculos no meio da escuridão.
Alice não tinha pressa, nem sabia qual destino tomar. Apenas caminhava pela longa e solitária rua da meia-noite. De repente, ouviu passos atrás de si. Sentiu medo e andou mais depressa. Quase corria, mas o estranho ruído de passos apressados continuava. O pavor foi tomando conta de seu corpo. A mala começou a pesar, suas pernas tremiam, e, os passos atrás de si, persistiam. Não tinha coragem de voltar a cabeça e olhar. Queria correr, mas, não tinha forças.
Um gato malhado saltou a sua frente, pulou o muro do outro lado e desaparece na escuridão. O susto acelerou ainda mais o coração palpitante. Estava ofegante. Ao chegar à avenida, viu, do outro lado, uma porta de bar aberta, viu luzes e ouviu vozes. Atravessou sem perceber que um carro se aproximava em alta velocidade. Ruído de pneus travados, faróis piscando e uma pancada seca. O corpo voou no ar, deu uma volta sobre si mesmo e estatelou no chão, imóvel. Logo,curiosos se aproximaram, janelas foram abertas e rostos surgiram com olhos compridos. Mais tarde, ouvia-se as sirenes da ambulância, afastando.
No dia seguinte, no chão frio do asfalto da avenida, amanheceu apenas uma mancha vermelha.

sexta-feira, junho 05, 2009

UMA HISTÓRIA EM DIA DE CHUVA


Abel Aquino


Era uma tarde chuvosa e fria. No pátio da enorme obra em construção, os pesados caminhões espalhavam a lama pegajosa e a enxurrada desmanchava os montes de areia. Os trabalhadores que precisavam fazer serviços do lado de fora estavam sentados no chão, debaixo da cobertura provisória.
Brito, o encarregado civil, fumava tranqüilamente, recostado no pilar e olhando para o pátio, pensativo. Cheguei até ele e puxei conversa.
- Brito, hoje vai ser um dia perdido, não?
- Poxa! Se vai!
- O Severino já sarou? Vi que ele veio trabalhar hoje.
- Já. Está ainda meio fraco; dei pouco serviço pra ele.
- Você estava preocupado com ele, continuei.
- É! Gosto desse menino; mas é muito desorientado, só no mundo.
- A família está espalhada por todo canto.
- A família é grande, mas cada um foi prum lado.
- Você esteve onde ele mora, é ruim o lugar?
- Muito! É um fundo de casa, perto do córrego - construção de tabua - uma favela.
- Não quer ficar no alojamento da obra?
- Não. Prefere ficar onde está. – Aqui, no alojamento, corre muita bebida e não tem jeito - já falei com o Engenheiro para reforçar a vigilância, mas tudo continua como está. – Severino tem um fraco pela bebida e fica bêbado com pouca coisa.
A chuva não dava trégua. A água penetrava pelas partes em construção ainda descobertas e descia por entre as formas de concreto, molhava as escoras de madeira e lavava as escadas incompletas. Severino vinha caminhando em nossa direção, carregando um balde no ombro. O capacete de proteção estava enlameado, seu uniforme com manchas de barro. Caminhava, sem pressa, desviando das pilhas de tijolos, pulando por cima das resmas de caibros e dos montes de pedra britada.
A história desse rapaz era comovente. Corria até uma anedota de que tudo que é ruim no mundo cai na sua cabeça. Já se perdeu em São Paulo e passou a noite dormindo na rua; já foi preso por engano; levou um surra de uma turma de desordeiro; teve uma namorada que o abandonou por outro; o pai morreu e a mãe ficou louca; seus irmãos viviam cada um em uma cidade diferente e ninguém sabia o endereço de ninguém.
Brito cuidava dele quase como se fosse um filho. Vi muitas vezes os dois conversando; Severino ouvindo os conselhos e movendo afirmativamente a cabeça.
Havia faltado no trabalho, três dias, pois tivera uma gripe muito forte. Mas estava de volta.
Aproximou-se, sorriu levemente para mim, e perguntou ao Brito onde deixaria o balde de impermeabilizante.
- Deixe no almoxarifado; não vou precisar mais disso, hoje.
O rapaz afastou-se e eu perguntei:
- Ele já arrumou outra namorada?
- Creio que não. Ele gosta de ir ao puteiro da Juanízia e lá tem uma moreninha que adora arrancar dinheiro dele, coitado.
- E ele não se queixa disso?
- Ela faz uns carinhos, leva pra cama e ele fica extremamente generoso.
- Limpa ele?
- Pior que limpa! Na última vez que recebeu o salário, obriguei-o a me dar três partes do que recebera e saísse só com o necessário para tomar uma cerveja e deitar meia hora com a safada.
- Concordou?
- Não deixei escolha. No outro dia devolvi o dinheiro e falei para que procurasse pagar as dívidas.
- O que disse?
- Ficou agradecido; ele sabe que não pode gastar o salário do jeito que gasta, mas não tem juízo.
O engenheiro apareceu e chamou Brito que o seguiu pelo pátio, debaixo da chuva. Fiquei por alguns minutos parado, ali,olhando a movimentação, os trabalhadores carregando madeira, acionando os guinchos, empurrando carrinhos de massa de cimento. Uma meia dúzia de pessoas continuava sentada no chão, conversando. Dois deles sentaram numa pilha de blocos de concreto e examinavam um pequeno rádio.
No final da tarde, Brito apareceu no meu improvisado escritório e convidou-me para irmos à lotérica fazer uma fezinha.
Saímos em direção do portão principal. A chuva havia cessado e apenas a lama permanecia no pátio, sujando as botas dos que transitavam por ali. Na saída, encontramos o Severino que perguntou aonde íamos. Resolveu nos acompanhar e também fazer o seu joguinho preferido.
Dois dias depois vi o Brito, caminhando sorridente. Parou à minha frente.
- Adivinhe o que aconteceu?
- Não!
- O Severino ganhou na loteria!
- Verdade?!
- Sim! Foi ao banco sacar parte do dinheiro.
- Quanto ganhou?
- Ganhou 200 milhões de cruzeiros!
- É. Dá pra comprar um bom apartamento de classe média, comentei.
- Vai me dar dez por cento, porque diz que eu é que dei sorte pra ele.
- Deixe de ser fominha, Brito. Deixe ele com a grana.
- Que é isso! ´Tá falando em dar dinheiro até pra a moreninha do puteiro, justificou.
- Ele vai embora, então?
- Vai. Quer pedir a conta e ir pro nordeste, cuidar da mãe que é doente.
- Mas, não é muito dinheiro; se sair gastando, não vai durar nada.

Depois dessa conversa, não vi mais o Brito por uns dois meses. Quando voltei à obra, esta já estava em fase final, com pintores e maquinas de limpeza trabalhando a todo o vapor.
Brito estava almoçando no refeitório, acompanhado pelos outros encarregados. Quando me viu, chamou.
- Como está? Perguntei.
- Estamos bem, e ócê?
- Estou bem. Tem noticia do Severino?
- ´Tá na terra dele, cuidando da mãe; comprou uma casa na cidade, um carro e diz que vai trabalhar de chofer de madame.
- Espalhou muito dinheiro por aí?
- Um pouco, mas foi esperto - até me surpreendi – não procurou nenhum irmão. Pra putinha deu uma boa grana que a deixou toda feliz.
- Acho que a sua fase de azar acabou; que ele não precise nunca mais voltar para cá, comentei.
Despedi-me do pessoal, dei um abraço no Brito, desejando-lhe boa sorte e me afastei em direção do pátio do estacionamento. Suspirei contente, sem saber porque. Talvez por continuar vivo e ter grandes amigos.

terça-feira, maio 12, 2009

DESPENHADEIRO


Justino gostava de passear com seu cão, Plato. Saia pela campina, seguindo as trilha do gado para apreciar o dilatado horizonte. Isso dava uma sensação de liberdade e amplitude e sentia que poderia conquistar muitas coisas. Seu cão corria à frente, parava, olhava para trás, balançava o rabo e ficava esperando Justino se aproximar. Depois corria mais um pouco, perseguia uma nhambu que ciscava debaixo do capim. Esta voava para longe e Plato desistia de persegui-la. Os passarinhos, no alto das árvores mais desfolhadas, saltitavam de galho eM galho, chilreando e batendo as asas. Justino tentava adivinhar que espécie poderia ser os de penacho amarelo, os outros de peito branco e, ainda, os de rabo longo e azul.

O dia estava limpo e o sol quente era abrandado pelo vento fresco do fim do verão. Andavam, agora, por uma região que Justino não conhecia. Enormes lajedos levantavam por entre árvores retorcidas e pedras meio arredondadas apareciam soltas na partes planas, despregadas que foram do alto da serrania.Plato correu atrás de uma codorna e Justino viu quando desapareceu à frente, ganindo de forma estranha. Justino correu e, quando viu a fenda, já era tarde. Seus pés escorregaram na laje lisa e o corpo alcançou o espaço e caiu. A fenda tinha mais de dez metros de profundidade. Seu corpo alcançou o fundo com um baque curto e segui-se o silêncio.

Uma semana depois encontraram os corpos, do animal e de Justino, lado a lado. Estavam cercados de abutres. Sobravam mais ossos que carne. Por entre as costelas de homem e do cão, movimentavam-se vermes e estes passavam de uma carcaça à outra. Lívio foi o primeiro a ver aquela cena e, imediatamente lhe ocorreu a pergunta: será que o homem e o animal são da mesma natureza?. Estavam alí desmanchando-se em podridão, vermes e pedaços de carne picotados pelos bicos afiados dos abutres.

Maria ficou sabendo da morte do marido com pavor e gritos. Chorou três dias sem cessar. Deram-lhe calmante todos aquele tempo. Por fim, já conseguia dormir sem remédio. Mas, sempre sonhava com o marido voltando para casa. Abria a porta e o via chegando, balançando o corpo de seu jeito peculiar, sorrindo. Passava para o quarto e a abraçava. Maria perguntava: - mas, você não morreu?. Justino dizia, sempre sorrindo, não morri, olhe para mim, tenho cara de morto? Cheire-me. E ela o cheirava e sentia aquele suor de homem que tanto a excitava.
Mas, ao acordar, via a cama vazia, sentia a solidão da casa solitária, sem a voz grave e sempre calma de seu amado companheiro e chorava de novo.
Porque ele aparece em meu sonho? Será que quer dizer alguma coisa pra mim?.
O padre dizia que era sua alma, tentando reconfortá-la. Mas, tendo toda noite sonhos desse tipo, Maria sabia que seu sofrimento nunca poderia acabar.

domingo, maio 03, 2009

A CURVA DO TEMPO



Recolhi os remos do barco.
Fui com a correnteza das coisas,
Com o flutuar da isca sem consciência
E o deslizar da noite enluarada.
Vi as estrelas acima das pontas da serra,
O olhar aberto – a mente vazia,
O corpo apoiado nas bagagens
E a canoa escorregando pelo rio.

Sou o pescador das idéias etéreas,
Ouvindo o rõim, rõim dos batráquios,
O cri, cri dos grilos e o tic,tac do relógio.
Meu barco esbarra na pedra irregular,
O remo apóia no barranco e empurra,
Enquanto o barrulho das águas
Denuncia a forma negra do obstáculo
E desperta o espírito distraído e morno.

Desejo abrir a mochila de lona
Encostar o bote na margem arenosa
E ler meu livro em voz alta.
Mas o espírito sem luz e a noite brumosa
lança meu desejo na marola escura
e leva o choro do mandi fisgado.
Só vou assar minhas traíras na primeira manhã
Pouco importando com ouros e lembranças,

Esquecido do lugar nas curvas dos anos!
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terça-feira, março 31, 2009

POÇO ABANDONADO

O cavaleiro vinha pelo pasto no meio da chuva. Evitava a estradinha porque por ali descia uma enxurrada violenta. Contornou a cerca, que ficava ao lado do capinzal, puxando a rédea com cuidado para que o cavalo não escorregasse. O chapéu de abas largas estava encharcado e vertia água pelas extremidades.
A longa capa cinza escura protegia seu corpo da chuva e, amarrada no pescoço, rodeava todo o corpo e cobria até as ancas do animal. Era o Sebastião, irmão do proprietário da fazenda. Acompanhei de longe, com o olhar, as passadas curtas do cavalo pelo pasto, aproximando próximo à linha da cerca de arame farpado.Eu estava sob a cobertura do paiol de milho e da doca do carro de boi.
De repente a montaria e seu cavaleiro sumiram diante de meus olhos. Gritei assustado. Vi que do canto da casa o Jacinto corria na direção do local onde o cavaleiro desaparecera. Sai na chuva também e rumei para lá. Na extremidade do pasto, quase no cruzamento da cerca de arame com a cerca de madeira, vimos, primeiro as orelhas e o focinho do animal e abaixo, abraçado ao seu pescoço, o cavaleiro, desesperado, nos gritava por socorro. Compreendi que haviam caído num poço abandonado, coberto de madeira e terra e que cedera com a chuva e o peso do cavalo. Os olhos do animal pareciam saltar para fora, suas ventas sopravam dilatadas e trêmulas. Por sorte o animal caíra com as ancas para baixo e as patas dianteira estavam estendidas para cima, quase tocando as bordas do poço. Tínhamos que fazer alguma coisa. Jacinto correu de volta para a casa sem dizer nada.
Deitei-me ao solo e tentei esticar o braço para alcançar a mão do Sebastião, o cavaleiro, mas, quando ele soltou um dos braços que o seguravam agarrado ao animal, quase escapou e por pouco não escorregou para mais baixo, onde fatalmente seria esmagado pelo corpo do cavalo. Este estava desesperado; agitava as patas traseiras, vergava o lombo e arranhava a borda do buraco com as patas dianteiras na tentativa de se erguer. Sebastião permanecia agarrado ao pescoço do cavalo e sentia que com qualquer descuido cairia para o fundo e seria esmagado.
Jacinto surgiu com uma corda e com o laço de couro cru. Dois outros homens o acompanhavam . Eram o Dico e o Osvaldão, os peões da fazenda. Jacinto lançou a corda e Sebastião, fez um grande esforço para segurá-la com uma das mãos mas tinha medo de escorregar. A ponta de corda desceu por entre seus braços e encostou no peito. Gritei para que abrisse as pernas e apoiasse no barranco, mantendo o corpo colado ao animal e assim poderia soltar as mãos e agarrar a corda. Foi o que fez. Juntamos todos os quatro homens e puxamos a corda lentamente. Essa penetrou na beira enlameada do poço e afundou, tornando muito pesado puxar. Sebastião ficou suspenso no ar tocando as botas no lombo do cavalo mas nós não conseguíamos puxar mais. Falei para os outros aguentarem o peso, mantendo a corda esticada, enquanto eu deitava no barro e puxava a corda abaixo do barranco. Conseguimos puxar mais um metro e as mãos do cavaleiro ficaram ao meu alcance. Agarrei seus pulsos e gritei para que enfiasse as pontas da bota na beira do poço e impulsionasse para cima. Com dois trancos consegui tirá-lo para fora. O cavalo, vendo seu dono na margem, ficou extremamente agitado; relinchava desesperadamente e cavava, com as patas dianteiras, o canto do poço, mas, com isso, só conseguia afundar-se mais ainda. O barro que caíra, já estava prendendo suas patas traseiras no fundo do poço. Jacinto preparou o laço. Olhei para ele; a água escorria pelo furo do velho chapéu de palha, sua roupa encharcada revelava um corpo musculoso e forte apesar de seus quase sessenta anos. Quando ia jogar o laço no pescoço do cavalo soterrado, avisei: - Jacinto isso não vai dar certo.
Também acho, respondeu ele. – só vou enforcar o pobre animal, concluiu.
Temos que pensar noutra coisa, argumentei. – podemos tentar amarrar a corda abaixo das ancas dianteiras.
E, se cavarmos a beirada, fazendo uma rampa, vai facilitar o arrasto, pensou em voz alta.
É uma boa idéia, respondi.
Dico, corre ao galpão e traga enxada, pá e enxadão para abrirmos uma vala na frente do animal.
Enquanto Dico buscava as ferramentas, jogamos a corda ao fundo do poço e, com uma vara, tentei fazê-la sair do outro lado do corpo do animal, mas não consegui. Achei melhor fazermos uma laçada na ponta da corda e enroscar nela a vara. Depois de duas tentativas consegui contornar o corpo do animal e deixei a laçada do outro lado. Desprendi a vara, enfiei-a pelo outro lado e fiquei tentando pescar a laçada da corda no fundo do poço, acima das patas traseiras. Só parte das coxas estavam fora da lama e, na tentativa de pescar a laçada esta afundou na lama e eu não conseguia vê-la. A chuva parecia mais forte e trovões ribombavam na serra. Os relâmpagos cortavam os céus pesados de nuvens cinzentas. A água corria pelo meu rosto, e embaçava minhas vistas. Dico chegou e imediatamente começaram a cavar a vala no rumo das patas dianteiras do cavalo. Este olhava com seus olhos esbugalhados e cheios da água da chuva, relinchava como que entendendo o esforço que fazíamos para tirá-lo dali. Quando Dico cansou, Osvaldão pegou na enxada e começou a puxar a terra, agora mais lama que terra. Uma leve enxurrada começou a fluir para dentro do buraco. Jacinto gritava: - vamos rápido com isso que a chuva vai encher o poço de água logo, logo. Eu peguei a pá e comecei a colher o barro e jogava para mais distante e à frente da vala para evitar que a lama escorresse para dentro.
Sebastião estava sentado num tronco caído e olhava tudo com ar distante e perdido. Sua capa enlameada de barro vermelho estava rasgada e rota. Osvaldão alcançou rapidamente a altura das patas do cavalo e o enxadão era manuseado com cuidado para não ferir-lo.
A vala estava com um metro de profundidade junto ao poço e subia em forma de rampa até dois metros adiante.
Tentei novamente pescar a corda que estava enterrada na lama no fundo do poço.
Com a vara, fui apalpando até encontrar a laçada da corda. Com cuidado, fui puxando e consegui trazê-la até a borda. Jacinto pegou numa das pontas e eu peguei na outra, passei a ponta pela laçada e puxamos cuidadosamente a corda de forma a ir escorregando no corpo do animal até fechar em torno das ancas dianteiras. Amarrei outro pedaço de corda no meio da primeira e conseguimos ter dois pegas para puxar. Jacinto laçou o pescoço do animal com o laço de couro cru e começou ao puxar. Eu e Sebastião pegamos numa punta da corda, Dico e Osvaldão na outra, e começamos a puxar. O cavalo esperneou, relinchou, mas não se moveu do lugar.
Tive a idéia de deixarmos a água correr para dentro do poço e com isso o animal poderia flutuar e sair mais fácil. Todos concordaram comigo. Nessa hora, um ar de desânimo já se estampava no rosto de cada um deles. Quando a água subiu até o pescoço, voltamos a esticar as cordas e o laço. Desta vez o cavalo conseguiu soltar as patas traseiras da lama e seu corpo flutuou. Puxamos mais uma vez e ele conseguiu ajudar com as patas dianteiras e avançou pela vala até firmar as patas traseiras. Nesse momento afrouxamos as cordas e o cavalo saltou para frente e alcançou a terra firme. Relinchou como que agradecido e Sebastião foi fazer um carinho no seu pescoço.
Seguimos para dentro da casa, debaixo da chuva que não dava trégua, cansados, enlameados, mas contentes. Sebastião vinha logo atrás, trazendo seu animal no cabresto, em direção do estábulo. A capa de chuva ficara enroscada na cerca e ele não se importou em recolhê-la.

terça-feira, março 10, 2009

A DOR E A TEMPESTADE



Abel Aquino

Agachei na beira do rio e fiquei olhando o movimento das águas. O enorme galho de uma árvore caída na margem riscava a superfície, enquanto um martim pescador trocava de lugar sobre o lajedo do lado oposto.
Fiquei angustiado com o pressentimento de que haveria grandes mudanças no tempo. Nuvens escuras surgiam lentamente no horizonte. Precisava ficar forte e não me deixar tomar pela emoção. Procurá-la seria um risco que não tinha intenção de correr. Com certeza, era um rompimento definitivo.
Teria que procurar outros ares, ver outros sorrisos, sentir outros perfumes. Mas quem teria aquele jeito de afastar os cabelos do rosto e de pender levemente a cabeça?
Seus olhos, nesses momentos, me encaravam com coragem e eu estremecia. Sua voz era cheia de calor e sensualidade natural. Mas eu sentia que seu coração não batia tanto por mim. Era uma relação precária.
Deitei sobre a pedra da margem do rio. O vento soprava e as folhas das árvores mais altas despregavam e caiam sobre as águas. Flutuavam como barcos e desciam numa corrida, seguindo a correnteza, umas tocando nas outras, rodopiando e balançando. Vi a libélula pousar na superfície do rio e imediatamente um peixe saltou fora dágua e a levou para o fundo. Seu dorso cinza brilhou por um instante aos raios do sol que passavam pela folhagem das pindaíbas.
As nuvens ficavam cada vez mais pesadas e escuras. O vento aumentava.
Levantei e segui pela trilha em direção da estrada. Um carro passava naquele momento e a poeira vermelha levantou-se em redemoinhos e afastou por cima das árvores. Caminhei pela estrada sem pressa.
Gostaria de tomar aquela chuva que avizinhava, de ouvir relâmpagos explodindo na serra e ver raios cortando as nuvens com fúria. Queria ver o vento arrancando árvores, quebrando galhos e lançando folhas em todas as direções. A chuva poderia cair como cachoeira, inundar o vale, arrancar tocos pela raiz, encher o rio e passar por cima da ponte. Desejei estar no meio da tempestade mais violenta que jamais vira, ser jogado ao chão e enlamear minha roupa, ficar surdo com os trovões sobre minha cabeça.
Quando senti os primeiros e grossos pingos da chuva, imaginei lavando minha alma, esfriando a cabeça, a água escorrendo pelas costas. Ficaria aliviado da angustia da perda, da dor do abandono.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

O JANTAR E A ESPERA

Abel Aquino

Maria estava contente. Havia encontrado Camilo na casa da Joana. Este estava muito alegre e conversador, o que não era comum. Maria aproveitou para aproximar-se dele e a seu lado pode trocar elogios e gracejos. Camilo nunca a olhara daquele jeito, intenso, penetrante e sempre com leve sorriso nos lábios.
Na verdade a paixão de Maria por aquele homem surgira com a indiferença com que deitava olhares nela. Maria era muito bonita, corpo forte, alta, morena clara, cabelos longos e brilhantes. Todos os rapazes do povoado a cortejavam. Mas Camilo não. Isso enlouqueceu Maria; a imagem viril do homem, seu ar orgulhoso e displicente não saia da sua cabeça.
Com muito cuidado Maria aproveitou a intimidade para convidá-lo a ir jantar na sua casa.
- Posso preparar um jantar especial para você, concluiu ela.
- Hoje não posso, desculpou-se Camilo. – mas amanhã vou experimentar da sua comida, concluiu, com aquele leve sorriso.
- Amanhã, no final da tarde, `tá bom? Perguntou ela.
- Estarei lá, respondeu, Camilo.
Na manhã seguinte, Maria das Dores acordou feliz; todos os afazeres do dia seriam um nada em face da oportunidade de preparar um jantar para o homem que mexia com seu coração.
Desde que a mãe morrera, Maria cuidava da casa como se ainda estivesse cheia de gente. Seu irmão raramente dormia ali, mas sua cama, suas roupas, o chinelo, a toalha pendurada, tudo estava sempre pronto para ele quando aparecia. A maior parte do tempo Maria vivia solitária naquela enorme casa, sem mais que amigos e amigas que no avançar da noite iam embora para suas respectivas moradas e ela dormia sozinha. Tivera um namorado, na verdade, noivo, mas quando falavam em data do casamento, Maria descobriu que ele tinha outra em Orizona. Por um bom tempo o mundo ficou sombrio; ainda bem que nessa época sua mãe ainda era viva e nunca a deixou entregar-se à alguma loucura.

O tempo passou, a mãe morreu e foi enterrada ao lado da sepultura do pai. Depois Maria conheceu Camilo, o domador de cavalos. Apesar da indiferença dele ou talvez por causa disso, foi amor a primeira vista.

Naquele dia, ao cair da tarde, Maria já havia assado um frango, enfeitado a travessa de arroz com folhas de alface, mandioca cozida com pedaços de carne de vaca, travessa de queijo branco com cebolinha verde e uma garrafa de vinho que buscara na venda do Alípio.
A mesa estava enfeitada com toalha quatro cores, as extremidades bordadas a mão e pequenas flâmulas de pano branco descansavam no espaldar das cadeiras.
Maria ajeitou os talheres com carinho, guardanapos dobrados e um pequeno vaso com rosas brancas e vermelhas, colhidas à pouco.
Por um momento percorreu com o olhar a mesa arrumada e, vendo tudo em ordem, foi para a sala esperar o convidado. Sentou-se no banco e aguardou.
As horas passaram e a escuridão chegou. Acendeu a lamparina e voltou a sentar. Deu sete horas, oito horas, nove horas e Camilo não aparecia. O coração de Maria estava doendo, suas mãos suavam, seus olhos ardiam encanto tentava ver o meio da rua.
Passavam cavaleiros, casais apressados, crianças corriam de um lado a outro, mas a figura de Camilo não surgia na soleira da sua porta.
Quando Aninha apareceu Maria deu um salto e foi a seu encontro.
- Aninha, `ocê não viu o Camilo? Perguntou desesperada.
- O que houve? Retrucou Ana.
- Ele ficou de vir jantar comigo... concluiu Maria.
- Ah! Acho que não vem... não. Gaguejou Ana.
- Como assim?

Ana deu um passo para trás e meio insegura explicou:
- Vi ele ainda agora, bebendo com a rapaziada no boteco do Juca... tinha até umas mulheres no meio deles.... acha que era a Mirtes e duas outras. Eles estavam muito alegres... riam e cantavam, dançando e cambaleando.... todos com cara de muito bêbados, arrematou Aninha.
O mundo veio abaixo para Maria. Suas pernas tremiam de decepção e raiva. Agarrou os ombros da amiga, encostou a cabeça e desandou a chorar desesperadamente.

sábado, fevereiro 07, 2009

O TRÁGICO E A SIMPLICIDADE

Fiquei intrigado quando descobri que havia gente morando no alto da montanha. Pela estrada via o terreno coberto de pedras e fendas cortando picos rochosos. Era uma paisagem árida e bruta. Alguém poderia viver alí? O caminho seguia fazendo curvas para a esquerda e depois para a direita. O sol forte brilhava sobre as folhas das árvores retorcidas que teimavam em agarrar-se nas encostas pontilhadas de rochas avermelhadas. Alguns quilômetros adiante abria-se um planalto e o mato adensava. Mais alguns metros e pude ver uma casinha de tijolo cru. Do cume, ao norte, nascia um filete de água transparente e fria, passava por entre pedras enormes soltas no terreno e caía numa pequena represa, ao lado da construção. Ao leste havia um pequeno curral de madeira roliça, com partes caídas e a porteirinha amarrada com cordas. Quando me aproximei, uma senhora surgiu do terreiro do fundo, limpando as mão no avental encardido. Duas crianças corriam ao seu lado e chegaram primeiro ao meu encontro. Cumprimentei a todos e a senhora convidou-me para entrar sem perguntar o que eu fazia alí. Procurei pelo dono da casa e ela me disse que estava na roça, mas logo voltaria. Convidou-me para sentar e explicou que iria à cozinha preparar o café.
Alguns minutos depois o homem surgiu pela porta dos fundos. Era um homem baixo franzino, moreno, com a pele curtir pelo sol. Tirou o chapéu e veio me cumprimentar. Parecia não me ver como estranho. Apertou virilmente minha mão, sorrindo e balançando a cabeça para a frente em sinal de respeito. Não parecia que estava me vendo pela primeira vez. Nenhuma curiosidade em seu olhar, embora evitasse me encarar. A mulher surgiu com um pires à mão, equilibrando o copo de louça branca cheio de café cheiroso. Peguei o pires com a mão direita, passei para a esquerda e com a mão livre levei o copo a boca. O café estava delicioso. Voltei a me sentar e puxei conversa.
- Não imaginava haver gente morando nessas alturas, comentei.
- É difícil mesmo. Mas tem mais outros dois moradores nas redondezas, explicou o anfitrião.
Sua mulher permanecia de pé ao seu lado. Vi as crianças cochichando junto à porta que separava a sala da cozinha. A mulher arrastou uma cadeira para o marido e se retirou.
O homem sentou-se e perguntou meu nome.
- Meu nome e Thomaz.
- Meu nome é Zé. José Arimatéia, mas o pessoal me chama de “Rima”.
- È difícil aparecer gente aqui, comentou.
- Acredito, respondi. - Fico contente que me tenha recebido bem em sua casa.
- Há! Visita é sempre uma felicidade pra gente que vive tão só nesse sertão, afirmou com um leve sorriso.
- Imagino, conclui.
- O senhor fica pro almoço? Perguntou.
- Não sei se é possível. Estou fazendo levantamento dos habitantes da região para a Sucam, expliquei.
- Você é dos Malárias.
- Sim, respondi sorrindo.
- (Malárias são conhecidos os agentes de saúde que trabalham na campanha de combate a malária e outras endemias pelo interior de Goiás)
O casal de criança corria de um lado para o outro em volta de nós. O pai ralhou com eles para que ficassem quietos.
Perguntei o nome do menino que olhava para mim, tentando aquietar-se.
- Zildo, respondeu o menino.
- Fala direito seu nome, moleque! zangou-se o pai. – É Ezildo, moço, conclui o homem, dando um leve tapa na cabeça do filho.
- E o seu? Perguntei para a menina que parecia ser mais nova que o garoto.
- É Marta, respondeu, escondendo atrás do pai.
- E quantos anos você tem?
- 6 anos.
- Você é muito bonita, elogiei a menina.
Ela sorriu envergonhada. Puxou o irmão pelo braço como que querendo que eu voltasse a fazer perguntas a ele.
- Você tem mais filhos? Perguntei a pai.
- Tenho outra filha mulher que está com a avó na cidade.... pra poder estudar.
- Entendo, balancei a cabeça em aprovação. – E esses dois ainda não estão na escola?
- Não sei como fazer. O garoto já fez 7 anos, mas aqui não tem escola. – Penso em ir pra a cidade pra eles estudar. Só que lá preciso de emprego. Aqui planto minha roça e trabalho pros fazendeiros... só sei mexer com gado e lavoura.
Olhei para fora e vi que o sol brilhava mais alto e que as horas estavam passando. Despedi-me deles e saí em direção ao sul a procura dos outros moradores. Antes do cair da tarde precisava voltar, descer a serra até Santa Cruz, onde estava hospedado.
A paisagem daquela montanha não tinha beleza como em outras regiões. Havia muita pedra e as árvores eram pequenas espinhentas e retorcidas. Nos pequenos vales com planícies estreitas, cortadas por riachos, os moradores plantavam lavouras, principalmente milho e feijão. As planícies úmidas que vi não passavam de uns duzentos metros de largura. Muitas vezes os córregos eram represados para que formassem pequenas lagoas, onde criavam peixes e desviavam água para suas casas.
Voltei diversas vezes à montanha da Contenda e sempre tomava café na casa de taipa do Rima. Zeneide, sua esposa, preparava um saboroso café que eu sorvia acompanhado de pedaços de queijo ou batata doce que ela trazia numa bandejinha de lata.
As crianças adoravam prosear comigo. Eu sentava no banco de troncos que ficava do lado de fora da casa e Ezildo e Marta ficavam pulando a minha frente, gesticulando e balançando o corpo como numa dança. Marta apesar de menor era mais conversadeira e alegre; seus cabelos, meio rebeldes, cacheados caiam nos ombros e cobriam parte do rosto. Ela constantemente puxava com as pontas dos dedos as mexas e passava para trás das orelhas. Ezildo gostava de contar dos tombos que sua irmã tomava, como no dia em que atravessavam o riacho, pulando de pedra em pedra; Marta acabou caindo e molhando-se toda ou quando ela correu da vaca que viera cheirá-la inofencivamente.

No final do verão voltei à casa do Rima, durante minhas periódicas rondas de avaliação de controle de endemias, no caso para detecção da presença do percevejo bicudo, causador da doença de Chagas.
A casinha de adobe estava com a porta e a janela abertas, mas não vi gente nem os cães. Parei próximo à porta e gritei:
- ô, de casa! Silêncio.... só ouvi o cacarecar das galinhas, ciscando um monte de gravetos.
- Ô, de casa! Repeti.
Dei a volta em torno da casa, vi que a porta da cozinha também estava aberta, mas não havia ninguém. Olhei para o sul, no rumo da roça, para o norte, na direção da nascente do riacho e não vi gente alguma. Caminhei para a frente da casa e peguei a estrada de volta. Então vi o Rima surgir por detrás das rochas vermelhas, trazendo um bezerrinho nos braços. Zeneide o acompanhava e mais atrás vinha o menino. Esperei que eles se aproximassem, cumprimentei-os sem pegar a mão e seguimos em direção do curral, onde Rima colocou o bezerro.
- O Sr ‘tá bem, seu Thomaz! Perguntou sorrindo e estendendo o braço.
- Eu estou bem, Rima, e vocês?
- ‘Tamos como Deus quer, respondeu. – Vamos chegar, convidou-me, seguindo lentamente em direção à porta da casa. Olhei para Ezildo , o garotinho. Ele tinha um boné cinza empoeirado na cabeça e me olhou sem muita alegria. Bati, de leve, a mão nas suas costas e caminhei com eles. Zeneide foi na frente.
Entramos na casinha e Rima puxou uma cadeira e ofereceu-me para sentar.
- Onde está a Marta? Perguntei.
Os dois se entreolharam, ficaram alguns segundos em silêncio. Rima olhou para mim, sério.
- A nossa filhinha morreu... afirmou baixando os olhos.
- Como assim? Ela morreu? Perguntei incrédulo.
- É verdade, cochichou.
- Mas como ela morreu? Insisti.
- Foi picada de cobra.
- Picada de cobra? Mas hoje em dia ninguém morre de picada de cobra, comentei. E continuei: - é só levar ao médico.
- É mas a gente levou ao benzedor.
- Estão brincando? Perguntei incrédulo.
- É, mas ele benzeu o filho do Joaquim e o veneno não fez nada com ele.
- Mas Rima! Exclamei revoltado. – Nem sempre a cobra mata ou tem veneno suficiente para matar. Vocês deviam ter levado a menina ao hospital.
- Daqui é difícil, justificou Rima cabisbaixo e envergonhado.
- Fosse de cavalo até a fazenda mais próxima.
- Eu sei, respondeu. Quem sabe era o destino dela... concluiu resignado.
Fiquei calado, remoendo por dentro. Aquele casal vivia uma vida tão simples, tão inculta que o mundo deles não era o meu mundo. Viviam isolados, não frequentavam a igreja, não conheciam gente com estudo para trocar informações sobre a vida e até mesmo sobre o mundo de hoje. Eu, sinceramente não sabia o que dizer a eles.
Tentei reconfortá-los.
- Ela deve estar descansando no céu, afirmei sem muita convicção.
- Jesus há de cuidar dela, exclamou Zeneide, a mãe.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

O homem tossia todo o dia e toda a noite. Da minha casa, ouvir aquilo me angustiava. Nos dias de calor e sol ele tossia, nos dias de chuva ele tossia, nos dias de frio e vento ele tossia. Sua mulher fazia chá e o cheiro do chá quente espalhava-se pela redondeza. Os vizinhos iam visitá-lo e saiam cabisbaixos e silenciosamente caminhavam para suas casas. Nunca vi um médico visitá-lo; apenas o enfermeiro vinha, diariamente, aplicar-lhe injeção. Diziam que o medico o havia desenganado. Alguns vizinhos não o visitavam porque temiam que sua doença fosse contagiosa, outros evitavam visitá-lo porque não queriam sentir pena. Sua família não era grande. Os filhos, as vezes, brincavam no quintal, mas a maior parte do tempo ficavam com os avós. Na frente da casa havia uma palmeira, um belo pé de jerivá com três cachos carregados de coquinhos amarelos. Os periquitos gostavam de assentar alí e comer os frutos enquanto faziam uma enorme e estridente algazarra.
Quando a esposa saia na rua eu a observava caminhar em direção do mercadinho. Seus passos eram lentos e vacilantes, seu corpo inclinava ora para um lado ora para o outro. Parecia uma mulher fraca e triste, embora sem ar de doente. Seus cabelos eram mal cuidados e os pés calçavam uma sandália de tiras simples e desgastadas.
Mas a todo o tempo o homem tossia.
A gente desejava poder ajudar, poder fazer alguma coisa que curasse aquela criatura mas nada vinha a mente. Fui visitá-lo numa tarde fria e garoenta. Ele estava deitado na cama de solteiro armada no meio do quarto. Esta ficava bem no centro, de forma que as pessoas que o visitavam podiam rodear a mesma e observá-lo de todos os ângulos. O doente acompanhava a gente com o olhar e seus braços descansavam sobre o cobertor que cobria seu corpo. O travesseiro era alto e uma toalha encardida ficava amassada ao lado. Quando começava a tossir, ele pegava a pequena toalha e a leva a boca como que para expelir menos bactérias aos visitantes.

Numa noite calma e com lua cheia a tosse cessou. A casa ficou em silêncio. Apenas um pouco de luz escapava pelas frestas da janela do quarto. Não ouvi choro nem lamentos. Tudo estava quieto.Apenas os latidos dos cães da rua e o cricri dos grilos do quintal quebravam o torpor do ar fresco e leve da madrugada.
De manhã vieram contar que o vizinho havia morrido.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Abandono



A mãe não quis o filho...
Ninguém o quis naquela manhã,
Abandonado à beira da estrada.
No ar frio, suas perninhas agitavam.
Os carros passavam uns pelos outros,
Buzinas, pneus na lama vermelha.
O corpo sobre o pano mal lavado,
As mãozinhas atacando o ar gelado
Da primavera chuvosa.
Algumas rolinhas assustadas
Esticavam o pescoço e ouviam o choro.
Os automóveis passavam...
Alguém parou,
Outros fizeram uma roda.
Nos braços daquela mulher,
Ouvindo vozes e suspiros,
O bebezinho sorriu!

terça-feira, setembro 30, 2008

ERA UMA NOITE VAZIA

Abel Aquino

As largas ruas da pequena cidade estavam vazias naquela madruga de inverno. Alguns cães procuravam restos de lixo nos cantos de muros manchados de umidade. Hugo caminhava sem pressa e angustiado. Havia poucas luzes acesas nos postes de madeira e as partes mais escuras ocultavam os contornos das casas. Quando chegou em frente da sua casa, Hugo parou por alguns segundos, aguçou os ouvidos e não percebeu nenhum ruido ou movimento no interior. Abriu lentamento o portão, passou para dentro e encostou-o mais devagar ainda, evitando fazer qualquer ruido. Seu cão surgiu balançando o rabo e grunhindo. Agachou para acariciá-lo antes que começasse a latir e por instante desejou dar meia volta e ir embora. Enfiou a mão direita no bolso, retirou a chave e aproximou-se da porta. Encaixou a chave na fechadura e girou sem pressa. A porta abriu com um leve gemido das dobradiças. Depois de fechá-la, caminhou no escuro, tocando com as pontas dos dedos nos moveis, cuidando para não esbarrar em nenhuma cadeira e seguiu até a cozinha. Pegou um copo sobre a mesa, encheu de água do pote de barro e bebeu. Ouviu um leve ruido vindo da sala. Olhou naquela direção e viu o vulto de uma pessoa. Hugo gelou.
Sua mulher parou debaixo do umbral da porta que dividia a sala da cozinha e perguntou com a voz rouca e soturna.
- Onde ‘ocê estava, seu traste!
- Bem.... eu.... estava no bar do Chico com amigos... jogando baralho e nem vi as horas passar.
- ‘Ocê me prometeu parar com isso, Hugo!
- Eu sei... mas....
- ‘Ocê é uma porcaria de marido e um péssimo pai.... um sem vergolha!
- Eu não fiz nada grave.... só joguei e bebi um pouco.
- Bebeu um pouco?! Estou sentindo seu bafo de alcool daqui!
- É... bebi um tanto....
- ‘Ocê é cara de páu, Hugo!
- ´Stá me ofendendo....
- Há! Agora tem sentimentos? E sentimentos pros filhos, pra familia?
- É....mas não precisa me lembrar do que tenho que fazer.
- ‘Ocê não tem conserto, Hugo! Vai dormir no sofá e amanhã a gente tem muito que conversar.
Zilda deu meia volta e seguiu para o quarto, batendo a porta. Hugo ouviu o ruido da chave, trancando a fechadura.
Acendeu a luz da sala e procurou alguma coisa para se cobrir. Sobre a poltrona havia uma manta dobrada. Pegou-a. Sentou-se no sofá, soltou os cadarços dos sapatos e espreguiçou. Retirou mecanicamento os sapatos e as meias. Deitou no velho sofá com a cabeça apoiada no canto, jogou a manta sobre o corpo e suspirou. A única coisa que sentia era sono, uma profunda vontade de dormir. Fechou os olhos. Tudo girava dentro de sua cabeça mas sua alma estava serena. Perguntou a si mesmo: - será que eu não tenho juizo mesmo?
Estava tonto demais para pensar; precisava dormir e então dormiu.

quarta-feira, abril 30, 2008

SERRA DA CANASTRA


Aqui nasce o rio São Francisco


Quando a gente viaja pela primeira vez para a Serra da Canastra, há sempre a ansiedade da chegada, do momento em que ela surgirá no horizonte da maneira o mais portentosa possível. No trecho sem asfalto de Piuhmi até São Roque a gente já começa a entrar no clima, ao presenciar a paisagem mais agreste e rude. A poeira da estrada dá a sensação de que a civilização ficou para trás. E sobe morro, desce morro, curva para a direita, curva para a esquerda e a gente de olho no horizonte a procura de vestigio do paredão que se vê nas fotos promocionais. Cruzamos uma pontezinha mal conservada, sobre rio de pouca água e vemos a placa indicando que alí passa o lendário Rio São Francisco. Há um pouco de desapontamento. Do outro lado, a estrada poeirenta segue serpenteando até que avistamos a encruzilhada. À direita segue-se para São Roque, à esquerda segue-se para a cachoeira Casca D'anta, a mais volumosa queda d'água do parque. Quarquer lado que escolher, a gente estará indo em direção da Serra mas terá dificuldade de vê-la por inteiro.

É preciso ir rodeando-a por estradas estreitas e sinuosas, às vezes bem próximo, às vezes mais distante. Há momentos em que é imperativo parar, descer do carro, subir ao barranco e vislumbrar os paredões recortados por quedas d`águas. No lado sul, por onde desce o Rio São Francisco – ainda nos seus primeiros quilômetros de existência – é que se pode presenciar toda a magestade da montanha, estendendo-se como imensa muralha de granito, coberta por vegetação rasteira, arbustos retorcidos e cachoeiras. Viaja mais alguns quilômetros por estrada paralela ao paredão e, depois de passar por casas de fazendas feitas de adobe, cobertas com telha colonial, portas e janelas de madeira lavrada, chega-se a entrada oficial do parque.


A PRIMEIRA VIAGEM

Levantamos cedo, antes do raiar do sol como dizem os camponeses, e seguimos pela estreita estrada que nasce ao lado do cemiterio e segue rumo a portaria principal do parque, no alto da serra. O muro do cemitério é feito de pedras caprichosamente encaixadas umas nas outras de forma que não há espaço entre elas. Musgos e algas verdes crescem por entre os encaixes e dão uma aparência centenária ao muro. Enquanto subiamos, fomos tragados pela neblina e só podiamos ver por meros 4 metros a nossa frente. o jeep ia lentamente subindo e fazendo as curvas ao redor de morros cada vez mais altos. Quando alcançamos a portaria mal podiamos ver a cancela e a construção de pedra que abriga os guardas e o pequeno escritório.
Portaria principal do parque.
Passada a portaria seguimos subindo por mais algumas centenas de metros e então começamos a sair da neblina e conseguimos ver a chamada casa de pedra. Passamos por ela e alcançamos a campina, onde o capim é baixo e exisntem poucas árvores, a maioria pequenas e retorcidas. A campinas fica num planalto, com suaves ondulações do terreno de forma que destacam as pontas das pedras das partes mais altas e as grotas nas partes baixas. Mais a frente avistamos a baixada onde nasce o São Francisco.
Paramos o jipe junto à pequena ponte de madeira, descemos e seguimos a trilha em direção do riacho. Parei ao lado da água e num passo atravessei o São Francisco que ali tem 60 cm de largura.

Caminhamos em direção do Monumento que colocaram em homenagem ao Santo que emprestou o nome ao rio. A Estatua está protegida por cercado de pedras, recolhidas na redondeza.

Alguns quilômetros depois da nascente já não consegui atravessar o rio nem com dez passos. Ali encontramos a primeira cachoeira.

Dentro do parque, Casca D’anta é a maior cachoeira do Rio São Francisco.. Alí as águas se lançam do alto da montanha e arrebentam-se lá embaixo com enorme barrulho. Depois o rio prossegue mais sossegado, contornando a serra, saltando pedras, margeado por matas, sinuosamente rolando, para seguir seu longo caminho a procura do mar.
Mas do alto da montanha, aconpanhando a água, dá para ver só um pequeno pedaço da cachoeira. E olhando no fundo do vale o rio reaparece. Dá para ver a outra portaria do parque, a uns quinhentos metros do pé da serra.

Planalto dentro do parque.

Cachoeira do Serradão nas proximidades do parque. Essa cachoeira faz parte do circuito turistico da região.



Campina das terras altas.


Carro de boi, comum na região. Pena que a maioria desses carros foram abandonados pelos cantos das fazendas. Foram substituidos por camionetes e jipes.

Frondoso piquizeiro que cresceu todo inclinado na encosta da montanha.

Fomos visitar um morador da região. A casa tinha o curral na frente e pomar no fundo. O sítio não deveria ser grande e, da janela da sala, pude ver os contra fortes da imensa montanha. Aquela familia não tinha luxo mas vivia num razoavel conforto. A comida é sempre boa nesses lugares. O próprietário fabricava queijo e para isso mantinha uma casinha ao lado, toda bem fechada, com prateleiras junto às paredes repletas de queijos para curtir. Proseamos com aquela familia até alta hora da noite e no final já éramos íntimos de todo o mundo. Comemos uma espécie de bolinho em formato de charuto e envolto em casca de bananeira. Muito delicioso. Brincamos com o formato do bolinho que lembrava o orgão sexual masculino.

Sede de fazenda cercada por muro de pedra como muitas das que existem no entorno do parque.
A sensação que a gente tem, quando no alto da serra, no planalto levemente ondulado, é de estar mais próximo do céu. As núvens passam baixas e o vento sopra forte e dobra o capim para um lado e para o outro. Por entre o capim, aparecem pedras enormes, manchadas de musgos e enegrecidas pelas frequentes queimadas que acontecem na estação da seca. Alí o céu é baixo mas o horizonte parece quase infinito.
Num primeiro momento a gente não percebe a grandeza do parque.
É curioso, mas é depois de caminhar bastante, ir a muitos lugares diferentes, visitar cachoeiras, subir penhascos, descer caminhos tortuosos e percorreu as curvas do rio, ainda riacho, é que a gente se dá conta da imensidão desse lugar.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Vigília

Sobre o monte de palhas,
O cachorro dorme enrodilhado.
O menino cata sabugos,
Conversa sozinho e
Faz pipi entre os pés de mandioca.
Dentro da casa as mulheres
Choram o morto à luz de velas.

Apocalipse

O homem e sua espécie de barro,
a sombra sem forma
de nossas gastas escrituras
e a tenaz que não falha.
Mas somos tolos,
com sonhos de travesseiro.
Foi numa manhã:
fizemos montes de areia,
muros, abrigos, marca de dedos.
O gado passou
e o vaqueiro sorriu!
Ficamos olhando nossa cidade
esmigalhada pelas patas pesadas,
as orelhas balançando,
os chifres reluzindo ao sol;
e rimos de nosso mundo desfeito.

Lama Vermelha

Depois da chuva a moça saiu pela estrada. Tirou os sapatos, segurou-os na mão esquerda e, com a direita, levantou as pontas da saia e foi pulando por entre as poças. Os amassa-barros gorjeavam ao lado de suas casinhas no galho das árvores. O caminho era estreito e as folhas das árvores forravam as bordas, ocultando a lama. A moça tinha pressa, quase corria. Seus cabelos esvoaçavam e a gola de sua blusa amarela agitava-se com o vento. Quando chegou à estrada principal, olhou para o norte. Lá distante apontava um carro vermelho. Colocou os sapatos rapidamente. O ronco do motor chegava baixinho, mas foi aumentando. Já podia ver os detalhes do carro; o para-brisa enlameado, o retrovisor dobrado numa posição estranha. Ele se aproximava chapinhando o barro vermelho e as poças dágua abriam-se em ondas raivosas. Quando o carro parou ao seu lado, a moça dobrou-se na ponta dos pés, esticou a cabeça, e recebeu um gostoso beijo do motorista. Pegou sua mão e por um instante olhou dentro de seus olhos. Ele sorria levemente. Ficou parado por alguns minutos - trocaram palavras em voz baixa - depois ele disse tchau e seguiu em frente. A moça permaneceu imóvel por um tempo, feliz, abanando a mão. Retirou novamente os sapatos, segurou-os na mão esquerda e com a direita levantou as pontas da saia e foi pulando por entre as poças, de volta para casa, agora sem pressa, saboreando o gosto do beijo que ficou em seus lábios.

Panambi

Fomos almoçar no restaurante vegetariano. Alí a gente pode saborear uma variedade enorme de comida. Gosto de começar pela sopa de ervilha, depois como saladas e finalmente passo para os pratos quentes: torta de legumes, quibes, bolinhos e macarrão. Não posso deixar de falar do pãozinho que acompanha a sopa e é uma delícia.
Depois fomos andar um pouco no parque do Panambi, batizado de Burle Marx. Ali foram construidas três trilhas pela mata; uma com mais de um quilomentro, outra menor e a última de pouco mais de trezentos metros. As trilhas percorrem - desde um pequeno lago e subindo - as partes mais densas da mata e a gente caminha sob a sombra, contornando raizes e troncos de coqueiros. O ar está impregnado do cheiro das folhas e do humus. Há uma árvore caída e eu resolvemos caminhar por ela como se fosse por uma pinguela. Andamos por todas as três trilhas e percorremos até os atalhos.
Depois fomos para a área de gramado, onde as pessoas - muitos casais com seus filhos - descançam e deixam o tempo passar. As crianças percorrem as alamedas com suas pequenas bicicletas e velocípedes, enquanto os casais de namorados conversam abraçados e olham as placas que indicam os nomes das diferentes árvores.
É inicio de inverno e o tempo está um pouco frio. O sol não chega a aquecer as nossas costas. Resolvemos sentar numa mureta de pedra com os pés suspensos no ar e podendo ver toda a parte baixa do parque, desde a entrada do estacionamente, onde cresce uma enorme touceira de bambu, até a outra extremidade, com enormes jaboticabeiras que fazem sombra sobre as ruinas de uma casa antiga, com paredes de adobe, um tipo de tijolo cru, comum na era colonial.
Depois de mais ou menos uma hora alí sentados, namorando e relaxando o corpo e a alma, resolvemos ir embora. O dia estava terminando.
Um dos maiores problemas dos parques de São Paulo é a superlotação e com ela o acúmula de lixo e a presença de gente de todo tipo. Isso trás intranquilidade. Não sabemos quem está ali para relaxar, quem está para passear ou quem está para roubar. O parque do Ibirapuera é um exemplo disso. Uma cidade grande tem essa característica de você ser obrigado a conviver com desconhecidos, com gente de todas as partes do país. É preciso adotar certa atitude que não teria em cidades pequenas. Nossas áreas públicas são públicas demais, ou seja assustam as pessoas pela possibilidade de ser surpreendidas por acidentes desagradáveis. É triste isso. Mas acredito que seja inevitável em se tratando de uma imensa metrópole. As pessoas não trazem na testa escrito o que são e nós tentamos adivinhar se aquele sujeito encostado naquela árvore é apenas um cidadão descançando ou um perigoso assaltante. A maioria adota a postura de desconfiar de todo mundo e é uma pena. Por isso é muito difícil iniciar uma conversa com desconhecido; todos desconfiam de todos. As vezes criamos esteriótipos de que gente mal vestido, mal encarado, é suspeita. Mas isso só isola as pessoas umas das outras. Numa grande cidade todo mundo constróe muro, não só em volta de casa, mas em volta de si mesmo.

terça-feira, setembro 11, 2007

A OUTRA SELVA

Por: Abel Aquino
A região rural do entorno de Santa Cruz de Goiás era bastante montanhosa e os vales pareciam o interior de uma imensa fortaleza. A estrada que eu percorria margeava um estreito rio e de vez em quando via enormes construções cercadas por currais de madeira e com bicas d´água jorrando no quintal. A maioria dessas grandes casas estavam vazias, sem moradores. Mas a terra não estava abandonada, pois, da estrada, eu conseguia ver lavouras bem formadas e pastagens verdes dos dois lados.
Pelo que fiquei sabendo, pouca gente queria permanecer no campo. A maioria mudara para a capital, para a grande cidade.
No entanto Seu Martim teimou em ficar e com ele toda a família. Encontrei-o sentado no degrau da escada da porta da frente de sua modesta casa. Enquanto conversava, suas mãos calejadas dobravam as abas do chapéu encardido, evitando trocar olhares comigo. Falava calmamente e sem grande preocupação.
Até meu irmão foi embora, dizia. - Sei, continuou, que lá ninguém respeita ninguém; é tudo desconhecido... nem filho obedece aos pais. Eu sei disso... concluiu, levantando os olhos rapidamente.
Querem facilidades lá, argumentei.
É - tudo é fácil por um lado e difícil pelo outro. Pra estudar é mais fácil e pra aprender coisa que não presta também é, ponderou.
Você não deixa de ter razão, conclui.

O filho mais velho de Seu Martim devia ter mais de 18 anos e evitava conversar comigo. Era extremamente tímido. Imaginei que a cidade grande não seria realmente um bom lugar para ele viver; seria difícil se adaptar, adquirir os vícios da cidade.

Fiquei pensando comigo:
a vida no campo pode ser monótona e pouca coisa acontece que não tenha acontecido todos os dias. Mas a gente tem um bom controle sobre o próprio espaço. Na cidade a gente precisa, a todo momento, manter relacionamentos com desconhecidos, tem que arriscar nas travessias de ruas, na possibilidade de ser assaltado, enganado e, na maioria das vezes, sem condição de avaliar ameaças e perigos.
A grande cidade é que é uma selva, onde os perigos não são fáceis de avaliar, onde as feras são nossos próprios semelhantes.
Outra coisa que me impressionou, naquela região, foram as tais bicas d´água. Os moradores não faziam poço porque o terreno era muito rochoso. A solução foi construir suas casas próximas dos rios, dos riachos ou de nascentes. Do leito do rio abriam vala, desviando do curso e indo em direção da casa. A vala terminava em uma calha de madeira que elevava a água por um metro e a deixava cair na extremidade, formando a tal bica d´água. Ali podiam colher toda a água necessária, usando gamela, balde ou bacia. As roupas eram lavadas em gamelas ao lado da bica e batidas em prancha de madeira. A noite a gente dormia ouvindo o barulho daquela água, misturado com o pio da coruja, dos curiango e o coaxar dos sapos.

Era princípio de ano e ainda havia mangas nos pomares abandonados. Parei minha bicicleta, abri a porteira e passei o olhar pela parte externa da casa; havia um enorme quintal e não tinha sinal de gente. Só via folhas forrando o chão e poeira amontoada nas guarnições das janelas fechadas.
As mangas amarelas dependuravam dos galhos da mangueira, entre as folhas. Subi pelo grosso tronco, procurei o galha mais carregado de fruta e fui na direção da extremidade. O galho começou a vergar com meu peso. Deitei o corpo, estendi os braços e consegui alcançar uma meia duzia de gordas mangas. Apanhei uma por uma e as joguei ao chão, procurando lançá-las sobre a parte mais coberta de folhas secas para que não se machucassem.
Passei a tarde chupando mangas sentado ao pé da paineira e observando os esquilos correndo pelos galhos do abacateiro do fundo da casa.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

NA TRILHA DA MATA

Por: Abel Aquino
Vou caminhando pela trilha estreita da floresta. Não preciso ter pressa. Vejo pedras de um lado e do outro, algumas apontam suas quinas para dentro da trilha e nossas pernas passam por elas com cuidado. Não há ruido estranho nessa hora. O sol está no ponto mais alto do céu e as folhas das árvores repicam a luz e deixam chegar ao solo somente pedaços disformes de claridade. As folhas mortas estão cobrindo o solo e eu forço a ponta da bota no solo para levantar essa folhas e ver a cor da terra.
Escolho um tronco caído para sentar e fico olhando a minha volta. Observo o movimento das folhas mais altas sobre a pressão do vento. Um pássaro voa de um galho para outro. Neste momento não consigo pensar, lembrar de vozes, de gritos de gente. Estou usufruindo do aroma das ervas e dos gorjeios da natureza.
Meu avô gostava de contar para as crianças as coisas da mata, dos encontros de bichos e homens e a gente ouvia embevecida. Ele sentava ao lado do fogão de lenha, olhava para nossas caras de meninos curiosos, levantava o dedo e falava de fatos e aventuras quase fantásticos. A floresta tornou-se, em nossa imaginação, o reino das histórias quase homéricas, recheadas de casos, sustos e medo.
Mas hoje não tenho medo, não sinto aquela ânsia de imaginar os perigos e imprevistos que podem acompanhar um homem caminhando pelas trilhas da mata.
Tento imaginar como seria a vida de nossos ancestrais, habitando cavernas, desconhecendo ruas, avenidas, carros, arranha-céus, aviões, poluição e vida estressante. Viam apenas matas, ruídos de animais, cantos de pássaros, trilhas, cachoeiras, vales verdes e montanhas pedregosas. Nós ganhamos outro mundo, talvez menos precário, mais confortável, com infinitas possibilidades de lazer e conhecimento, mas a que preço?
Estamos perdendo aquele mundo que povoava nosso solitário ancestral? Há incompatibilidade de mundos? A cidade expõe o quanto o ser humano conseguiu recriar a natureza, adaptá-la às suas necessidades, moldá-la, construir cavernas coletivas, meios de se mover rapidamente por terra água ou por ar, controlar o ambiente, iluminar a noite e comunicar-se rápida e facilmente uns com os outros. Mas, enquanto o ser humano concentra-se em transformar a natureza em coisas mais úteis e práticas, sua mente, seus instintos também foram recriados? As fantásticas leis da aerodinâmica possuem seu equivalente nas leis da razão humana?
Daqui posso ver árvores mortas, raízes expostas, sem contudo abalar a presença da vida, uma diversidade quase impossível de quantificar. Esse região está admiravelmente preservada, tem poucas fazendas de gado, raras estradas de terra e só algumas habitações no fundo dos vales. O povo desse região não é do tipo empreendedor, cultivam terra só para subsistência e próximo à casa. É um povo meio índio. Contudo gosta de caçar e pescar. Agora mesmo ouço tiros de espingarda ao longe. Imagino o caçador, um típico matuto, abatendo a última cerva, quem sabe prenhe. Quem sabe a última representante e sobrevivente de sua espécie. Mas, infelizmente, o caçador não tem essa consciência. Se não ver mais caça, aposenta sua espingarda sem especulação, sem preocupar com a diversidade biológica, com a preservação de animais e plantas. Essa preocupação está presente mais comumente nos indivíduos da cidade. Esses mesmos que vivem na monotonia dos edifícios, das ruas asfaltadas, das praças mal conservadas e, talvez por isso, mais deslumbrados com a natureza.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

MALOGRO

Por: Abel Aquino
Posso rir dos que perdem,
dos que chegam ao nada
e são destroçados.
Mas vi que muitos seguiam,
alguns retornavam,
outros pisavam em círculo,
poucos prosseguiam.
Eu também não venci,
mas fui cambaleando.
Não voltei, perdi o caminho
e nem sei se riram de mim.

ACONTECEU EM UBATÃ

Por: Abel Aquino

DIA DE CASAMENTO

Era dia de casamento no povoado. Felizvaldo, o noivo, levantou cedo, tirou leite das vacas, deu comida para os porcos e as galinhas, arreiou o cavalo e foi vestir roupas novas. No fogão de lenha fumegante ainda permanecia o bule com café. Pegou uma xícara e colocou um pouco de café e tomou de um gole. O gato Remo estava enrodilhado no rabo do fogão, dormindo. Com o barulho do bule batendo na trempe abriu parcialmente os olhos e Felizvaldo passou a mão rápidamente sobre sua cabeça peluda. A luz do sol penetrava pela janela e uma fina nuvem de pó e fumaça pairava no ar. Enquanto vestiu sua roupa domingueira, pensava que talvez os rapazes tivessem razão: uma mulher podia facilitar muito a sua vida, principalmente na hora de lavar e passar a roupa; odiava lavar e passar roupas. Mas uma mulher não era coisa simples de se arrumar, qualquer uma talvez não fosse difícil, mas mulher trabalhadeira e de bom gênio já era quase impossível encontrar.
Olhou pela porta e viu a luz do sol lambendo forte as folhas verdes do capim e fazendo o mato ondular em chispas e brilhos.
Colocou a espora com jeito e sem esquecer do chicote, saiu, encostando a porta. O cavalo arriado ronronou alegre quando viu o dono. Felisvaldo montou deu uma suavel esporeada e o animal saiu trotando.

O PERSONAGEM

Felizvaldo era um solteirão. O povo do pequeno povoado de Ubatã estava sempre querendo arrumar-lhe uma namorada. Ele era tímido, extremamente tímido. Morava num pequeno sítio sozinho, herdado do avô. O pai, ele nunca conheceu. A mãe, era mãe solteira e muito quieta, morreu nova ainda, depois de sofrer de chagas. Certo dia conseguiu uma noiva, Virgínia, a viuva do José Pinho. Felizvaldo estava com 46 anos.
O preparo do casamento foi grande mas na hora o noivo não apareceu. Foram buscá-lo e o encontraram caido à beira da estrada, à sombra de um velho jacarandá. Sua mão ainda segurava a redea do cavalo que pacientemente esperava ao lado do corpo caido. Felizvaldo morrera de ataque do coração, como a mãe.

O ENTERRO

Ubatã era pouco mais que uma rua poeirenta, ladeada por casas de adobe vermelho e cobertas por telha colonial. Naquele domingo não houve missa na pequena igreja, nem os sinos tocaram as seis horas, como fazia sempre. A pracinha estava deserta e apenas o pó rolava ao sabor do vento.
O cortejo vinha pela estrada de terra batida e amarelada. À frente, quatro homens seguravam as alças do caixão, coberto por um pano preto que tocava o chão. Logo atrás seguiam as crianças e as mulheres, mais atrás apareciam os homens, alguns à pé, outros à cavalo. Caminhavam em quase sílêncio, apenas balbuciavam a Ave Maria. Virgínia segurava o terço com as mão tremulas e o véu cobria seu rosto ainda jovem; os olhos vermelhos não vertiam lágrimas embora evidenciassem tristeza e sofrimento.
Ao cruzar as primeiras casas do povoado o cortejo dobrou para a direita, ruma a igreja. O padre estava abrindo as portas. O sacristão correu e puxou as cordas do sino e esse começou a bater lentamente. Os quadro homens subiram com dificuldade os degraus e o ataúde balançou como se fosse cair. Atravessaram a porta, percorreram o corredor ladeado por bancos rusticos de madeira escura e pararam junto ao altar. Outros homens tomaram o lugar dos que haviam trazido até alí o morto. Eleodora trouxe um grande jarro de flores novas e o colocou sobre a manta que descia do altar até o chão. Pediu que alguém buscasse, no fundo, dois tamboretes para apoiar o ataúde e em seguida mandou tirar a tampa. Entre folhas e flores perfumadas via-se o rosto pálido do morto.
Eleodora ainda ajudou o padre a ajeitar o longo hábito de cor beje, passou a fita vermelha sobre seus ombros e foi sentar no primeiro banco, ao lado de Virgínia. Sua mão calejade e forte como mãos de lenhadores leguraram as delicadas mãos da infeliz mulher e seus olhos miudos tentaram reconfortá-la.
O Padre fez o sinal da cruz sobre o ataúde, abaixou a cabeça e começou a rezar, no início com voz baixa, quase inaldível, depois foi aumentando, enquanto repetia o sinal da cruz. Por fim, estendeu as mãos sobre o falecido e clamou:
Pai nosso que estáis nos céus, acolhei este Vosso amado filho,Felisvaldo da Cruz, que agora deixa o convivio dos seus; uma alma pura e singela; sem pecados imperdoáveis aos Vossos olhos; vida dedicada ao bem, ao amor por seu humilde povo, sem jamais ferir alguém com atos ou palavras; que o tenhais enternamente ao Vosso lado, amém!
- Senhor, tenha piedade de nós!
Senhor, tenha piedade de nós! O povo repetiu em coro.
O padre pegou uma cruz de madeira pintada de branco, contornou o caixão e saiu rezando: "Pai nosso que estais nos céus."...
As quatro pessoas, encarregadas de levar o féretro, puxaram com cuidado a tampa, fecharam-no e o levantaram cuidadosamente. Saíram, acompanhando o religioso e foram seguidos pelo povo.
Já na rua, o cortejo seguiu rumo ao cemitério que ficava na colina, ao norte. Passaram ao lado da estação de trem, da serraria e, contornando a chácara do Venâncio, alcançaram o portal de trepaderias que adornavam a entrada.
Virgínia foi a primeira a lançar, sobre o caixão no fundo da cova, o ramalhete de flores que trazia na mão. Depois pegou um punhado de terra e o lançou também. O padre continuava a rezar baixinho, acompanhado pelas mulheres. Virgínia puxou novamente o véu sobre o rosto e afastou-se lentamente. Enquanto o coveiro jogava terra sobre o caixão, o povo foi se retirando. O sol começava a aquecer a terra e as sombras das árvores encolhiam-se por sobre as lápides manchadas de cera de velas. Rapidamente o povoado voltou a sua normalidade.