sábado, fevereiro 07, 2009

O TRÁGICO E A SIMPLICIDADE

Fiquei intrigado quando descobri que havia gente morando no alto da montanha. Pela estrada via o terreno coberto de pedras e fendas cortando picos rochosos. Era uma paisagem árida e bruta. Alguém poderia viver alí? O caminho seguia fazendo curvas para a esquerda e depois para a direita. O sol forte brilhava sobre as folhas das árvores retorcidas que teimavam em agarrar-se nas encostas pontilhadas de rochas avermelhadas. Alguns quilômetros adiante abria-se um planalto e o mato adensava. Mais alguns metros e pude ver uma casinha de tijolo cru. Do cume, ao norte, nascia um filete de água transparente e fria, passava por entre pedras enormes soltas no terreno e caía numa pequena represa, ao lado da construção. Ao leste havia um pequeno curral de madeira roliça, com partes caídas e a porteirinha amarrada com cordas. Quando me aproximei, uma senhora surgiu do terreiro do fundo, limpando as mão no avental encardido. Duas crianças corriam ao seu lado e chegaram primeiro ao meu encontro. Cumprimentei a todos e a senhora convidou-me para entrar sem perguntar o que eu fazia alí. Procurei pelo dono da casa e ela me disse que estava na roça, mas logo voltaria. Convidou-me para sentar e explicou que iria à cozinha preparar o café.
Alguns minutos depois o homem surgiu pela porta dos fundos. Era um homem baixo franzino, moreno, com a pele curtir pelo sol. Tirou o chapéu e veio me cumprimentar. Parecia não me ver como estranho. Apertou virilmente minha mão, sorrindo e balançando a cabeça para a frente em sinal de respeito. Não parecia que estava me vendo pela primeira vez. Nenhuma curiosidade em seu olhar, embora evitasse me encarar. A mulher surgiu com um pires à mão, equilibrando o copo de louça branca cheio de café cheiroso. Peguei o pires com a mão direita, passei para a esquerda e com a mão livre levei o copo a boca. O café estava delicioso. Voltei a me sentar e puxei conversa.
- Não imaginava haver gente morando nessas alturas, comentei.
- É difícil mesmo. Mas tem mais outros dois moradores nas redondezas, explicou o anfitrião.
Sua mulher permanecia de pé ao seu lado. Vi as crianças cochichando junto à porta que separava a sala da cozinha. A mulher arrastou uma cadeira para o marido e se retirou.
O homem sentou-se e perguntou meu nome.
- Meu nome e Thomaz.
- Meu nome é Zé. José Arimatéia, mas o pessoal me chama de “Rima”.
- È difícil aparecer gente aqui, comentou.
- Acredito, respondi. - Fico contente que me tenha recebido bem em sua casa.
- Há! Visita é sempre uma felicidade pra gente que vive tão só nesse sertão, afirmou com um leve sorriso.
- Imagino, conclui.
- O senhor fica pro almoço? Perguntou.
- Não sei se é possível. Estou fazendo levantamento dos habitantes da região para a Sucam, expliquei.
- Você é dos Malárias.
- Sim, respondi sorrindo.
- (Malárias são conhecidos os agentes de saúde que trabalham na campanha de combate a malária e outras endemias pelo interior de Goiás)
O casal de criança corria de um lado para o outro em volta de nós. O pai ralhou com eles para que ficassem quietos.
Perguntei o nome do menino que olhava para mim, tentando aquietar-se.
- Zildo, respondeu o menino.
- Fala direito seu nome, moleque! zangou-se o pai. – É Ezildo, moço, conclui o homem, dando um leve tapa na cabeça do filho.
- E o seu? Perguntei para a menina que parecia ser mais nova que o garoto.
- É Marta, respondeu, escondendo atrás do pai.
- E quantos anos você tem?
- 6 anos.
- Você é muito bonita, elogiei a menina.
Ela sorriu envergonhada. Puxou o irmão pelo braço como que querendo que eu voltasse a fazer perguntas a ele.
- Você tem mais filhos? Perguntei a pai.
- Tenho outra filha mulher que está com a avó na cidade.... pra poder estudar.
- Entendo, balancei a cabeça em aprovação. – E esses dois ainda não estão na escola?
- Não sei como fazer. O garoto já fez 7 anos, mas aqui não tem escola. – Penso em ir pra a cidade pra eles estudar. Só que lá preciso de emprego. Aqui planto minha roça e trabalho pros fazendeiros... só sei mexer com gado e lavoura.
Olhei para fora e vi que o sol brilhava mais alto e que as horas estavam passando. Despedi-me deles e saí em direção ao sul a procura dos outros moradores. Antes do cair da tarde precisava voltar, descer a serra até Santa Cruz, onde estava hospedado.
A paisagem daquela montanha não tinha beleza como em outras regiões. Havia muita pedra e as árvores eram pequenas espinhentas e retorcidas. Nos pequenos vales com planícies estreitas, cortadas por riachos, os moradores plantavam lavouras, principalmente milho e feijão. As planícies úmidas que vi não passavam de uns duzentos metros de largura. Muitas vezes os córregos eram represados para que formassem pequenas lagoas, onde criavam peixes e desviavam água para suas casas.
Voltei diversas vezes à montanha da Contenda e sempre tomava café na casa de taipa do Rima. Zeneide, sua esposa, preparava um saboroso café que eu sorvia acompanhado de pedaços de queijo ou batata doce que ela trazia numa bandejinha de lata.
As crianças adoravam prosear comigo. Eu sentava no banco de troncos que ficava do lado de fora da casa e Ezildo e Marta ficavam pulando a minha frente, gesticulando e balançando o corpo como numa dança. Marta apesar de menor era mais conversadeira e alegre; seus cabelos, meio rebeldes, cacheados caiam nos ombros e cobriam parte do rosto. Ela constantemente puxava com as pontas dos dedos as mexas e passava para trás das orelhas. Ezildo gostava de contar dos tombos que sua irmã tomava, como no dia em que atravessavam o riacho, pulando de pedra em pedra; Marta acabou caindo e molhando-se toda ou quando ela correu da vaca que viera cheirá-la inofencivamente.

No final do verão voltei à casa do Rima, durante minhas periódicas rondas de avaliação de controle de endemias, no caso para detecção da presença do percevejo bicudo, causador da doença de Chagas.
A casinha de adobe estava com a porta e a janela abertas, mas não vi gente nem os cães. Parei próximo à porta e gritei:
- ô, de casa! Silêncio.... só ouvi o cacarecar das galinhas, ciscando um monte de gravetos.
- Ô, de casa! Repeti.
Dei a volta em torno da casa, vi que a porta da cozinha também estava aberta, mas não havia ninguém. Olhei para o sul, no rumo da roça, para o norte, na direção da nascente do riacho e não vi gente alguma. Caminhei para a frente da casa e peguei a estrada de volta. Então vi o Rima surgir por detrás das rochas vermelhas, trazendo um bezerrinho nos braços. Zeneide o acompanhava e mais atrás vinha o menino. Esperei que eles se aproximassem, cumprimentei-os sem pegar a mão e seguimos em direção do curral, onde Rima colocou o bezerro.
- O Sr ‘tá bem, seu Thomaz! Perguntou sorrindo e estendendo o braço.
- Eu estou bem, Rima, e vocês?
- ‘Tamos como Deus quer, respondeu. – Vamos chegar, convidou-me, seguindo lentamente em direção à porta da casa. Olhei para Ezildo , o garotinho. Ele tinha um boné cinza empoeirado na cabeça e me olhou sem muita alegria. Bati, de leve, a mão nas suas costas e caminhei com eles. Zeneide foi na frente.
Entramos na casinha e Rima puxou uma cadeira e ofereceu-me para sentar.
- Onde está a Marta? Perguntei.
Os dois se entreolharam, ficaram alguns segundos em silêncio. Rima olhou para mim, sério.
- A nossa filhinha morreu... afirmou baixando os olhos.
- Como assim? Ela morreu? Perguntei incrédulo.
- É verdade, cochichou.
- Mas como ela morreu? Insisti.
- Foi picada de cobra.
- Picada de cobra? Mas hoje em dia ninguém morre de picada de cobra, comentei. E continuei: - é só levar ao médico.
- É mas a gente levou ao benzedor.
- Estão brincando? Perguntei incrédulo.
- É, mas ele benzeu o filho do Joaquim e o veneno não fez nada com ele.
- Mas Rima! Exclamei revoltado. – Nem sempre a cobra mata ou tem veneno suficiente para matar. Vocês deviam ter levado a menina ao hospital.
- Daqui é difícil, justificou Rima cabisbaixo e envergonhado.
- Fosse de cavalo até a fazenda mais próxima.
- Eu sei, respondeu. Quem sabe era o destino dela... concluiu resignado.
Fiquei calado, remoendo por dentro. Aquele casal vivia uma vida tão simples, tão inculta que o mundo deles não era o meu mundo. Viviam isolados, não frequentavam a igreja, não conheciam gente com estudo para trocar informações sobre a vida e até mesmo sobre o mundo de hoje. Eu, sinceramente não sabia o que dizer a eles.
Tentei reconfortá-los.
- Ela deve estar descansando no céu, afirmei sem muita convicção.
- Jesus há de cuidar dela, exclamou Zeneide, a mãe.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

O homem tossia todo o dia e toda a noite. Da minha casa, ouvir aquilo me angustiava. Nos dias de calor e sol ele tossia, nos dias de chuva ele tossia, nos dias de frio e vento ele tossia. Sua mulher fazia chá e o cheiro do chá quente espalhava-se pela redondeza. Os vizinhos iam visitá-lo e saiam cabisbaixos e silenciosamente caminhavam para suas casas. Nunca vi um médico visitá-lo; apenas o enfermeiro vinha, diariamente, aplicar-lhe injeção. Diziam que o medico o havia desenganado. Alguns vizinhos não o visitavam porque temiam que sua doença fosse contagiosa, outros evitavam visitá-lo porque não queriam sentir pena. Sua família não era grande. Os filhos, as vezes, brincavam no quintal, mas a maior parte do tempo ficavam com os avós. Na frente da casa havia uma palmeira, um belo pé de jerivá com três cachos carregados de coquinhos amarelos. Os periquitos gostavam de assentar alí e comer os frutos enquanto faziam uma enorme e estridente algazarra.
Quando a esposa saia na rua eu a observava caminhar em direção do mercadinho. Seus passos eram lentos e vacilantes, seu corpo inclinava ora para um lado ora para o outro. Parecia uma mulher fraca e triste, embora sem ar de doente. Seus cabelos eram mal cuidados e os pés calçavam uma sandália de tiras simples e desgastadas.
Mas a todo o tempo o homem tossia.
A gente desejava poder ajudar, poder fazer alguma coisa que curasse aquela criatura mas nada vinha a mente. Fui visitá-lo numa tarde fria e garoenta. Ele estava deitado na cama de solteiro armada no meio do quarto. Esta ficava bem no centro, de forma que as pessoas que o visitavam podiam rodear a mesma e observá-lo de todos os ângulos. O doente acompanhava a gente com o olhar e seus braços descansavam sobre o cobertor que cobria seu corpo. O travesseiro era alto e uma toalha encardida ficava amassada ao lado. Quando começava a tossir, ele pegava a pequena toalha e a leva a boca como que para expelir menos bactérias aos visitantes.

Numa noite calma e com lua cheia a tosse cessou. A casa ficou em silêncio. Apenas um pouco de luz escapava pelas frestas da janela do quarto. Não ouvi choro nem lamentos. Tudo estava quieto.Apenas os latidos dos cães da rua e o cricri dos grilos do quintal quebravam o torpor do ar fresco e leve da madrugada.
De manhã vieram contar que o vizinho havia morrido.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Abandono



A mãe não quis o filho...
Ninguém o quis naquela manhã,
Abandonado à beira da estrada.
No ar frio, suas perninhas agitavam.
Os carros passavam uns pelos outros,
Buzinas, pneus na lama vermelha.
O corpo sobre o pano mal lavado,
As mãozinhas atacando o ar gelado
Da primavera chuvosa.
Algumas rolinhas assustadas
Esticavam o pescoço e ouviam o choro.
Os automóveis passavam...
Alguém parou,
Outros fizeram uma roda.
Nos braços daquela mulher,
Ouvindo vozes e suspiros,
O bebezinho sorriu!

terça-feira, setembro 30, 2008

ERA UMA NOITE VAZIA

Abel Aquino

As largas ruas da pequena cidade estavam vazias naquela madruga de inverno. Alguns cães procuravam restos de lixo nos cantos de muros manchados de umidade. Hugo caminhava sem pressa e angustiado. Havia poucas luzes acesas nos postes de madeira e as partes mais escuras ocultavam os contornos das casas. Quando chegou em frente da sua casa, Hugo parou por alguns segundos, aguçou os ouvidos e não percebeu nenhum ruido ou movimento no interior. Abriu lentamento o portão, passou para dentro e encostou-o mais devagar ainda, evitando fazer qualquer ruido. Seu cão surgiu balançando o rabo e grunhindo. Agachou para acariciá-lo antes que começasse a latir e por instante desejou dar meia volta e ir embora. Enfiou a mão direita no bolso, retirou a chave e aproximou-se da porta. Encaixou a chave na fechadura e girou sem pressa. A porta abriu com um leve gemido das dobradiças. Depois de fechá-la, caminhou no escuro, tocando com as pontas dos dedos nos moveis, cuidando para não esbarrar em nenhuma cadeira e seguiu até a cozinha. Pegou um copo sobre a mesa, encheu de água do pote de barro e bebeu. Ouviu um leve ruido vindo da sala. Olhou naquela direção e viu o vulto de uma pessoa. Hugo gelou.
Sua mulher parou debaixo do umbral da porta que dividia a sala da cozinha e perguntou com a voz rouca e soturna.
- Onde ‘ocê estava, seu traste!
- Bem.... eu.... estava no bar do Chico com amigos... jogando baralho e nem vi as horas passar.
- ‘Ocê me prometeu parar com isso, Hugo!
- Eu sei... mas....
- ‘Ocê é uma porcaria de marido e um péssimo pai.... um sem vergolha!
- Eu não fiz nada grave.... só joguei e bebi um pouco.
- Bebeu um pouco?! Estou sentindo seu bafo de alcool daqui!
- É... bebi um tanto....
- ‘Ocê é cara de páu, Hugo!
- ´Stá me ofendendo....
- Há! Agora tem sentimentos? E sentimentos pros filhos, pra familia?
- É....mas não precisa me lembrar do que tenho que fazer.
- ‘Ocê não tem conserto, Hugo! Vai dormir no sofá e amanhã a gente tem muito que conversar.
Zilda deu meia volta e seguiu para o quarto, batendo a porta. Hugo ouviu o ruido da chave, trancando a fechadura.
Acendeu a luz da sala e procurou alguma coisa para se cobrir. Sobre a poltrona havia uma manta dobrada. Pegou-a. Sentou-se no sofá, soltou os cadarços dos sapatos e espreguiçou. Retirou mecanicamento os sapatos e as meias. Deitou no velho sofá com a cabeça apoiada no canto, jogou a manta sobre o corpo e suspirou. A única coisa que sentia era sono, uma profunda vontade de dormir. Fechou os olhos. Tudo girava dentro de sua cabeça mas sua alma estava serena. Perguntou a si mesmo: - será que eu não tenho juizo mesmo?
Estava tonto demais para pensar; precisava dormir e então dormiu.

quarta-feira, abril 30, 2008

SERRA DA CANASTRA


Aqui nasce o rio São Francisco


Quando a gente viaja pela primeira vez para a Serra da Canastra, há sempre a ansiedade da chegada, do momento em que ela surgirá no horizonte da maneira o mais portentosa possível. No trecho sem asfalto de Piuhmi até São Roque a gente já começa a entrar no clima, ao presenciar a paisagem mais agreste e rude. A poeira da estrada dá a sensação de que a civilização ficou para trás. E sobe morro, desce morro, curva para a direita, curva para a esquerda e a gente de olho no horizonte a procura de vestigio do paredão que se vê nas fotos promocionais. Cruzamos uma pontezinha mal conservada, sobre rio de pouca água e vemos a placa indicando que alí passa o lendário Rio São Francisco. Há um pouco de desapontamento. Do outro lado, a estrada poeirenta segue serpenteando até que avistamos a encruzilhada. À direita segue-se para São Roque, à esquerda segue-se para a cachoeira Casca D'anta, a mais volumosa queda d'água do parque. Quarquer lado que escolher, a gente estará indo em direção da Serra mas terá dificuldade de vê-la por inteiro.

É preciso ir rodeando-a por estradas estreitas e sinuosas, às vezes bem próximo, às vezes mais distante. Há momentos em que é imperativo parar, descer do carro, subir ao barranco e vislumbrar os paredões recortados por quedas d`águas. No lado sul, por onde desce o Rio São Francisco – ainda nos seus primeiros quilômetros de existência – é que se pode presenciar toda a magestade da montanha, estendendo-se como imensa muralha de granito, coberta por vegetação rasteira, arbustos retorcidos e cachoeiras. Viaja mais alguns quilômetros por estrada paralela ao paredão e, depois de passar por casas de fazendas feitas de adobe, cobertas com telha colonial, portas e janelas de madeira lavrada, chega-se a entrada oficial do parque.


A PRIMEIRA VIAGEM

Levantamos cedo, antes do raiar do sol como dizem os camponeses, e seguimos pela estreita estrada que nasce ao lado do cemiterio e segue rumo a portaria principal do parque, no alto da serra. O muro do cemitério é feito de pedras caprichosamente encaixadas umas nas outras de forma que não há espaço entre elas. Musgos e algas verdes crescem por entre os encaixes e dão uma aparência centenária ao muro. Enquanto subiamos, fomos tragados pela neblina e só podiamos ver por meros 4 metros a nossa frente. o jeep ia lentamente subindo e fazendo as curvas ao redor de morros cada vez mais altos. Quando alcançamos a portaria mal podiamos ver a cancela e a construção de pedra que abriga os guardas e o pequeno escritório.
Portaria principal do parque.
Passada a portaria seguimos subindo por mais algumas centenas de metros e então começamos a sair da neblina e conseguimos ver a chamada casa de pedra. Passamos por ela e alcançamos a campina, onde o capim é baixo e exisntem poucas árvores, a maioria pequenas e retorcidas. A campinas fica num planalto, com suaves ondulações do terreno de forma que destacam as pontas das pedras das partes mais altas e as grotas nas partes baixas. Mais a frente avistamos a baixada onde nasce o São Francisco.
Paramos o jipe junto à pequena ponte de madeira, descemos e seguimos a trilha em direção do riacho. Parei ao lado da água e num passo atravessei o São Francisco que ali tem 60 cm de largura.

Caminhamos em direção do Monumento que colocaram em homenagem ao Santo que emprestou o nome ao rio. A Estatua está protegida por cercado de pedras, recolhidas na redondeza.

Alguns quilômetros depois da nascente já não consegui atravessar o rio nem com dez passos. Ali encontramos a primeira cachoeira.

Dentro do parque, Casca D’anta é a maior cachoeira do Rio São Francisco.. Alí as águas se lançam do alto da montanha e arrebentam-se lá embaixo com enorme barrulho. Depois o rio prossegue mais sossegado, contornando a serra, saltando pedras, margeado por matas, sinuosamente rolando, para seguir seu longo caminho a procura do mar.
Mas do alto da montanha, aconpanhando a água, dá para ver só um pequeno pedaço da cachoeira. E olhando no fundo do vale o rio reaparece. Dá para ver a outra portaria do parque, a uns quinhentos metros do pé da serra.

Planalto dentro do parque.

Cachoeira do Serradão nas proximidades do parque. Essa cachoeira faz parte do circuito turistico da região.



Campina das terras altas.


Carro de boi, comum na região. Pena que a maioria desses carros foram abandonados pelos cantos das fazendas. Foram substituidos por camionetes e jipes.

Frondoso piquizeiro que cresceu todo inclinado na encosta da montanha.

Fomos visitar um morador da região. A casa tinha o curral na frente e pomar no fundo. O sítio não deveria ser grande e, da janela da sala, pude ver os contra fortes da imensa montanha. Aquela familia não tinha luxo mas vivia num razoavel conforto. A comida é sempre boa nesses lugares. O próprietário fabricava queijo e para isso mantinha uma casinha ao lado, toda bem fechada, com prateleiras junto às paredes repletas de queijos para curtir. Proseamos com aquela familia até alta hora da noite e no final já éramos íntimos de todo o mundo. Comemos uma espécie de bolinho em formato de charuto e envolto em casca de bananeira. Muito delicioso. Brincamos com o formato do bolinho que lembrava o orgão sexual masculino.

Sede de fazenda cercada por muro de pedra como muitas das que existem no entorno do parque.
A sensação que a gente tem, quando no alto da serra, no planalto levemente ondulado, é de estar mais próximo do céu. As núvens passam baixas e o vento sopra forte e dobra o capim para um lado e para o outro. Por entre o capim, aparecem pedras enormes, manchadas de musgos e enegrecidas pelas frequentes queimadas que acontecem na estação da seca. Alí o céu é baixo mas o horizonte parece quase infinito.
Num primeiro momento a gente não percebe a grandeza do parque.
É curioso, mas é depois de caminhar bastante, ir a muitos lugares diferentes, visitar cachoeiras, subir penhascos, descer caminhos tortuosos e percorreu as curvas do rio, ainda riacho, é que a gente se dá conta da imensidão desse lugar.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Vigília

Sobre o monte de palhas,
O cachorro dorme enrodilhado.
O menino cata sabugos,
Conversa sozinho e
Faz pipi entre os pés de mandioca.
Dentro da casa as mulheres
Choram o morto à luz de velas.

Apocalipse

O homem e sua espécie de barro,
a sombra sem forma
de nossas gastas escrituras
e a tenaz que não falha.
Mas somos tolos,
com sonhos de travesseiro.
Foi numa manhã:
fizemos montes de areia,
muros, abrigos, marca de dedos.
O gado passou
e o vaqueiro sorriu!
Ficamos olhando nossa cidade
esmigalhada pelas patas pesadas,
as orelhas balançando,
os chifres reluzindo ao sol;
e rimos de nosso mundo desfeito.

Lama Vermelha

Depois da chuva a moça saiu pela estrada. Tirou os sapatos, segurou-os na mão esquerda e, com a direita, levantou as pontas da saia e foi pulando por entre as poças. Os amassa-barros gorjeavam ao lado de suas casinhas no galho das árvores. O caminho era estreito e as folhas das árvores forravam as bordas, ocultando a lama. A moça tinha pressa, quase corria. Seus cabelos esvoaçavam e a gola de sua blusa amarela agitava-se com o vento. Quando chegou à estrada principal, olhou para o norte. Lá distante apontava um carro vermelho. Colocou os sapatos rapidamente. O ronco do motor chegava baixinho, mas foi aumentando. Já podia ver os detalhes do carro; o para-brisa enlameado, o retrovisor dobrado numa posição estranha. Ele se aproximava chapinhando o barro vermelho e as poças dágua abriam-se em ondas raivosas. Quando o carro parou ao seu lado, a moça dobrou-se na ponta dos pés, esticou a cabeça, e recebeu um gostoso beijo do motorista. Pegou sua mão e por um instante olhou dentro de seus olhos. Ele sorria levemente. Ficou parado por alguns minutos - trocaram palavras em voz baixa - depois ele disse tchau e seguiu em frente. A moça permaneceu imóvel por um tempo, feliz, abanando a mão. Retirou novamente os sapatos, segurou-os na mão esquerda e com a direita levantou as pontas da saia e foi pulando por entre as poças, de volta para casa, agora sem pressa, saboreando o gosto do beijo que ficou em seus lábios.

Panambi

Fomos almoçar no restaurante vegetariano. Alí a gente pode saborear uma variedade enorme de comida. Gosto de começar pela sopa de ervilha, depois como saladas e finalmente passo para os pratos quentes: torta de legumes, quibes, bolinhos e macarrão. Não posso deixar de falar do pãozinho que acompanha a sopa e é uma delícia.
Depois fomos andar um pouco no parque do Panambi, batizado de Burle Marx. Ali foram construidas três trilhas pela mata; uma com mais de um quilomentro, outra menor e a última de pouco mais de trezentos metros. As trilhas percorrem - desde um pequeno lago e subindo - as partes mais densas da mata e a gente caminha sob a sombra, contornando raizes e troncos de coqueiros. O ar está impregnado do cheiro das folhas e do humus. Há uma árvore caída e eu resolvemos caminhar por ela como se fosse por uma pinguela. Andamos por todas as três trilhas e percorremos até os atalhos.
Depois fomos para a área de gramado, onde as pessoas - muitos casais com seus filhos - descançam e deixam o tempo passar. As crianças percorrem as alamedas com suas pequenas bicicletas e velocípedes, enquanto os casais de namorados conversam abraçados e olham as placas que indicam os nomes das diferentes árvores.
É inicio de inverno e o tempo está um pouco frio. O sol não chega a aquecer as nossas costas. Resolvemos sentar numa mureta de pedra com os pés suspensos no ar e podendo ver toda a parte baixa do parque, desde a entrada do estacionamente, onde cresce uma enorme touceira de bambu, até a outra extremidade, com enormes jaboticabeiras que fazem sombra sobre as ruinas de uma casa antiga, com paredes de adobe, um tipo de tijolo cru, comum na era colonial.
Depois de mais ou menos uma hora alí sentados, namorando e relaxando o corpo e a alma, resolvemos ir embora. O dia estava terminando.
Um dos maiores problemas dos parques de São Paulo é a superlotação e com ela o acúmula de lixo e a presença de gente de todo tipo. Isso trás intranquilidade. Não sabemos quem está ali para relaxar, quem está para passear ou quem está para roubar. O parque do Ibirapuera é um exemplo disso. Uma cidade grande tem essa característica de você ser obrigado a conviver com desconhecidos, com gente de todas as partes do país. É preciso adotar certa atitude que não teria em cidades pequenas. Nossas áreas públicas são públicas demais, ou seja assustam as pessoas pela possibilidade de ser surpreendidas por acidentes desagradáveis. É triste isso. Mas acredito que seja inevitável em se tratando de uma imensa metrópole. As pessoas não trazem na testa escrito o que são e nós tentamos adivinhar se aquele sujeito encostado naquela árvore é apenas um cidadão descançando ou um perigoso assaltante. A maioria adota a postura de desconfiar de todo mundo e é uma pena. Por isso é muito difícil iniciar uma conversa com desconhecido; todos desconfiam de todos. As vezes criamos esteriótipos de que gente mal vestido, mal encarado, é suspeita. Mas isso só isola as pessoas umas das outras. Numa grande cidade todo mundo constróe muro, não só em volta de casa, mas em volta de si mesmo.

terça-feira, setembro 11, 2007

A OUTRA SELVA

Por: Abel Aquino
A região rural do entorno de Santa Cruz de Goiás era bastante montanhosa e os vales pareciam o interior de uma imensa fortaleza. A estrada que eu percorria margeava um estreito rio e de vez em quando via enormes construções cercadas por currais de madeira e com bicas d´água jorrando no quintal. A maioria dessas grandes casas estavam vazias, sem moradores. Mas a terra não estava abandonada, pois, da estrada, eu conseguia ver lavouras bem formadas e pastagens verdes dos dois lados.
Pelo que fiquei sabendo, pouca gente queria permanecer no campo. A maioria mudara para a capital, para a grande cidade.
No entanto Seu Martim teimou em ficar e com ele toda a família. Encontrei-o sentado no degrau da escada da porta da frente de sua modesta casa. Enquanto conversava, suas mãos calejadas dobravam as abas do chapéu encardido, evitando trocar olhares comigo. Falava calmamente e sem grande preocupação.
Até meu irmão foi embora, dizia. - Sei, continuou, que lá ninguém respeita ninguém; é tudo desconhecido... nem filho obedece aos pais. Eu sei disso... concluiu, levantando os olhos rapidamente.
Querem facilidades lá, argumentei.
É - tudo é fácil por um lado e difícil pelo outro. Pra estudar é mais fácil e pra aprender coisa que não presta também é, ponderou.
Você não deixa de ter razão, conclui.

O filho mais velho de Seu Martim devia ter mais de 18 anos e evitava conversar comigo. Era extremamente tímido. Imaginei que a cidade grande não seria realmente um bom lugar para ele viver; seria difícil se adaptar, adquirir os vícios da cidade.

Fiquei pensando comigo:
a vida no campo pode ser monótona e pouca coisa acontece que não tenha acontecido todos os dias. Mas a gente tem um bom controle sobre o próprio espaço. Na cidade a gente precisa, a todo momento, manter relacionamentos com desconhecidos, tem que arriscar nas travessias de ruas, na possibilidade de ser assaltado, enganado e, na maioria das vezes, sem condição de avaliar ameaças e perigos.
A grande cidade é que é uma selva, onde os perigos não são fáceis de avaliar, onde as feras são nossos próprios semelhantes.
Outra coisa que me impressionou, naquela região, foram as tais bicas d´água. Os moradores não faziam poço porque o terreno era muito rochoso. A solução foi construir suas casas próximas dos rios, dos riachos ou de nascentes. Do leito do rio abriam vala, desviando do curso e indo em direção da casa. A vala terminava em uma calha de madeira que elevava a água por um metro e a deixava cair na extremidade, formando a tal bica d´água. Ali podiam colher toda a água necessária, usando gamela, balde ou bacia. As roupas eram lavadas em gamelas ao lado da bica e batidas em prancha de madeira. A noite a gente dormia ouvindo o barulho daquela água, misturado com o pio da coruja, dos curiango e o coaxar dos sapos.

Era princípio de ano e ainda havia mangas nos pomares abandonados. Parei minha bicicleta, abri a porteira e passei o olhar pela parte externa da casa; havia um enorme quintal e não tinha sinal de gente. Só via folhas forrando o chão e poeira amontoada nas guarnições das janelas fechadas.
As mangas amarelas dependuravam dos galhos da mangueira, entre as folhas. Subi pelo grosso tronco, procurei o galha mais carregado de fruta e fui na direção da extremidade. O galho começou a vergar com meu peso. Deitei o corpo, estendi os braços e consegui alcançar uma meia duzia de gordas mangas. Apanhei uma por uma e as joguei ao chão, procurando lançá-las sobre a parte mais coberta de folhas secas para que não se machucassem.
Passei a tarde chupando mangas sentado ao pé da paineira e observando os esquilos correndo pelos galhos do abacateiro do fundo da casa.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

NA TRILHA DA MATA

Por: Abel Aquino
Vou caminhando pela trilha estreita da floresta. Não preciso ter pressa. Vejo pedras de um lado e do outro, algumas apontam suas quinas para dentro da trilha e nossas pernas passam por elas com cuidado. Não há ruido estranho nessa hora. O sol está no ponto mais alto do céu e as folhas das árvores repicam a luz e deixam chegar ao solo somente pedaços disformes de claridade. As folhas mortas estão cobrindo o solo e eu forço a ponta da bota no solo para levantar essa folhas e ver a cor da terra.
Escolho um tronco caído para sentar e fico olhando a minha volta. Observo o movimento das folhas mais altas sobre a pressão do vento. Um pássaro voa de um galho para outro. Neste momento não consigo pensar, lembrar de vozes, de gritos de gente. Estou usufruindo do aroma das ervas e dos gorjeios da natureza.
Meu avô gostava de contar para as crianças as coisas da mata, dos encontros de bichos e homens e a gente ouvia embevecida. Ele sentava ao lado do fogão de lenha, olhava para nossas caras de meninos curiosos, levantava o dedo e falava de fatos e aventuras quase fantásticos. A floresta tornou-se, em nossa imaginação, o reino das histórias quase homéricas, recheadas de casos, sustos e medo.
Mas hoje não tenho medo, não sinto aquela ânsia de imaginar os perigos e imprevistos que podem acompanhar um homem caminhando pelas trilhas da mata.
Tento imaginar como seria a vida de nossos ancestrais, habitando cavernas, desconhecendo ruas, avenidas, carros, arranha-céus, aviões, poluição e vida estressante. Viam apenas matas, ruídos de animais, cantos de pássaros, trilhas, cachoeiras, vales verdes e montanhas pedregosas. Nós ganhamos outro mundo, talvez menos precário, mais confortável, com infinitas possibilidades de lazer e conhecimento, mas a que preço?
Estamos perdendo aquele mundo que povoava nosso solitário ancestral? Há incompatibilidade de mundos? A cidade expõe o quanto o ser humano conseguiu recriar a natureza, adaptá-la às suas necessidades, moldá-la, construir cavernas coletivas, meios de se mover rapidamente por terra água ou por ar, controlar o ambiente, iluminar a noite e comunicar-se rápida e facilmente uns com os outros. Mas, enquanto o ser humano concentra-se em transformar a natureza em coisas mais úteis e práticas, sua mente, seus instintos também foram recriados? As fantásticas leis da aerodinâmica possuem seu equivalente nas leis da razão humana?
Daqui posso ver árvores mortas, raízes expostas, sem contudo abalar a presença da vida, uma diversidade quase impossível de quantificar. Esse região está admiravelmente preservada, tem poucas fazendas de gado, raras estradas de terra e só algumas habitações no fundo dos vales. O povo desse região não é do tipo empreendedor, cultivam terra só para subsistência e próximo à casa. É um povo meio índio. Contudo gosta de caçar e pescar. Agora mesmo ouço tiros de espingarda ao longe. Imagino o caçador, um típico matuto, abatendo a última cerva, quem sabe prenhe. Quem sabe a última representante e sobrevivente de sua espécie. Mas, infelizmente, o caçador não tem essa consciência. Se não ver mais caça, aposenta sua espingarda sem especulação, sem preocupar com a diversidade biológica, com a preservação de animais e plantas. Essa preocupação está presente mais comumente nos indivíduos da cidade. Esses mesmos que vivem na monotonia dos edifícios, das ruas asfaltadas, das praças mal conservadas e, talvez por isso, mais deslumbrados com a natureza.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

MALOGRO

Por: Abel Aquino
Posso rir dos que perdem,
dos que chegam ao nada
e são destroçados.
Mas vi que muitos seguiam,
alguns retornavam,
outros pisavam em círculo,
poucos prosseguiam.
Eu também não venci,
mas fui cambaleando.
Não voltei, perdi o caminho
e nem sei se riram de mim.

ACONTECEU EM UBATÃ

Por: Abel Aquino

DIA DE CASAMENTO

Era dia de casamento no povoado. Felizvaldo, o noivo, levantou cedo, tirou leite das vacas, deu comida para os porcos e as galinhas, arreiou o cavalo e foi vestir roupas novas. No fogão de lenha fumegante ainda permanecia o bule com café. Pegou uma xícara e colocou um pouco de café e tomou de um gole. O gato Remo estava enrodilhado no rabo do fogão, dormindo. Com o barulho do bule batendo na trempe abriu parcialmente os olhos e Felizvaldo passou a mão rápidamente sobre sua cabeça peluda. A luz do sol penetrava pela janela e uma fina nuvem de pó e fumaça pairava no ar. Enquanto vestiu sua roupa domingueira, pensava que talvez os rapazes tivessem razão: uma mulher podia facilitar muito a sua vida, principalmente na hora de lavar e passar a roupa; odiava lavar e passar roupas. Mas uma mulher não era coisa simples de se arrumar, qualquer uma talvez não fosse difícil, mas mulher trabalhadeira e de bom gênio já era quase impossível encontrar.
Olhou pela porta e viu a luz do sol lambendo forte as folhas verdes do capim e fazendo o mato ondular em chispas e brilhos.
Colocou a espora com jeito e sem esquecer do chicote, saiu, encostando a porta. O cavalo arriado ronronou alegre quando viu o dono. Felisvaldo montou deu uma suavel esporeada e o animal saiu trotando.

O PERSONAGEM

Felizvaldo era um solteirão. O povo do pequeno povoado de Ubatã estava sempre querendo arrumar-lhe uma namorada. Ele era tímido, extremamente tímido. Morava num pequeno sítio sozinho, herdado do avô. O pai, ele nunca conheceu. A mãe, era mãe solteira e muito quieta, morreu nova ainda, depois de sofrer de chagas. Certo dia conseguiu uma noiva, Virgínia, a viuva do José Pinho. Felizvaldo estava com 46 anos.
O preparo do casamento foi grande mas na hora o noivo não apareceu. Foram buscá-lo e o encontraram caido à beira da estrada, à sombra de um velho jacarandá. Sua mão ainda segurava a redea do cavalo que pacientemente esperava ao lado do corpo caido. Felizvaldo morrera de ataque do coração, como a mãe.

O ENTERRO

Ubatã era pouco mais que uma rua poeirenta, ladeada por casas de adobe vermelho e cobertas por telha colonial. Naquele domingo não houve missa na pequena igreja, nem os sinos tocaram as seis horas, como fazia sempre. A pracinha estava deserta e apenas o pó rolava ao sabor do vento.
O cortejo vinha pela estrada de terra batida e amarelada. À frente, quatro homens seguravam as alças do caixão, coberto por um pano preto que tocava o chão. Logo atrás seguiam as crianças e as mulheres, mais atrás apareciam os homens, alguns à pé, outros à cavalo. Caminhavam em quase sílêncio, apenas balbuciavam a Ave Maria. Virgínia segurava o terço com as mão tremulas e o véu cobria seu rosto ainda jovem; os olhos vermelhos não vertiam lágrimas embora evidenciassem tristeza e sofrimento.
Ao cruzar as primeiras casas do povoado o cortejo dobrou para a direita, ruma a igreja. O padre estava abrindo as portas. O sacristão correu e puxou as cordas do sino e esse começou a bater lentamente. Os quadro homens subiram com dificuldade os degraus e o ataúde balançou como se fosse cair. Atravessaram a porta, percorreram o corredor ladeado por bancos rusticos de madeira escura e pararam junto ao altar. Outros homens tomaram o lugar dos que haviam trazido até alí o morto. Eleodora trouxe um grande jarro de flores novas e o colocou sobre a manta que descia do altar até o chão. Pediu que alguém buscasse, no fundo, dois tamboretes para apoiar o ataúde e em seguida mandou tirar a tampa. Entre folhas e flores perfumadas via-se o rosto pálido do morto.
Eleodora ainda ajudou o padre a ajeitar o longo hábito de cor beje, passou a fita vermelha sobre seus ombros e foi sentar no primeiro banco, ao lado de Virgínia. Sua mão calejade e forte como mãos de lenhadores leguraram as delicadas mãos da infeliz mulher e seus olhos miudos tentaram reconfortá-la.
O Padre fez o sinal da cruz sobre o ataúde, abaixou a cabeça e começou a rezar, no início com voz baixa, quase inaldível, depois foi aumentando, enquanto repetia o sinal da cruz. Por fim, estendeu as mãos sobre o falecido e clamou:
Pai nosso que estáis nos céus, acolhei este Vosso amado filho,Felisvaldo da Cruz, que agora deixa o convivio dos seus; uma alma pura e singela; sem pecados imperdoáveis aos Vossos olhos; vida dedicada ao bem, ao amor por seu humilde povo, sem jamais ferir alguém com atos ou palavras; que o tenhais enternamente ao Vosso lado, amém!
- Senhor, tenha piedade de nós!
Senhor, tenha piedade de nós! O povo repetiu em coro.
O padre pegou uma cruz de madeira pintada de branco, contornou o caixão e saiu rezando: "Pai nosso que estais nos céus."...
As quatro pessoas, encarregadas de levar o féretro, puxaram com cuidado a tampa, fecharam-no e o levantaram cuidadosamente. Saíram, acompanhando o religioso e foram seguidos pelo povo.
Já na rua, o cortejo seguiu rumo ao cemitério que ficava na colina, ao norte. Passaram ao lado da estação de trem, da serraria e, contornando a chácara do Venâncio, alcançaram o portal de trepaderias que adornavam a entrada.
Virgínia foi a primeira a lançar, sobre o caixão no fundo da cova, o ramalhete de flores que trazia na mão. Depois pegou um punhado de terra e o lançou também. O padre continuava a rezar baixinho, acompanhado pelas mulheres. Virgínia puxou novamente o véu sobre o rosto e afastou-se lentamente. Enquanto o coveiro jogava terra sobre o caixão, o povo foi se retirando. O sol começava a aquecer a terra e as sombras das árvores encolhiam-se por sobre as lápides manchadas de cera de velas. Rapidamente o povoado voltou a sua normalidade.

FOI CHACINA

Por: Abel Aquino
Estava trabalhando no computador quando ouvi muitos disparos de arma de fogo. Fui até a janela do quarto da frente. Dali pude ver o homem com a pistola na mão, no meio da rua, apontando para os veículos que passavam. A arma já estava descarregada mas ele apertava o gatilho toda vez que apontava para alguém através do vidro do carros que cercava. Da janela podia ver um corpo caido junto ao muro do outro lado da rua. Quando a policia chegou e o deteve, sai e fui até lá. Surgiam pessoas de todo lado. A polícia pegou o corpo que estava junto ao muro. Atravessei a rua e vi duas pessoas caidas na porta do bar e quantidade enorme de sangue escorrendo por baixo delas e saindo pela guia. A uns cinquenta metros, no meio da rua, havia outro corpo baleado. Era uma visão impressionante! Parecia um palco de guerra: o pente descarregado da pistola jogando no chão, cápsulas deflagradas por toda parte. A gente tentava entender o que se passara ali mas era difícil.
Briga de gangue? Vingança? Comecei a atentar o ouvido para o que comentavam as pessoas a roda dos cadáveres.
- Olhe, este aq ui é o dono do bar! Aquele é o irmão dele. Quem é que fez isso, meu Deus!
Só no outro dia, através da televisão e dos jornais pude ver a caro do assassino e as possíveis razões por tanta carnificina. O assassino era um paraibano de 31 anos.
Fez tudo aquilo por encomenda, embora a encomenda fosse de executar apenas o dono do bar. Percebi que sua fisionomia revelava indiferença e despreocupação pelo que fizera.
É uma pessoa normal? foi a pergunta que me ocorreu. Normal, queria dizer como eu ou você. Seria ele um homem violento, sempre foi violento? Que educação teve?
Como se cria uma criança extremamente pobre lá nos sertões da Paraíba?
Impressionei-me com o poder de fogo da pistola. Fiquei sabendo que era uma 380. Como uma arma com essa capacidade de matança foi parar na mão desse “elemento”, como diz a polícia?
E as pessoas que ele matou eram de bem? a gente pensa logo se mereciam aquele destino ou não. Eram todos do mesmo nível do assasssino?
Começo a ver que existem outros mundos que não o meu, esse mundo da racionalidade, da visão de um mundo que evolui para a civilização, do conhecimento de nós mesmos, capaz de praticar o bem e não só o mal no sentido de destruição. Porque aquelas pessoas que eram seres viventes, humanos racionais, foram enviados para o nada da morte por balas velozes da arma de um endoidecido.
Agora pergunto: ele endoideceu naquele momento ou foi criado para não ser mais que um endoidecido? Imagino que como os tubarões, ele tenha se excitado com o sangue jorrando dos buracos das balas e se transformado em fera perante o cheiro de sangue.Se tivesse mais munição, sem dúvida, continuaria matando quem cruzassem seu caminho.
O mundo do intelectual, o universo do que tem cultura suficiente para fazer elucubrações filosóficas como estas, não tem nada a ver com o mundo daquela pessoa que atirou e matou quatro semelhantes como quem atira em ratos ou coisa parecida.
Seu mundo é bruto com um palco de guerra e a morte é apenas o azar dos que perdem a batalha. Imagino que, na cadeia, ele vai se vangloriar perante os companheiros de cela e contar repetidas vezes a proeza que fez. Poderia, com isso, se transformar no lider ali dentro. Mas não terá dor de consciência? Não sentirá remorso pelo que fez?
Mas dor de consciência tem aquele que tem consciência. Esse assassino vive num estágio mais animal de vida, foi criado assim, imagino. Violência para ele faz parte da vida. Pode ter tido pai violento, mãe violenta, tio violento, coronel violento, ricos violentos. Fiquei sabendo que ele tem um irmão também matador, que mato por prazer, como dizem. Será um mal de família? É difícil dizer.
A única certeza que temos é que quatro corpos estavam estendidos no chão, sem vida, com sangue escorrendo pela calçada. Depois a policia arrastou os cadáveres pelas pernas como se arrastasse porcos em dia de carniceiro. Tudo naturalmente; e os curiosos suspiraram por aquilo não ter acontecido com eles.

CLANDESTINIDADE

Por: Abel Aquino
O homem olha o riacho,
as flores se desprendem e
caem sobre a superfície da água.
Ruidos de botas no cascalho...
a moça que segue a estrada;
a blusa vermelha e o
cavaleiro indo ao seu encontro.
A cintura se dobra,
as patas se deteem no chão.
Uma revoada de pássaros sobre
os montes de palhas de arroz.
Beijo silencioso...
a jovem corre e
o cavaleiro segue seu caminho.

NA TRILHA DA FLORESTA

Por: Abel Aquino
Vou caminhando pela trilha estreita da floresta. Não preciso ter pressa. Vejo pedras de um lado e do outro, algumas apontam suas quinas para dentro da trilha e nossas pernas passam por elas com cuidado. Não há ruido de passos nessa hora. O sol está no ponto mais alto do céu e as folhas das árvores repicam a luz e deixam chegar ao solo somente pedaços disformes de claridade. As folhas mortas estão cobrindo o solo e eu forço a ponta da bota no solo para levantar essa folhas e ver a cor da terra.
Escolho um tronco caido para sentar e fico olhando a minha volta. Observo o movimento das folhas mais altas sobre a pressão do vento. Um pássaro voa de um galho para outro. Neste momento não consigo pensar, lembrar de vozes, de gritos de gente. Estou usufruindo dos ruidos e gorjeios da natureza.
Meu avo gostava de contar para as crianças as coisas da mata, dos encontros de bichos e homens e a gente, criança, ouvia enbevecida. Ele sentava ao lado do fogão de lenha, olhava para nossas caras de meninos curiosos, levantava o dedo e falava de fatos e aventuras quase fantásticas. A floresta tornou-se, em nossa imaginação, o reino das histórias quase homéricas, recheadas de casos, sustos e medo.
Mas hoje não tenho medo, não sinto aquela ansia de imaginar os perigos e imprevistos que podem acompanhar um homem caminhando pelas trilhas da mata.

DILEMA

Por: Abel Aquino
A gente apenas percebe
O mover das coisas - a carta que veio.
Num segundo o livro fecha
E ela olha as cortinas estiradas,
O som da faca cortando cenouras.
Alguém pigarreia...
É o tempo - lança quebrada
E os sapatos com cheiro de graxa.
Os dedos sem anéis...
Ela não quer depender da espera.
Se o carro cruza
Outro abaixa os faróis
E a rua novamente vazia.
O blusão aperta os ombros;
Ela teme mexer nas coisas,
Encontrá-lo de volta,
Repetir os ciclos da separação.
Mas lembranças caminham!
A lonjura apangando marcas
E ela, menina, molhando os pés no rio.

A VISÃO E A DÚVIDA

Por: Abel Aquino
Todo mundo tinha medo da correnteza naquele ponto do rio. As margens ficavam estreitas e as pedras negras e sempre molhadas da margem empurravam a água turva para o meio, onde rodopiava, encrespada, e descia velozmente por mais de cem braças até encontrar o remanço.
Marcilio parou sua montaria junto ao barranco e ficou, por alguns minutos, observando a corredeira. De vez em quando os raios do sol da manhã brilhavam na barriga prateada de peixes que desciam saltitando por entre as pedras.
De repente viu o corpo de uma pessoa rodando pela correnteza, de bruço, com a roupa rasgada, os braços abertos e balouçando nos movimentos da água. Por um momento Marcilio acompanhou o corpo, fustigando o cavalo e percorrendo a margem do rio, mas logo adiante o mato impedia a passagem e teve que afastar. Contornou o mato e, metros à frente, voltou a se aproximar da margem. Perscrutou a água mais não viu mais o corpo.
Resolveu voltar para casa. Depois de espalhar a noticia, os vizinhos curiosos desceram correndo em direção do rio para ajudar Marcilio a procurar o corpo. Ficaram a tarde toda percorrendo as margens acidentadas, mas não encontraram nada. Marcilio ia a frente com o facão na mão, abrindo caminho no capim alto do brejo.
Depois de duas horas de procura começaram a duvidar da história.
Marcilio, você deve Ter visto coisa demais, disse Fúlvio duvidando.
Não sou maluco, sô, respondeu Marcilio. – Vi muito bem; era um defunto boiando na água, sim!
Mas então deveria estar parada nesse remanço agumentou Crispim.
Era um defunto,sim, repetiu Marcilio já impaciente.
Eu não vou procurar mais não, concluiu Fúlvio. – Daqui um pouco escurece e a gente não pode ficar aqui para ser picado por cobra nesse matagal besta.
A gente pode não achar o corpo, justificou Marcilio. – mas que eu vi, eu vi.
Voltaram para suas casas, conversando, uns achando que o rapaz estava maluco, outros dizendo que poderia até ser verdade mas faltava o corpo para tirar toda dúvida. Marcilio ficou alguns passos para trás, resmungando. Sabia que aquilo iria virar motivo de chacota mas estava confuso. Olhou para trás ouviu o barrulho da correnteza e pensou: será que eu me enganei?